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Um jovem rapaz renascido

Em casa do Young Boys, houve um rapaz a nascer de novo para o jogo e para o golo. Aboubakar foi titular, pela primeira vez esta época, e marcou pela primeira vez desde setembro de 2018, um bis que desenovelou um encontro que chegou a estar complicado para o FC Porto. A vitória por 2-1, numa reviravolta conseguida já nos últimos 15 minutos, deixa os dragões dependentes apenas de si próprios para seguir em frente na Liga Europa

Lídia Paralta Gomes

STEFAN WERMUTH/Getty

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Às vezes pergunto-me se há alguma atividade seja mais pródiga que o desporto em matéria daquilo que gostamos de chamar de redenção. Talvez o cinema, sim, aqueles regressos de atores que se julgavam esquecidos, perdidos por uma miríade de razões, ou porque a vida lhes correu mal, porque não lidaram bem com a fama, porque se meteram em coisas que não deviam ou, simplesmente, porque deixaram de estar na moda.

Mas o cinema é um produto produzido, terminado e apresentado, nada ali acontece em direto, minuto a minuto, jogada a jogada. E é por isso que talvez nada seja mais emocionante que uma boa história de superação no desporto: porque geralmente podemos assistir a essas histórias ao mesmo tempo que elas acontecem.

Não sei se podemos falar desde já de um renascimento de Aboubakar, que com dois golos que valeram a reviravolta ao FC Porto em casa do Young Boys pode ter salvo o clube de uma embaraçosa eliminação precoce na Liga Europa. Mas há, pelo menos, um novo sopro de vida num jogador a quem as lesões e as desconfianças que resultaram dessas lesões não têm deixado em paz nos últimos anos. A ele, que não marcava desde setembro de 2018 e que desta vez marcou dois, deixando o FC Porto dependente apenas de si próprio para seguir em frente. Tudo se resolverá no Dragão, frente ao Feyenoord, a 12 de dezembro.

Aboubakar, diga-se, não terá ainda o ritmo ideal, tanto quanto o ritmo do FC Porto no encontro em Berna, que começou desde logo com um suspiro de complicação: aos 7 minutos, Christian Fassnacht saltou mais alto que Marcano e Pepe na sequência de um livre na esquerda e, de repente, os dragões deslizavam para as catacumbas do grupo. Os primeiros 25 minutos seriam, aliás, de maior perigo da equipa da casa, com o mesmo Fassnacht a ficar novamente perto do golo aos 22’, num remate à entrada da área após uma cavalgada que não mereceu grande oposição dos jogadores do FC Porto. Valeu a sapatada de Marchesín, de regresso após o Uribegate.

RvS.Media/Robert Hradil/Getty

Com muitas dificuldade em fazer fluir o jogo, durante a 1.ª parte, o FC Porto apenas assustou o Young Boys aos 25’, depois de Otávio isolar Marega, com o maliano a permitir a defesa de Von Ballmoos.

Na 2.ª parte, vendo-se na obrigação de pelo menos empatar para continuar na competição, o FC Porto foi o dono da bola, ainda que nem sempre o golo do discernimento para fazer o melhor com ela. Corona foi o mais expedito e teve o golo nos pés aos 55’ e 69’, primeiro numa grande jogada individual, depois num remate à malha lateral. Mas seria o aparecimento do renascido Aboubakar no último quarto de hora a virar o jogo.

Aos 76’, Otávio viu a variação de Marega para a esquerda, colocou a bola no maliano e este por sua vez cruzou rasteiro para a área, onde o camaronês, com um toque subtil, desviou para golo. E apenas três minutos depois, na sequência de um canto, a bola passou por toda a área antes de encontrar o avançado sozinho ao 2.º poste. Aboubakar teve tempo para receber e dar o jeitinho necessário para armar o remate que colocaria o FC Porto na frente do marcador e em 2.º lugar do grupo.

Desaparecidos a seguir ao intervalo, os suíços foram então atrás do prejuízo e por pouco não marcavam já para lá dos 90’, num remate desesperado de Fassnacht que foi bater forte e seco no poste da baliza de Marchesín.

Não aconteceu e foi assim, sem particular brilho, mas com o regresso à vida de Aboubakar que o FC Porto não só venceu pela primeira vez fora de casa nesta edição da Liga Europa como ainda marcou também os seus primeiros golos em estádio alheio.