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#FCPorto29. “A não ser a minha mulher, o meu clube é o que mais amo na vida”: a noite que foi uma “forma de dizer que o Porto não morreu”

Os dragões derrotaram o Sporting, fintaram a polícia e convidaram - “vinde pr’á festa” - ignorando distâncias de segurança. O manto azul e branco desceu em marcha lenta da Alameda aos Aliados, com o título de novo campeão nacional, e houve declarações de amor de homens para mulheres e também beijos. E buzinadelas, vuvuzelas, piscas e cerveja na “sala de espetáculo”

Joana Ascensão e Rui Duarte Silva

RUI DUARTE SILVA

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Ninguém diria haver um clássico a rodar no Dragão. Pela cidade ecoava o silêncio dos que guardam os prognósticos só para o fim do jogo. Mãos cruzadas na testa, joelhos impacientes e concentração nos ecrãs pequeninos dos telemóveis - para quem dribla os sites piratas - ou no entusiasmo do relato da rádio - para os que preferem o método à moda antiga -, os poucos adeptos que circundam o estádio do FC Porto estão mais longe do que nunca, mas perto o suficiente para galoparem até à festa ao sinal do último apito.

A polícia tinha tomado precauções: limitara todo o acesso às imediações do estádio, para além do seu interior; não havia ecrãs gigantes, nem o jogo aparecia num único televisor do shopping Alameda, onde se refugiaram muitos dos adeptos em volta (na volta possível) do relvado onde o anfitrião só precisava de não sair derrotado pelo Sporting para se sagrar campeão.

À medida que a partida levava avanço, os portistas foram manchando de azul um pequeno recinto entre a rotunda da Praça de Lisboa e a escolta policial da PSP, reagindo com um ligeiro hiato de tempo, em uníssono, aos sons que se ouviam - mal - de dentro do estádio.

Três casais à beira da estrada

RUI DUARTE SILVA

O ritmo cardíaco da pequena claque mudou ao minuto 64 e foi Danilo o culpado. Rapidamente, o campeonato parecia ganho. As camisolas voavam dos corpos suados - e com elas muitas máscaras. Das bocas soltas agora fugiam cânticos. “Conceição, faz do Porto campeão” (e talvez a vírgula não faça falta na premissa). Caem foguetes das varandas até então silenciosas do hotel que cola com o shopping.

“Isto é uma emoção imensa”, chuta João Freitas, afastado do aglomerado e, por isso, recostado no rail da estrada interdita. Com 64 anos, de rádio na mão e fones nos ouvidos, encolhe o embaraço. “A polícia não deixa passar nem para cima, nem para baixo” mas veio “de propósito” de Ramalde. “A não ser a minha mulher, o meu clube é o que mais amo na vida”, reforça, sem que Gisela Marques o desminta. Até “é mais por ele" que vem. Nem se entusiasma, nem arreda pé do encosto. "Nunca esperei”, avança novamente João, embora sempre com “muita esperança no Sérgio Conceição”. “Oxalá ele fique, porque é um guerreiro. E o Pinto da Costa foi um senhor ao saber segurá-lo. Se fosse outro, mandava-o embora".

Na devida distância, mas em linha com o João e Gisela, dois outros casais jovens também ocuparam o seu encosto de berma da estrada para festejar. Tiago e Patrícia vestem camisolas e máscaras a rigor. Vieram de Paredes para festejar, mesmo “dadas as circunstâncias” e “sempre com precauções”, como Ruben e Mariana, que não conseguiam ficar em casa. Ele com lugar anual no estádio e sem hipótese de entrar, ela “arrastada” pelo namorado, conferem que “este ano até sabe melhor”. No último apito do jogo e na fúria daquele pequeno ajuntamento, beijam-se, não sem antes darem o pontapé de saída para a comemoração: "Querem a festa do Avante e não nos deixam fazer a nossa, mas fazemos à mesma".

O outro confronto: Super Dragões versus PSP. Ganhou a distância de segurança

RUI DUARTE SILVA

Ninguém sabe dos Super Dragões. Mas minutos depois de ser oficial que o “Futebol Clube do ‘Puortó’” se havia sagrado campeão nacional e retirado o Benfica do pedestal, começou a ver-se fogo de artifício, ao longe, e pairava no ar o cheiro de velas de aniversário que se apagam em cima do bolo. Seguindo-lhe o rasto, os adeptos perceberam qual seria o caminho: uma marcha lenta de buzinadelas, quatro piscas ligados e cânticos em volta da cerca policial, que culminou na barreira dos agentes impedindo a passagem para mais perto do estádio.

Aí começou um outro confronto. Tez a tez, agentes e claques portistas mediam forças. Uns pálidos no movimento, sérios na postura. Os segundos enérgicos, aos pulos, de máscaras e camisolas despidas, e a soltarem cânticos com pirulitos da boca, ignorando regras de distanciamento físico. A única ponta de luz do lado policial eram os petardos enviados do lado contrário. Entre a euforia de uns e a paciência de outros, venceu uma distância de segurança, a rondar os cinco metros, que por força de alguns dos elementos dos Super Dragões e num esforço organizado, nunca deixou de ser expressamente cumprida.

‘Vinde para a festa’. Dragões deram a volta porque a noite pedia Aliados

RUI DUARTE SILVA

Reza a lenda que a noite dos campeões, como outras na cidade do Porto, tem de passar pela Avenida dos Aliados. Em tempo de pandemia, esta foi uma estreia: não havia sinal do mesmo reforço policial e logo a mancha sonora de buzinadelas, juntamente com as bandeiras portistas, desceram cidade fora e romperam com força a avenida. Rapidamente a festa se fez ali. Entre os cânticos altivos, sobrepõe-se um convite: “Vinde para a festa”. E uma preocupação ambiental: “Fomos fazer à Luz o que fizeram à Amazónia”.

O FC Porto foi campeão pela terceira vez num jogo contra o Sporting (pela primeira vez em casa), mas era só o nome do Benfica que se ouvia nos festejos, confundido com os apitos dos carros e das vuvuzelas - e as microgotas de saliva que destas saíam despejadas ao ar. Parado na fila, de mãos ao volante, vai Ângelo Correia, que rapidamente vai colocar a máscara a tapar-lhe a cara, ou “ainda dizem que somos descuidados”. Escolhe festejar dentro do carro, não arrisca a multidão. “Se as pessoas festejarem cumprindo as normas de segurança, não há problema”. Dali, vai dar a volta à avenida em marcha lenta e voltar para casa, “que amanhã é dia de trabalho, ainda não é feriado”.

No meio da multidão e também vestida a rigor, está a família Vitelo. Todos os seis elementos, com máscaras azuis e brancas, das cores do clube, culminaram nos Aliados, depois de terem visto o jogo em casa e de terem passado pelo estádio do Dragão. Orgulham-se de ali estar por considerarem ser esta “a forma de dizer que o Porto não morreu”, sublinha a mais nova, logo depois completada pela mãe, já rouca, mas assertiva: “Esta é a nossa sala de espetáculo”.