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FC Porto

Um campeão por falta de comparência

No dia em que o principal rival na luta pelo título perdeu pela segunda jornada consecutiva e ficou sem treinador, o FC Porto colocou-se mais perto de ser campeão, num jogo sofrível em Paços de Ferreira. Valeu o golo de Mbemba logo aos 7 minutos e depois foi bola para a frente e fé em Pepe. Talvez o FC Porto nem precise de mais do que isso. Culpa da pandemia ou não, há muito que os dois candidatos ao título não ofereciam espectáculos tão paupérrimos na reta final do campeonato

Lídia Paralta Gomes

OCTAVIO PASSOS/POOL/EPA

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Daqui para a frente ficarão a faltar cinco jogos para FC Porto e Benfica terminarem este campeonato atípico e a equipa de Sérgio Conceição, depois da vitória desta segunda-feira em Paços de Ferreira (1-0), parece bem lançada para o título, com os 6 pontos de vantagem que tem para o Benfica. Mas dizer isto à jornada 29, com ainda 15 pontos em disputa para ambas as equipas, só não é arriscado porque do outro lado está uma equipa em implosão, que acaba de perder o treinador depois de duas derrotas consecutivas, depois de uma série de 13 jogos só com duas vitórias, que se perdeu algures no início de 2020 e caiu num buraco negro durante e após a paragem do campeonato.

Posto isto, o FC Porto será campeão não porque é uma equipa dominadora, inequivocamente mais forte e com melhor futebol do que os adversários, mas por falta de comparência do principal rival. No palmarés, com pandemia ou a jogar melhor ou pior, o título de 2019/20 vale o mesmo, isso é certo, mas há muito tempo que o futebol português não tinha uma ponta final (e isto já vem do pré-pandemia) em que os candidatos oferecessem espectáculos tão paupérrimos.

Em Paços de Ferreira, o FC Porto tem tradicionalmente dificuldades e as equipas ainda em perigo por esta altura são sempre ossos duros de roer. Mas é difícil entender como pode uma equipa como o FC Porto ser dominada durante largos momentos por um adversário organizado, é certo, mas individualmente tão inferior - e a 2.ª parte foi basicamente isto, o FC Porto a afastar bolas da área, o Paços com posse e com oportunidades mas sem a qualidade no ataque para fazer melhor, perante uma equipa que, diga-se, tem Pepe e quem tem Pepe tem muito mais hipóteses de sobreviver a jogos destes, físicos, que moem.

E portanto valeu ao FC Porto um golo marcado quando ainda nem havia 10 minutos de jogo, o aproveitamento de um erro de Ricardo, guarda-redes do Paços, que num canto deu uma palmada na bola para a colocar bem nos pés de Mbemba. Até aos 20 minutos de jogo, o FC Porto foi uma equipa pressionante, muito segura, a reagir de imediato à perda da bola. A partir daí, a bola foi da equipa da casa, talvez por falência física, talvez por uma certa inconstância emocional que apareceu quando se percebeu que o ataque do FC Porto estava num daqueles dias.

OCTAVIO PASSOS/POOL/EPA

Na 2.ª parte, o Paços podia ter marcado aos 49’, por Luiz Carlos, que se antecipou a Manafá após um cruzamento da direita e aos 66’, o mesmo Luiz Carlos, com um remate acrobático depois de um canto, obrigou Marchesin a uma de várias defesas importantes. Por esta altura, no plano ofensivo, o FC Porto já não existia e limitava-se a sobreviver - e nestas alturas dá jeito ter uma defesa dura e pragmática.

A única vez que o FC Porto esteve de facto perto da baliza foi num lance fortuito, aos 77’, numa das inúmeras bolas bombeadas para o meio-campo do Paços, com a jogada a sobrar para Luiz Diaz na área depois de um desentendimento de Marcelo e Jorge Silva. Mas o colombiano permitiu a defesa de Ricardo.

Daí para a frente o que se viu foi um FC Porto a fechar-se, a jogar boa parte dos últimos 45 minutos com uma linha de meio-campo com Danilo, Loum e Uribe, mais preparada para destruir do que construir. Aos 85’, Jorge Silva rematou de longe para grande defesa de Marchesin, um último recurso de um Paços que no derradeiro suspiro montou um verdadeiro acampamento na área do FC Porto, que terminou o jogo com o credo na boca, a despejar toda e qualquer bola, como se de repente a equipa grande ali vestisse de amarelo e fosse preciso segurar o pontinho.

O melhor momento de futebol do FC Porto durante a 2.ª parte? Bem, uma arrancada de Vitinha, entrado a três minutos do fim - custa ver um dos únicos jogadores do FC Porto que sabe verdadeiramente como tratar e o que fazer com uma bola só ter três minutos para se mostrar.

Ainda assim, o FC Porto tem os resultados menos maus entre os candidatos. E por isso será, em princípio, campeão nacional. É certo que o pragmatismo nos diz que quem tem mais pontos ganha e quem ganha é que fica para a história, mas quem lê a história gosta de um bocadinho de recursos estilísticos e palavras bonitas. Neste momento, é como se nos estivéssemos todos a arrastar penosamente até ao final do livro.