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Pinto da Costa: "Não fiz as pazes com o Vítor Baía porque nunca estivemos zangados"

Jorge Nuno Pinto da Costa tem 82 anos e é presidente do FC Porto desde 1982. É tido como o dirigente desportivo mais titulado do planeta, acumulando vários troféus internacionais pelo caminho: uma Taça dos Campeões Europeus, uma Liga dos Campeões, uma Taça UEFA, uma Liga Europa, uma Supertaça europeia, duas Taças Intercontinentais. E é de novo candidato às eleições do clube, que acontecem este fim de semana

Isabel Paulo e Pedro Candeias

Paulo Duarte

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Porque disse que não se recandidatava se Rui Moreira fosse candidato?
Por ser verdade e por ter querido sublinhar a disponibilidade do atual presidente da Câmara do Porto. Não tendo querido candidatar-se, o dr. Rui Moreira achou por bem ajudar o clube do seu coração encabeçando a lista ao Conselho Superior da minha candidatura. Poderia ter-se resguardado, até pelas batalhas que tem pela frente em defesa da cidade, mas não. Poderia ter-se confinado ao papel de reserva dos sócios do FC Porto, mas preferiu corporizar a ideia de que os destinos da cidade e do clube estão umbilicalmente ligados.

Considera Rui Moreira um potencial sucessor?
Não sou eu que considero, é o que tem sido noticiado. E o que disse e repito é que com ele, como com outros, o clube estaria bem entregue. Num momento difícil para todos, do mundo ao país, da economia global à economia do futebol, vir para a linha da frente das batalhas que esperam o FC Porto empresta-lhe naturalmente um grau de penhor que as gentes do Porto e os portistas em especial guardarão nos seus corações.

Na lista para o Conselho Superior há muitos nomes ligados à política. Não acha que isso configura a promiscuidade de que tantas vezes acusou o Benfica?
Não, não acho. Muito antes de ser autarca (e não político, porque nunca viveu da política nem pertence a partidos), o dr. Rui Moreira já era conhecido de todos como portista. E, enquanto autarca, nunca deu nenhum privilégio especial ao FC Porto. Nunca teve de vir o sr. Presidente da Assembleia Municipal travar uma isenção de taxas urbanísticas concedida ilegalmente ao FC Porto e ao Estádio do Dragão. Era o que faltava se um portista de toda a vida, por ser momentaneamente autarca, não pudesse integrar um órgão consultivo do clube. A promiscuidade não está em haver responsáveis ou líderes do espaço político empenhados em ajudar os seus clubes, integrando os seus órgãos de forma transparente, para os tornar desportiva e socialmente mais fortes. A promiscuidade existe quando no espaço político, nos corredores do poder, se traficam influências e tomam decisões lesivas do interesse público para beneficiar um clube. E isto aconteceu e foi público em diversas ocasiões, como nos célebres episódios que envolveram o atual secretário de Estado do Desporto, o Instituto Português do Desporto e da Juventude e o clube do regime.

Na sua lista também consta Vítor Baía. Estão de pazes feitas?
É verdade que o Vítor Baía, como outros, expressou discordâncias com alguns atos de gestão, mas fê-lo dentro do portismo. Nunca se colocou de fora. Sempre se disponibilizou publicamente para ajudar. Por isso, não houve pazes a fazer, porque nunca estivemos zangados.

Qual a estratégia do FC Porto para reverter as contas?
Durante muitos anos conseguimos ser um caso de estudo no futebol mundial, com um modelo de contratação de jogadores a preços baixos e de venda por valores muito superiores. Fomos pentacampeões, ganhámos nove campeonatos em 11 no princípio do século XXI e fomos a última equipa de fora dos mais ricos campeonatos europeus a vencer a Liga dos Campeões e a Liga Europa. Nos últimos anos, as dificuldades aumentaram muito, por causa das crises económicas e financeiras, da entrada de milionários em clubes que desregularam completamente o mercado, da maior concorrência e da inflação nos mercados que eram as nossas principais bases de recrutamento e do fim da partilha dos passes com terceiras partes, que era uma forma alternativa de chegar a jogadores com valor mais elevado. Por causa destas dificuldades, o presente e futuro próximo do nosso futebol profissional passa pela contenção de custos com o plantel, mas sem lhe retirar a capacidade que tem de lutar pelos títulos. E também passa por incluir jovens de elevado potencial, fazendo com que cresçam ao lado de futebolistas mais experientes e à Porto, como, de resto, já está a suceder em larga medida. Portanto, não vamos mudar porque queremos continuar a vencer, mas vamos ajustar a mescla entre experiência e juventude para tirar todo o partido da nossa formação. E esta equação passa a ter duas caras, e dois responsáveis, ao nível da direção do clube: o Vítor Baía com o futebol profissional e o Fernando Gomes com a formação.

Porque recusou um debate a três no Porto Canal?
É certo que o Porto Canal se disponibilizou a cobrir um debate que fosse organizado pelas três candidaturas. Mas a mim não me chegou qualquer pedido dos outros candidatos para que esse debate pudesse ocorrer.

Com tantos anos de presidência, porquê continuar?
Enquanto eu me sentir bem e notar que o meu trabalho pode contribuir para a felicidade de milhões de adeptos do FC Porto, muitos dos quais passam por várias dificuldades e não têm outras alegrias na vida, não me faltará motivação. E nunca poderia virar a cara à luta num momento tão difícil como o que atravessamos, obviamente.

Concorda com a retoma da Liga ou considera que o campeonato devia ter terminado?
O FC Porto foi, desde a primeira hora, a favor da retoma da Liga, apesar de teoricamente até poder ser o clube mais beneficiado com o fim antecipado da competição. Preferimos vencer no campo e com as provas disputadas até ao fim, porque é esse o espírito da nossa equipa e dos nossos adeptos e porque isso também facilita a normalização das relações comerciais com parceiros como a Altice.

Como qualifica o papel de Pedro Proença na liderança da Liga?
Quando assumiu a presidência, a Liga estava numa situação caótica e o facto é que Pedro Proença a reabilitou. Na situação delicada que vivemos, tentou ajudar a salvar o futebol português e tem estado à altura do que me parece necessário. Não merecia os boicotes que teve.