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O síndrome Stanley Ipkiss

Frente ao líder Famalicão, o FC Porto pôs a sua melhor máscara: numa das melhores exibições do ano, domínio absoluto, vitória por 3-0 e liderança do campeonato

Lídia Paralta Gomes

Quality Sport Images/Getty

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Ele era um empregado bancário, inseguro, meio sem graça, tenso e controlado, uptight como gostam de dizer os anglosaxónicos, sem jeito para conquistar miúdas, quanto mais Tina, loira, linda, exuberante, tudo aquilo que ele não consegue ser, dentro do seu fatinho de cor indefinida que leva todos os dias para o banco.

Até que um belo dia, Stanley Ipkiss encontra uma espécie de artefacto, uma máscara de madeira. Quando a coloca na cara, o tímido Stanley transforma-se num ser exibicionista, confiante, capaz de mover o corpo de maneiras biologicamente impossíveis, capaz de tudo e mais alguma coisa, para bem e para o mal.

Tenho algumas dúvidas que “A Máscara” seja um marco da história do cinema, um daqueles filmes que aparece naqueles calhamaços que nos dizem quais são os 1001 filmes que temos de ver antes de morrer, mas lembro-me que, do alto dos meus sete anos à altura, me diverti muito com a aquela comédia meio amalucada, com o humor físico daquele ser verde, nesse filão sempre tão explorado pelos livros e pelos filmes dos tímidos que se desprendem das suas inseguranças, neste caso, por causa de uma máscara.

Uma máscara que o FC Porto parece encontrar esta temporada na hora dos grandes momentos.

Porque é bem possível que o FC Porto tenha aproveitado a receção ao líder e equipa surpresa da liga, o Famalicão, para assinar a segunda melhor exibição da época, demasiado tempo depois da primeira, frente ao Benfica, já lá vão dois meses.

Fora desses dois jogos, o FC Porto tem sido Stanley Ipkiss: amorfo, sem cor, chato, inseguro, como um empregado de balcão que não sabe mais do que carimbar documentos. Naqueles que terão sido dois dos mais importantes jogos da época até agora, exuberância, confiança, dinâmica, capacidade de definir estratégia e travar a estratégia rival. E sem necessidade de assaltar bancos, como o “Máscara”, malandro, fazia - porque nem sempre o poder é utilizado com sabedoria.

MIGUEL RIOPA/Getty

Talvez a boa exibição do FC Porto na vitória por 3-0 frente ao Famalicão se explique desde logo com o onze inicial. Não tanto a entrada de Mbemba e Manafá para a defesa, onde, surpresa, não esteve Alex Telles, mas sim lá à frente, com Sérgio Conceição a abdicar de Marega e Zé Luís para apostar em Tiquinho e Corona perto do brasileiro, com licença para se mover.

E isso trouxe desde logo um FC Porto com mais bola, mais toque, com mais jogo interior e combinações à procura de espaços. A abordagem, ainda para mais depois de semanas e semanas de exibições previsíveis, terá surpreendido o Famalicão, encostado às cordas nos primeiros minutos, em que Defendi foi fechando de todas as maneiras e feitios a baliza, fosse a remates de fora de Uribe ou a cabeceamentos de Soares.

Sempre com facilidade em chegar à área, fosse através de combinações entre os médios e o ataque no miolo ou de incursões das linhas para o centro, o FC Porto via o Famalicão a reagir a espaços, tentando manter-se fiel à ideia de jogo que colocou a equipa no topo da tabela, a tentar invariavelmente sair de trás, mas também invariavelmente a despachar a bola para a frente quando não havia espaço. Perigo só mesmo num remate de surpreendente Fábio Martins aos 19’, que apanhou Marchesín adiantado, mas ainda com tempo para uma grande defesa.

Ainda assim, a dinâmica e a pressão constante do FC Porto só teve frutos no final da 1.ª parte, com Otávio a aproveitar um erro na saída de bola de Patrick para lançar o contra-ataque, concluído com sucesso após uma combinação entre Corona e Luis Díaz, o colombiano que marca há três jogos seguidos.

Quality Sport Images/Getty

A vantagem ao intervalo era curta e na 2.ª parte o FC Porto procurou o controlo do jogo que, na verdade, sempre teve. O ritmo baixou, porque o Famalicão estava manietado e só nos últimos 20 minutos a equipa de Sérgio Conceição tornou mais gorda a vitória, números justificados com uma das melhores exibições da temporada. Aos 72’, Tiquinho aproveitou mais uma perda de bola do Famalicão, desta vez de Lionn, que tão bem tinha estado na primeira parte, resolvendo problemas atrás de problemas na área da sua equipa, seguindo campo fora e contornando Defendi para fazer o 2-0.

Aos 88’ foi o miúdo Fábio Silva a emular de forma perfeita a pressão que Sérgio Conceição pediu aos seus jogadores, forçando o erro da defesa do Famalicão e depois de Defendi para fazer o 3-0.

E foi assim, de máscara nova que o FC Porto chega à liderança da liga, este FC Porto que se transforma nas grandes ocasiões, que domina e anula o adversário quando o adversário até parece ser mais complicado. As épocas, no entanto, não são só feitas de grandes ocasiões - e o FC Porto não pode ser mais Stanley Ipkiss que Máscara.