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Jogar como se estivesse 0-0, só que não

Pela primeira vez em oito anos, o FC Porto não vai jogar a Liga dos Campeões. Culpa dos jogadores, que erraram e falharam até mais não sem bola, e de Sérgio Conceição. O treinador arriscou no jogo de maior risco da época, estreou Nakajima, Luis Díaz e Saravia a titulares, deu alguma esquizofrenia à equipa na organização com bola, viu-a a ser traída pelo próprio caos e a perder (3-2), em casa, com o Krasnodar a quem tinha ganhado na Rússia

Diogo Pombo

JOSE COELHO/Lusa

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Não querendo dar uma certeza absoluta, analítica e sintética, é, digamos, altamente duvidável que em cursos de treinador, seja em que degrau for na escada imposta pela UEFA, se apregoe o que devem eles dizer, em público, quando vencem a primeira mão de uma eliminatória e vão jogar a segunda em casa. A não ser que haja um módulo especial de ‘Futebolês: Uma Introdução aos Clichés I’.

Havendo, o jogar “como se estivesse 0-0”, dito após uma vitória fora, seria do mais arenoso para os olhos que poderia haver. Jogar à procura de uma vantagem quando não a tem é e será diferente do que ir para o campo e jogar quando o resultado já é vantajoso. Implica pensar numa estratégia, como quaisquer 90 minutos, ter um planeamento, que acaba, logo, se uma bola entra na baliza ao terceiro minuto.

Lá se vai toda uma forma de encarar um jogo no primeiro canto defensivo, onde Tony Vilhena fica à entrada da área, sem movimentações-sombra ou bloqueios a libertá-lo. Fica só ali, à espera a olho nu, ninguém o marca antes da bola ser batida, e ninguém o continua a vigiar quando vai atrás da sobra (já dentro da área) e remata o 1-0. Ou o 1-1, na perspetiva global das coisas.

O FC Porto já perdia antes, sequer, de começar a jogar. Agora tinha de reagir a um estado bastante adverso, por muito que igualado estivesse nos números da eliminatória, porque a um golo sofrido assim juntava-se a derrota caótica em Barcelos, uma conjugação de eventos que pouco devem abonar à confiança de quem na bola deve tocar. E, depois, porque Sérgio Conceição arriscou no jogo de maior risco, até então, da época.

Estrear Luis Díaz e Nakajima de início induzia, além de ter pés com mais técnica, jeito e capacidade na bola, que puxou por duas cabeças criativas, com mais ideias. Mais pensantes e, por consequência, talvez mais gestoras da posse de bola, em vez de vertiginosas, como é costume na equipa. O colombiano ficou à esquerda, muito a partir da linha, e o japonês ao centro, atrás do avançado e entre as linhas do Krasnodar. Com Sérgio Oliveira uns metros para lá de Danilo, parecia ser um FC Porto a querer tocar passes, a organizar pensando em vez de atacar verticalizando, sem que as circunstâncias importem.

Portanto, algo que o treinador e o seu estilo viciado na profundidade, direto na alimentação dos jogadores da frente, quase nunca foram nos últimos 24 meses.

Sendo Marega o único avançado na frente de Nakajima, que muito participava com bola na metade russa do campo, a equipa esquizofrenizou-se a atacar: o maliano fugia do central, arrancava para as costas, pedia um passe no espaço sempre que via o japonês de frente para a baliza. Mas ele pedia para tocar. Havia um pequeno criador, de caneleiras uns tamanhos acima nas pernas, com perfil para jogar com alguém que lhe sirva de parede, a ver esse alguém a bater em retirada porque, pronto, é esse o perfil que tem e o (único) estilo que o favorece.

Com bola, o FC Porto não foi mais do que a cabeça de Pepe a rematar cruzamentos de canto, os pés de Nakajima e Sérgio Oliveira a afrouxarem remates fora da área. O maior imbróglio era, contudo, era sem bola. As transições defensivas eram um conjunto de problemas: cada jogador por si, não se viam comportamentos em equipa, uma linha defensiva a não encurtar espaços, nem a recuar para fazer contenção, toda a gente a não reagir e os laterais, constantemente, sem coberturas quando se viam em 1x1 com os extremos do Krasnodar.

E, dado o acumular de decisões erradas e mal tomadas no passe, o FC Porto perdia muitas bolas. Multiplicava os contrapés. Um ataque rápido lançou o rapidíssimo Shapi Suleymanov para ele, um canhoto, rematar o 2-0 com o pé direito entre as pernas de Marchesín, no dia em que o planeta celebra os canhotos. Mesmo sabendo disto e do pé preferido do russo, Luis Díaz deu-lhe todo o meio do mundo, perto da área, para o russo cortar da direita para dentro e ter espaço para bater o 3-0.

Em 34 minutos, o FC Porto tentou jogar não se sabe bem como, reagiu às perdas como se nunca tivesse treinado, afundou-se num contexto mais do que desfavorável para arriscar, pela primeira vez, reforços na equipa. O que favoreceu a que especialmente um deles, Saravia, errasse em quase todas as ações com bola e fosse ultrapassado como faca em manteiga no verão em duelos defensivos.

Gualter Fatia/Getty

A estratégia e a sua (não?) execução arruinou a equipa. A solução de Sérgio Conceição foi tirar o lateral direito argentino ainda antes do intervalo, em nada abonando à confiança, e, presumivelmente, dizer das boas à equipa no balneário, de onde saiu o que se veria na segunda parte.

O FC Porto jogou com o par de médios uns bons metros à frente, mais perto da área, com menos distância para as segundas bolas e as reações à perda, a que tinham chegado atrasados. Dessa dupla saiu Sérgio Oliveira, que caiu lesionado pouco depois do recomeço para o azar se juntar à implosão da equipa - e para entrar Uribe, outro estreante em noite pouco aconselhável a testes.

Em cima de três golos, o Krasnodar não manteve a postura de lançar sempre três ou quatro jogador, em velocidade, em transições muito verticais. Juntou as três linhas sem bola, encostou-as mais atrás - também empurrados pela pressão urgente do FC Porto - e manteve os quatro defesas a alinharem-se perto da área. Ficando Marega em campo, não lhe davam os metros para ser servido no espaço.

Marega ficou com a companhia de Zé Luís na área, dois matulões físicos que muito se diferenciam no trato que têm nos pés, mas cujas diferenças se diluíam na forma de jogar. O FC Porto sobrecarregou os passes nos laterais, sobretudo em Corona, o improvisado lateral à direita, para que cruzasse toda a bola que lhe chegasse (nem um jogador se aproximava, em apoio, para dar outra hipótese). Apesar de o melhor cruzador ser Alex Telles, que fez chegar à cabeça de Zé Luís o 1-3, já depois de Marchesín aguentar os números do desastre ao parar um contra-ataque russo.

O guarda-redes ainda pararia outro remate, daria oxigénio às tentativas carentes de tino, organização ou cabeças bem pensantes com o decorrer dos minutos. A equipa cruzava até mais não, esperava que Pepe e Danilo amenizassem o nervoso Marcano e sustivessem os laterais mais do projetados nos últimos 30 metros e forçava que algo saísse do improviso. Mesmo que sem contexto algum para tal, Luis Díaz bateu um remate forte à entrada da área para 2-3, talvez imune à dimensão do peso da situação: gastou tempo a ir celebrar à bandeirola de canto em vez de poupá-lo num retorno rápido ao meio campo.

Os 14 minutos que restavam compuseram-se com remates sem força ou direção, cruzamentos de previsível não recompensa, uma equipa falível a despejar angústia na área, jogadores aos pares, ou triplas, a trocarem passes sem intenção por trás, só para tentarem algo diferente no meio da desorganização total. O FC Porto perdeu com o Krasnodar e saiu da Liga dos Campeões sem chegar à fase de grupos, o que lhe daria perto de 44 milhões de euros.

Perdeu o primeiro jogo oficial em casa, mas não só.

Fora as lágrimas de Pepe, no final, o FC Porto perdeu na primeira vez, tão cedo na época, em que o treinador arriscou jogadores para fazer diferente sem que, pelas evidências, preparasse a equipa para ser diferente. Repetindo, o FC Porto dos últimos dois anos é vertical, direto na procura dos avançados e fã da procura da profundidade em toda a posse de bola. Não é calmo, organizador e gestor quando ataca a baliza, como parece ter querido ser, mas não o sendo verdadeiramente, com uma troca de mensagens cheias de ruído pelo meio na escolha do onze.

Sérgio Conceição arriscou quando o risco era desaconselhável e sofreu a mais pesada e significante derrota como treinador do FC Porto, enquanto, para fora, vai dizendo que não é por um jogador ter 19 anos e vir da formação, ou por outro ter custado muitos milhões, que têm que jogar. Mas o que deve importar, sempre, é a qualidade. Esta noite, contra o Krasnodar, a qualidade apresentada não foi, de longe, a suficiente. E a culpa é, também, do treinador, como diz o cliché que talvez seja o mais justificado do futebol.