Tribuna Expresso

Perfil

FC Porto

Explicando os 34 minutos que queimaram €44 milhões

O FC Porto apresentou-se num sistema um pouco diferente do habitual, estreou Nakajima, Saravia e colocou Diaz, mas nem foi por aí que as coisas correram mal. As bolas paradas, à partida uma especialidade da casa, apresentaram erros raros e o Krasnodar aproveitou-os

João Almeida Rosa

NurPhoto

Partilhar

Quando um treinador muda e o resultado não é o esperado, a crítica fácil foca-se nas mexidas realizadas pelo técnico, mesmo que as coisas não estejam necessariamente relacionadas. Foi o que se passou no Estádio do Dragão, frente ao Krasnodar, onde Sérgio Conceição trocou os dois habituais avançados por apenas um com o apoio de um 10, Nakajima, que ainda nem tinha tido minutos nesta temporada. Além disso, promoveu também a estreia de Saravia, que durou 38 minutos até ser substituído. Ainda assim, os problemas não foram estes, ou pelo menos não foram sobretudo estes.

Após uma vitória por 1-0 na Rússia onde o resultado podia ter caído para qualquer lado, o FC Porto viu a vantagem ser anulada ainda mal tinha entrado em campo: aos 3’, na sequência de um canto batido pelo lado direito do ataque dos russos, Tonny Vilhena fez o empate.

Aqui, o primeiro ‘pormaior’ que pode ter escapado aos olhos da maioria dos adeptos – após a cobrança de Suleymanov, na grande área azul e branca estavam oito jogadores de campo do FC Porto (mais Marchesín) e seis do Krasnodar. A vantagem numérica é menor do que a habitual, fruto do conjunto da casa ter deixado dois homens na frente, e como se não bastasse todos os oito que lá estavam atacaram a zona da bola, ao contrário dos russos, que deixaram um à entrada da área e outro, o autor do golo, no segundo poste. O destino do ressalto, por isso mesmo, acabou por ser menos aleatório do que à partida poderia parecer e o 1-0 foi feito.

A perder, os dragões reagiram num 4-2-3-1 que, embora nos jogos oficiais não tivesse sido utilizado, já havia sido testado na pré-época, na altura com Corona no apoio ao ponta-de-lança. Nakajima mostrou-se muito interventivo e disponível para receber a bola, mas nem sempre executou bem no último terço, talvez por (ainda) possuir um “chip” demasiado diferente do de Marega, que o faz pensar constantemente em soluções distintas daquelas que o FC Porto mais procura. Os portistas conseguiram instalar-se no meio-campo ofensivo, mas as soluções raramente foram além de remates de meia distância ou de cruzamentos para a área. Houve um ou outro momento de perigo, contudo aos 12’ novo ‘pormaior’ deixou tudo mais difícil.

Num livre frontal para os azuis e brancos numa zona em que pode sair remate, mas a distância ainda é alguma, os defesas subiram à área contrária. Contudo, Alex Telles, Corona e Sérgio Oliveira decidiram testar um livre estudado que terminou com um remate do médio contra a barreira e possibilitou uma transição do Krasnodar.

O problema? Entre os jogadores que haviam subido à área e os três envolvidos na execução do livre, o FC Porto ficou com somente três atrás da linha da bola. Se o lance foi trabalhado, e já era esperado que houvesse remate, os defesas deveriam ter ficado atrás; e, se não ficaram, o remate nunca poderia ter morrido na barreira. A partir daí, mérito e alguma sorte dos visitantes que ganharam um ressalto após o primeiro passe e depois definiram com competência a oportunidade para o 2-0.

Se já havia pressa na organização ofensiva do FC Porto, que nunca foi propriamente uma equipa muito paciente com bola, os níveis de precipitação após o segundo golo aumentaram mais ainda – e, com isso, também as perdas de bola foram crescendo. Com Wanderson na esquerda e Suleymanov na direita, apoiados por Cabella, o Krasnodar foi aproveitando para semear o receio de que o jogo não seria de sentido único, embora os dragões dominassem a posse de bola, como seria de esperar. Perigo, no entanto, só de bola parada, por intermédio de Pepe, que cabeceou por cima.

Jogar como se estivesse 0-0, só que não

Pela primeira vez em oito anos, o FC Porto não vai jogar a Liga dos Campeões. Culpa dos jogadores, que erraram e falharam até mais não sem bola, e de Sérgio Conceição. O treinador arriscou no jogo de maior risco da época, estreou Nakajima, Luis Díaz e Saravia a titulares, deu alguma esquizofrenia à equipa na organização com bola, viu-a a ser traída pelo próprio caos e a perder (3-2), em casa, com o Krasnodar a quem tinha ganhado na Rússia

Pelo lado contrário, aos 34’, o Krasnodar consumou as ameaças que havia feito, já após uma desatenção de Marcano que não havia dado golo. Alex Telles subiu pela esquerda e cruzou para as mãos de Safonov, mas ficou no chão a queixar-se da cara. Os russos construíram pelo lado oposto, atraíram vários portistas a esse corredor e, perante alguma passividade de Sérgio Oliveira que permitiu a Tonny Vilhena rodar quando estava de costas, viraram o jogo para Suleymanov, o jovem extremo de 19 anos. Em 1x1 contra Diaz (que ocupou o lugar do desposicionado Alex Telles), aproveitou o facto de o colombiano lhe ter fechado o lado de fora e lhe ter oferecido o espaço central, como se ele não fosse esquerdino, e fez um bom golo.

Na Liga dos Campeões os erros pagam-se caro porque os adversários têm valor, mesmo nas fases de qualificação. Em 34 minutos, mais do que um sistema pouco familiarizado ou um par de jogadores com menos rotinas, o FC Porto pagou pelos ‘pormaiores’ que negligenciou: com oito na área, nem todos podem atacar a bola no ar; quando os nossos defesas estão na área, um remate não pode morrer na barreira, e se isso acontecer, tem de ser feita uma falta; e quando fazemos o lugar de um lateral, temos de nos lembrar que do outro lado está alguém como nós, que agradece quando nos dão a zona central em detrimento da lateral.