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Uma ressaca curada com agressividade

Em jogo com 30 faltas e, portanto, quase na média do que Boavista e FC Porto fazem neste campeonato, o único golo (0-1) veio da forma combativa e agressiva com que Alex Telles ganhou uma segunda bola e a rematou, à entrada da área, talvez dando razão, por momentos, ao que Sérgio Conceição disse. Não foi bonito, mas os portistas ganharam um dia depois de ficarmos a saber das consequências de uma festa de aniversário

Diogo Pombo

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/Lusa

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Suponhamos que, obra da curiosidade ao ver, de algures na Galáxia, o planeta azul de lá longe, um extraterrestre de verdade (não o que faz de livres meros penáltis, ou o que não gosta de ser substituído) chegava à Terra de repente, sem anunciar a visita, aterrando no Bessa e dando, de caras, com seres bípedes a correrem num retângulo verde atrás de uma coisa redonda.

Estranhando, tentaria entender o que se passa, prestaria a devida atenção, primeiro, aos tipos vestidos de amarelo. À forma como a bola conta mais tempo com eles, como os centrais Marcano e Mbemba pisam, quase, a linha do meio campo, os laterais se projetam e os médios Danilo e Loum, com tempo e espaço para rodar sobre a bola e matutá-la, calmamente, a lançam, contudo, em passes longos, verticais e pelo ar.

Repararia, pois claro, que a maioria dessas tentativas apontam a um corpulento avançado em particular, o corredor Marega, que arranca, explode entre adversários e ataca com desmarcações os canais entre Fabiano, Neris, Ricardo Costa, Dulanto e Marlon, cinco defesas que os de xadrez alinham, por vezes, junto à grande área, para congestionar áreas viciantes para o FC Porto.

Em uma, duas, três e no que foram dezenas de posses de bola na metade do campo do Boavista, tiveram no salivar de Marega pela profundidade a habitual primeira opção de desequilíbrio, apenas abdicada se, criada a segunda bola e um duelo para a disputar, a ganhassem. Aí tocavam em Otávio ou Corona, os desejáveis desequilibradores para quando o adversário estivesse mais desorganizado.

Daí resultou, digamos, nada de perigoso, porque esta forma unilateral de atacar gerou apenas cruzamentos rasteiros e bolas recuperados à beira da área, onde apenas uma foi proveitosa: o mole e pouco raçudo Heriberto dividiu o ataque a um ressalto com quem cruzara a bola, Alex Telles, que a ganhou e logo bateu, em força, para a baliza. Aos nove minutos, um golo.

O FC Porto, depois, fez o que já se escreveu e o Boavista já com reputação de ser a reencarnação do velho Boavistão faltoso, durinho, vertical e bombardeador de bolas, até nem o foi por aí além. Ter muita gente na primeira fase de construção facilitou-lhe a vida, porque partia a pressão adversária, e tentava fazer a bola chegar à técnica canhota de Rafael Costa ou à de Marlon, único que, realmente, insistia nos lançamentos para as costas dos laterais portistas.

MANUEL FERNANDO ARAAJO/Lusa

Mas, de palpavelmente perigoso, apenas criou um canto desviado ao primeiro poste para, perto do segundo, Ricardo Costa desviar a bola a um metro da baliza, sem lhe acertar.

Vistas bem as coisas, se o extraterrestre jamais tivesse avistado futebol, pensaria que a combatividade e agressividade compensam e dividem o sucesso do insucesso - porque, factualmente, foi assim que Alex Telles ficou com a bola na qual, depois, usou o talento para rematar.

O talento não foi, de todo, por mais trocas e baldrocas que se deem aos olhos, o sexto elemento numa hipotética ordem de prioridades do que é mais importante no futebol.

Sérgio Conceição é da opinião que sim, que antes do jeito inato e trabalhado ou uma mescla de ambas, há a combatividade, a boa agressividade e quatro outras coisas que não chegou a enumerar. Não o ouvindo, o também imaginário não terráqueo aterrado no Bessa talvez acreditasse, caso ficasse para assistir à segunda parte.

Porque, aí sim, o Boavista-FC Porto portou-se como o antecipado: cheio de ressaltos, bolas pelo ar, passes longos e as temidas faltas, entre duas das três equipas que mais as cometem, no campeonato. Ao intervalo havia seis, no final contavam-se 30, os boavisteiros com 14, os portistas com 16 e o tempo útil de jogo a mirrar, em agonia.

O FC Porto apenas voltaria a acertar na baliza aos 73’, num canto, e aos 89’, num pontapé longo de Otávio apanhado por Zé Luís, que rematou ao poste. O Boavista já nem perto da área chegava com a bola nos pés de alguém. Viu-se um resto de jogo batalhador, faltoso, com jogadas a não viveram para lá de cinco passe e sem alguma equipa a fazer por evitar os momentos (segundas bolas, duelos, chutões) que, para quem vê de fora, não fazem do jogo um espetáculo.

Quem somos nós para duvidar, então, do que Sérgio Conceição diz, quando o FC Porto ganha sendo combativo e agressivo, lutando muito enquanto antes de dar se focar no "talento dos jogadores" que o treinador acredita ser "o sexto momento" do futebol. E quem seria o extraterrestre para duvidar, se esta fosse a sua primeira amostra do jogo mais praticado no mundo a que acabara de chegar - ou saber, sequer, que em campo faltavam Marchesín, Uribe e Luis Díaz, desconvocados por, alegadamente, se excederem na hora a que foram à cama, após uma festa de aniversário.

Há, todas as semanas, por esse mundo fora, ressacas bem mais custosas de curar.