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O Zé do golo e do não golo

O Santa Clara conseguiu, durante todo o jogo, impedir que bolas caíssem na sua profundidade e que os avançados do FC Porto - que ganhou por 2-0 - recebessem nas costas dos defesas, como é sempre a intenção. Um dos golos foi de Zé Luís, que já leva seis no campeonato, mas saiu de campo a abanar a cabeça com desilusão

Diogo Pombo

JOSÉ COELHO/Lusa

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O exercício é colocarmo-nos, por momentos, nas chuteiras dos jogadores do Santa Clara que, em cinco jogos, apenas deixam passar dois golos por eles, ambos à primeira jornada (contra o Famalicão) e vão a um de três estádios do campeonato onde, em dia bom ou mau, terão menos bola, cada jogador do adversário é melhor e mais tempo vão passar em modo defensivo, do que atacante.

Sou um dos três centrais, estou ao centro, sei que eles vivem de verticalizar passes e serem diretos a explorar o espaço que há entre os defesas e a baliza, a dita profundidade, para onde o matulão Marega sempre explode em desmarcações, nos faz rodar e ir atrás de quem é tramado alcançar quando o passe é-lhe feito para a frente. Temos de manter a linha a 10, 15 metros da área, no máximo, para encurtar o campo.

Se sou um dos médios e ciente estou do bloco baixo que a linha defensiva exige, não me posso afastar deles, para não abrir espaço entrelinhas e deixar que um dos avançados, ou um extremo, peça a bola nas minhas costas. Mas, tão pouco, devo cair no engodo de me colar aos defesas e espremer as linhas na área, porque isso dá espaço a que tipos como Luis Díaz encarem a baliza, à entrada da área, e rematem (4’).

E, se for avançado, que não defenda em linha com o outro para não sermos batidos só por um passe, que deixe os centrais contruírem porque mais vale Pepe ou Marcano a improvisarem com linhas de passe cobertas, do que Danilo ou Uribe, com espaço e tempo, a verem o campo de frente.

Quem, de facto, joga no Santa Clara, cumpre estas e mais coisas na primeira parte, menos a parte de afunilar demasiados jogadores na área, como quando Danilo lá recebe um passe, tem só adversários passivos à frente para o verem trabalhar a bola com técnica e cruzá-la para Zé Luís, de cabeça, marcar (15’) o sexto golo no campeonato e castigar uma evidência - ter muitos números na área nada serve se todos forem estáticos e apenas olharem para a bola.

A passividade até nem se repetiu, mas o acumular de jogadores na área, as linhas demasiado juntas, sim, empurradas pelas muitas jogadas em que o FC Porto chegava, por fora, junta à área, para libertar por dentro Zé Luís e, sobretudo, Otávio. Eles recebia muito à entrada da área - Marega e Díaz fixavam dois centrais e criavam a dúvida de sair na pressão, ou manter a posição, no outro - e tentavam picar passes ou tabelar, sem que o conseguissem muitas vezes.

Marega e Zé Luís não encontravam toques de bola na área, não havia o pé esquerdo que melhor cruza do campeonato (Alex Telles) em campo, raro era Luis Díaz não ter dois adversários a apertá-lo, então Danilo, Uribe e Otávio eram os primeiros passes e a criação dos últimos. Sem bola, o FC Porto era convidado a pressionar muito alto porque o Santa Clara ousava sair pela relva, do guarda-redes, e, mesmo sem rematar, chegou um par de vezes à área de Marchesín.

MIGUEL RIOPA/Getty

Um segundo golo surgiu, na área, quando o central César voltou a saltar com o pé direito, atacando a jogada com o corpo virado para baliza própria, a um cruzamento por alto, num livre. Zé Luís chegou-lhe primeiro no 1-0, desta vez foi o brasileiro a tocar a bola (41’) para o 2-0.

O Santa Clara manteve a forma de jogar com e sem bola. Tentava sair apoiado nos pontapés de baliza e, sem partir de um momento parado, continuou a confiar nas transições rápidas, porque a forma de defender assim o formatava.

Os açorianos não fugiam muito com a linha de defensiva da área, logo, o FC Porto não tinha o espaço que tanto quer explorar com intensidade há mais de duas épocas. Imaginando-nos, agora, em cabeças portistas, vendo como Marega não recebia bolas em corrida, atrás dos defesas, talvez uma forma de o conseguir fosse tentar operar de outra maneira.

Não, insistiram em ter o passe vertical, para um dos avançados, como prioridade até aos 75 minutos. Os centrais do Santa Clara cortam todos os passes de rutura e as situações para finalizar vieram de um remate desviado, fora da área, de Luis Díaz (60’), um cruzamento de Corona para Zé Luís não marcar de cabeça (68’) e outros dois remates do avançado, só com o guarda-redes à frente, originados por pressão alta feita na saída de bola adversária - não por produção própria.

O Santa Clara nunca ameaçou, antes insistiu, fiel, à progressão com passes no pé e pela relva, saindo muito na inspiração do lateral Patrick e tentando envolver Schettine e Lincoln, os dois dribladores que saíram do banco. A equipa não teve finalizações com perigo na baliza, mas arriscou, sempre, atirar quatro ou cinco jogadores à frente da bola, a atacar.

Perdeu, sofreu tantos golos em 90 minutos quantos sofrera em cinco jogos e viu o FC Porto ganhar sendo, ainda, unidimensional e gerando oportunidades (na segunda parte) quase só a partir de perdas de bola adversárias. Os portistas igualaram o Benfica na liderança do campeonato, mas, ao sair de campo e sentar-se no banco, Zé Luís abanou a cabeça.

Não por lamentar isso, mas - e visualizando-nos agora na cabeça do avançado - por, talvez, ainda estar a remoer o desequilíbrio entre as oportunidades que falhou e a que aproveitou.