Tribuna Expresso

Perfil

FC Porto

O FC Porto foi o FC Porto e depois não foi o FC Porto e o FC Porto foi campeão. Foi assim o clássico e assim foi o campeonato

Esta quarta-feira, frente ao Sporting, o FC Porto foi aquilo que foi tantas vezes ao longo do campeonato: uma equipa competente e prática. Mas também teve momentos de brilho, vislumbres que também surgiram ao longo desta época atípica, principalmente nos jogos mais decisivos. É o campeonato em 90 minutos e o FC Porto não será um campeão com asterisco: ser campeão neste 2020, jogando-se mais ou menos bonito, tem tanto ou mais valor

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA

Partilhar

É possível que o Clássico desta noite tenha sido um bocadinho o campeonato in a nutshell. Para o bem e para o mal. O campeonato, sabemos todos, já toda a gente falou disso, foi um campeonato atípico, porque houve uma pandemia, porque houve três meses em que nem sabíamos sequer se de facto ia haver campeonato e porque houve uma equipa que era quase campeã em janeiro e de repente perdeu um ror de pontos.

E, no meio disto tudo, o FC Porto foi campeão. E é campeão a sério, não há asteriscos ou “mas”. É campeão sem asteriscos porque no meio de toda esta atipicidade foi a equipa mais competente e neste 2020, ano que um dia vai merecer todo um capítulo dos livros de história do 9.º ano, isso vale muito.

Esta quarta-feira (mas que raio de dia para se ser campeão, até nisso a pandemia nos virou do avesso), no Dragão, um Dragão vazio, coisa que também um dia talvez iremos contar aos nossos netos como só mais uma das bizarrias deste 2020, o FC Porto foi, precisamente, o que foi ao longo da época: uma equipa competente, prática, com dois ou três vislumbres de brilhantismo. Chegou. E chegou porque os outros não foram tão competentes, tão práticos, mesmo que se calhar até tenham tido iguais vislumbres de brilhantismo.

O FC Porto foi competente e prático quando mais uma vez, e como tantas vezes aconteceu esta época, foi eficaz nas bolas paradas. E assim apareceu o primeiro golo, aos 64’, um mergulho vistoso de Danilo, a dar a cabeça à bola de Alex Telles vinda lá da bandeirola de canto. Um golo festejado como se dali já não saísse nada que não um FC Porto campeão e talvez com toda a legitimidade, porque aquele jogo parecia caminhar para um aborrecido nulo, tal a falta de entusiasmo da 2.ª parte.

As bolas paradas, diga-se, são um momento do jogo como qualquer outro, que se trabalha e se treina. E os golos marcados de livre, de canto ou de grande penalidade valem tanto quanto os outros. Podem não ser tão bonitos, é certo, e não podemos dizer que este campeonato tenha sido ganho de forma muito bonita, mas escuso de estar aqui a repetir a história do asterisco e do “mas”.

Octavio Passos/Getty

Até porque em momentos-chave o FC Porto foi mais do que uma equipa pragmática e cirúrgica e talvez os melhores jogos do FC Porto tenham sido precisamente contra os maiores rivais, contra o Benfica, principalmente. Esta quarta-feira, mesmo num jogo fraco, houve Fábio Vieira e Fábio Vieira tem brilho e torna o jogo mais bonito como se viu na 1.ª parte, aos 12 minutos, naquele passe picado para Luis Díaz que só não deu golo porque a bola, caprichosa, deu um pequeno afago na mão do colombiano. Ou aos 25’, quando encontrou de novo Díaz lá do outro lado da área, o único jogador do FC Porto que não estava em fora de jogo naquele lance e só Coates salvou o Sporting com um corte na linha de golo. Ou aos 63’, quando mesmo com Borja à sua frente rematou à barra da baliza de Max.

E bonito também foi o golo que acabou com tudo, o 2-0 já aos 90’ e que bonito foi aquele picar de bola de Marega, o mesmo Marega a quem adoramos bater porque às vezes a bola atrapalha. Aquele golo foi o FC Porto: um tipo mais de trabalho, mais de força, a olhar para a bola e por um momento a tratá-la como uma coisa preciosa. Acontece todos os dias? Não, não acontece. Mas quando acontece é para confirmar uma vitória, a mais importante das vitórias porque é uma vitória que dá um título.

Quanto ao Sporting, ainda ameaçou obrigar o FC Porto a adiar mais uns dias a festa, logo ao início e por logo ao início falamos *literalmente* logo ao início: aos 20 segundos a bola já estava dentro da baliza de Marchesin, mas Sporar estava fora de jogo quando emendou uma defesa de instinto do argentino a um remate de Nuno Mendes. O Sporting entrou com vontade de ter bola, e isso é de louvar, ainda para mais no Dragão, mas é nestes jogos em que muitas vezes se nota ainda a falta de maturidade de uma equipa que não pode transformar-se em três meses. A primeira derrota de Rúben Amorim na sua carreira como treinador na 1.ª divisão não será, portanto, uma derrota traumática - é mais uma aprendizagem do que outra coisa qualquer.

E para aprender, que seja com um campeão.