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Quando o cântaro vai à fonte sempre, mas sempre, da mesma maneira

Pode-se falar em oportunidades desperdiçadas, que as houve, e portanto de falta de eficácia (até um penálti falhado), mas, perante o empate (0-0) do FC Porto no campo do Desportivo das Aves, último classificado do campeonato, também se pode mencionar o facto de o líder, mais uma vez, não mostrar forma de tentar desmontar uma equipa a defender em poucos metros, fechada na própria área e toda a gente atrás da linha da bola, para lá do que sempre tenta fazer. Que é o que os adversários já esperam

Diogo Pombo

JOSÉ COELHO/LUSA

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Ver um jogador, esteja a equipa com a bola e ela a rolar perto dele, a abrir os braços, a pedi-la com gestos, querendo-a e demonstrando-o insistentemente, pode ser sintoma de alguém nervoso em campo, talvez ansioso, a querer demasiado ter os pés metidos nas ocorrências sem que isso seja o melhor, ou o adequado. Quiçá está com pressa demais num jogo que se joga pensando e não apressando.

São hipóteses várias, mas, creio, nenhuma acertada para Tomás Esteves, porque ei-lo, com os seus 18 anos, a estrear-se no campeonato à direita da defesa do FC Porto, sempre a esticar e a abrir os braços nas primeiras quatro, cinco bolas que recebe, provando, a cada receção e toque seguinte que dá, como esse gesto pedinte vem do lado bom das possibilidades.

Ele, um miúdo de corpo e cara, com tão só 15 minutos de campo esta época na equipa principal, mostra calma na forma de orientar as receções, fugindo a ladrões, abrindo-se para onde estão mais companheiros e tocando-a, depois, para combinar ou tabelar. Para tentar atrair adversários, fixá-los e gerar jogo e assim o é na estreia, sereno e com aquilo que os ingleses chamam de composure, frente ao Aves que se enterra no próprio meio campo, defende quase com uma linha de cinco e tem os jogadores agressivos, a encostar em quem tem a bola.

E projeta-se, pisa sempre para lá da linha do meio campo quando o FC Porto começa a construir, cola-se ao limite do campo, é o oposto à contenção na qual, do outro lado, Diogo Leite se resguarda, central improvisado a lateral que se limita a circular a bola na linha dos centrais e a não ficar no mesmo eixo de Luis Díaz, extremo a quem deixa todo o espaço à esquerda para receber passes e partir para cima dos adversários.

Mas o colombiano fá-lo, quase sempre, no seguimento de coisas vinda da direita, de onde sai o melhor da equipa na tensão dos passes verticais e rasteiros de Mbemba, nas receções que geram combinações de Tomás Tavares e nas bolas com que Corona se vira entre linhas, nos espaços nas costas dos médios e no meio do central e lateral do Aves.

Foram as ações do mexicano em terra de ninguém que originaram oportunidades para Zé Luís, na área, decidir sempre mal e Tomás Esteves lá ir buscar uma bola que cruzou para golo, numa jogada que foi anulada por Afonso Figueiredo cair na disputa de bola com o lateral. Mas, nas jogadas que eram feitas pelo outro lado, viam-se outros braços a gesticularem, constantemente.

Eram os de Zé Luís ou Otávio, quase sempre quem partia em corrida, entre os defesas, pedindo bolas na profundidade por menor que fosse o espaço nas costas de uma linha encolhida junto à área. Braços esticados no ar, a abanar, não apontados à relva, ao pé.

Porque, mesmo mexendo nas peças, alterando posicionamentos para receber bolas, não é de repente que um apanágio se muda e o FC Porto vai na terceira época a ser vertical, direto nos últimos 30 metros das jogadas e sempre a querer encontrar gente nessa terra onde os adversário esperam que vá espreitar.

Foi assim, de facto, que Otávio acorreu a um passe picado para a área e o guarda-redes Fábio lhe tocou, antes de parar o penálti de Zé Luís previsto por qualquer cartomante.

JOSÉ COELHO/LUSA

E assim continuou a ser após o intervalo, embora com menos bolas aéreas, a preferir mais as rasteiras, como o par com que lançou Luis Díaz na área, logo no recomeço, para um remate do colombiano sair torto e o outro às luvas do guarda-redes. Parecia ser a forma de insistência do FC Porto, era assim que ia forçar, o Aves já se encurralava na própria área, os centrais Diakhité e Morais acudindo a mil dobras, quando, à hora de jogo, uma substituição cortou as tímidas mudanças pela raiz.

Saiu Tomás Tavares, ao que parece apoquentado por uma lesão, saindo do banco o jogador que personifica a forma de o FC Porto atacar a baliza dos outros. Marega ficou, quase sempre, à direita entre o central e lateral adversários, recuando Corona para lateral. A equipa mutava-se de volta ao estado mais fiel e o Aves, surpresa seria se tal não fosse, arranjou-se consoante o que era previsível.

Recuou ainda mais as linhas, arranjou-se em torno da área, encurtou ao máximo o espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes, quase abdicou de atacar, a não ser por algo caído dos céus de uma segunda bola, ou descarada má decisão de alguém portista.

O FC Porto estagnou na falta de ideias, empurrado pela parede de frustração que ergueu com cimento próprio. Tinha Luis Díaz encostado à esquerda, ilhéu num pedaço de relva onde apenas davam à costa adversários, que nunca o deixaram em situações de um para um e facilmente o conseguiam, porque nenhum companheiro se aproximava para criar superioridade nos números com o colombiano. Por isso, ele cruzava a bola ou bombeava-a para o outro lado do campo.

Onde Corona murchou a cada minuto, ausentando-se do jogo que a equipa insistia em canalizar para a esquerda, onde Diogo Leite apenas contribuía com devolução de passes a quem estivesse perto dele. Marega aguardava na linha dos centrais, Soares entraria para o replicar, Aboubakar juntar-se-ia mais tarde para o três em linha, todos apenas esperava, imóveis, sem movimentos a romper o espaço (que não havia), nem pisando uns metros atrás no campo, para pedirem a bola e obrigarem os adversários a preocuparem-se com quem tinham nas costas.

O FC Porto limitou-se a trocar a bola entre os jogadores que tinha fora do compacto bloco do Aves, rodando-a lentamente, sem objetivo aparente, cruzando-a muito quando a previsibilidade os encurralava. Foram 36 cruzamentos, 12 cantos subsequentes, duas bolas cabeceadas na área que falharam na pontaria e uma bomba disparada por Sérgio Oliveira à distância.

De diferente, ousado e pensado fora da caixa em que Sérgio Conceição conforta a equipa, há muito, só um passe picado, de trivela, por Vítor Ferreira, ao receber e tocar logo uma ressaca à entrada da área, já nos descontos, que fez a bola cair no cubículo onde Marega esperava na área. O remate foi ao lugar onde o guarda-redes estava, a ineficácia tramou o FC Porto.

Esta e outras oportunidades tinham condições para darem golo, mas, perante o último classificado do campeonato, que chegou ao oitavo jogo seguido sem marcar e que nem a ingenuidade de um recém-nascido neste mundo esperaria ver a defender a baliza de outra forma, o FC Porto deveria ter uma maneira que não esta, tão previsível, insistente na previsibilidade e sem procurar a largura para tentar atrair e separar adversários que lhe fecham caminhos ao centro.

Porque não é sempre uma questão de ir muitas vezes à fonte, é como se faz o cântaro lá chegar. Mantendo a mesma forma de sempre, o FC Porto já perdeu quatro pontos nos seis que tinha por conquistar desde o regresso do campeonato e, agora, fica à mercê de ser igualado, outra vez, pelo rival que não consegue manter a água no vaso quando descortina uma maneira de alcançar a nascente.