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Quarenta e cinco minutos de descompressão, outros tantos de destruição - e aquele golo de livre de Marega

A um arranque morno frente ao Moreirense - e que não terá agradado nada, mas nada a Sérgio Conceição - o FC Porto respondeu na 2.ª parte talvez com uma das melhores exibições da época: grandes golos, intensidade, belas jogadas e até um livre direto de Marega, para deixar um concludente 6-1 no marcador

Lídia Paralta Gomes

Octavio Passos/Getty

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É possível que Sérgio Conceição não tenha gostado nem um bocadinho da 1.ª parte da sua equipa frente ao Moreirense, jogo em que o FC Porto até já entrava como campeão. Evidência n.º 1: a saída de Fábio Vieira aos 38 minutos, o mesmo miúdo que frente ao Sporting foi o melhor do FC Porto, por Uribe. Evidência n.º 2: a forma como o FC Porto regressou ao jogo na 2.ª parte, depois de uns primeiros 45 minutos em que, a partir de certa altura, parecia em modo descompressão - afinal de contas, o campeonato está ganho.

Acontece que Sérgio Conceição não deve ser rapaz de se compadecer por um “o campeonato já está ganho”. A palestra ao intervalo, cheira-me, não deve ter sido simpática.

Porque na 2.ª parte é bem possível que o FC Porto tenha mostrado algum do melhor futebol desta temporada, um futebol que teve de esperar por um jogo que, para todos os efeitos, não valia muito para qualquer uma das equipas, o que, enfim, poderá retirar algum brilho competitivo mas não artístico.

O FC Porto que, diga-se, até entrou bem, logo com um golo aos 4’, de Luis Díaz, o mais madrugador dos golos do FC Porto esta época. Mas o Moreirense, que é uma das boas equipas do nosso campeonato, respondeu desde logo e aos 20’ empatou por Fábio Abreu, um bom golo do avançado angolano, com um movimento de desmarcação que deixou Diogo Leite nas lonas. A partir daí, o jogo ficou mais ou menos dividido, com o FC Porto a tentar muito o jogo interior, muitas vezes atabalhoadamente, o que terá feito Conceição perceber que Corona e Fábio Vieira estavam, muitas vezes, a anular-se um ao outro.

Com a entrada de Uribe, os papéis de Otávio e Díaz ficaram mais definidos e foram eles os grandes revolucionários do FC Porto na 2.ª parte, que começou praticamente com dois golos. Aos 51’, Corona desmarcou Marega que cruzou para Otávio, que ao quarto remate lá conseguiu ultrapassar Pasinato; aos 54, Alex Telles fez o 3-1 de grande penalidade, ganha por Luis Díaz num movimento com o qual o FC Porto destruiu a defesa do Moreirense após o intervalo: desmarcações venenosas para as costas da defesa.

MIGUEL RIOPA/Getty

Aos 62’ surgiria o momento insólito da noite. Já sabemos que Moussa Marega é, praticamente, uma personagem mística. Um pouco como os unicórnios. Há camadas e camadas dentro daquele corpanzil. Há dias em que é um trabalhador incansável e outros em que faz uma birra porque não o deixam marcar uma grande penalidade. Tem fases de grande eficácia e outras em que a bola parece apenas um objeto estranho que o maliano acabou de ver pela primeira vez.

E há dias em que Marega consegue ser um bocadinho de tudo.

Como por exemplo esta noite no Dragão, em que Marega foi balançando falhanços incríveis sozinho em frente à baliza (e foram pelo menos três) com movimentos de grande inteligência a arrastar a defesa adversária ou a isolar-se sempre ali no limite do fora de jogo. Remates que quase foram ter ao centro comercial ali nas imediações do Dragão com assistências - isto é Marega, para o bem e para o mal. E entre a exasperação e as palmas, esta segunda-feira, Marega teve um momento verdadeiramente unicórnio, quando marcou de forma perfeita um livre direto para aquele que seria o 4-1 do FC Porto. Eu não estava à espera, ele próprio não estava à espera e o banco do FC Porto, pelos festejos, também não estaria à espera.

2020 está a ser estranho.

Octavio Passos/Getty

Podia ter acabado assim o jogo, com um remate delicado e certeiro de Marega ao ângulo, a planar perfeitinho por cima da barreira, mas havia muito mais fogo neste FC Porto. Aos 79’, numa das melhores jogadas que a liga portuguesa terá visto esta temporada, Otávio combinou com Luis Díaz, que com o calcanhar e uma revienga de 360 graus deu de novo ao brasileiro. Este, já na área, completou o recital de passes com um toque subtil para Soares, que fez o mais fácil, que era encostar. E aos 88’, mais uma jogada de futebol que teria levantado o público no Dragão, caso ele lá estivesse, com Luis Díaz mais uma vez com um grande trabalho, a deixar para Otávio que, mais uma vez, ofereceu a Soares.

Depois da descompressão, foi como se o FC Porto jogasse na 2.ª parte como uma equipa que já não tem qualquer pressão e só se quer divertir. E isso trouxe grandes jogadas, grandes golos, lances inesperados, enfim, magia. Era bom que as amarras das tabelas classificativas não trouxessem tanto pragmatismo ao futebol.