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Uma sobremesa que afinal era sopa

Naquele que era o jogo grande e o embate de todas as expectativas desta 1.ª jornada do campeonato, valeu quase sempre mais o coletivo coeso do FC Porto do que a dinâmica prometida pelo novo Sp. Braga de Carlos Carvalhal. Os campeões nacional abrem a Liga com uma importante vitória por 3-1, num jogo mais vezes morno do que espectacular

Lídia Paralta Gomes

Quality Sport Images/Getty

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Por falar em Braga: aqui há uns anos (valentes, muito valentes), a caminho do Gerês, a minha família parou algures em Braga num restaurante chamado Arafat. Apesar do nome, era (é?) um restaurante típico português, com direito até a empregado pintas, sempre de piadola na língua. Lembro-me então que depois de um farto repasto, chegou à hora de pedir a sobremesa e esse mesmo empregado, homem com dotes persuasivos, explicou que, para lá do que estava na carta, havia uma sobremesa especial da casa, ideia que pareceu lindamente à minha irmã, prontinha para atacar um doce que se lhe foi apresentado como uma grande iguaria, embora o chefe nunca tenha dito o que levava - à minha irmã, bastou-lhe o “especial”.

Pois bem, quando o querido amigo voltou à mesa, trazia na mão um prato a transbordar de sopa, uma daquelas sopas de lavrador, rica, pesada - era aquela então a “sobremesa especial”.

A mesa riu-se, claro, os olhos azuis da minha irmã descoloriram-se por um momentos, mas como não há cá parte fraca para dar, ela pegou na colher e desatou a sorver a danada da sopa. Eu não provei, mas parece que era boa.

Este FC Porto - Sp. Braga, assim logo para abrir o campeonato, parecia essa sobremesa especial, uma iguaria esquisita, no sentido mais anglo-saxónico do termo, um encontro entre o campeão nacional e um Sp. Braga que chega à nova época de ambição renovada, que foi buscar Carlos Carvalhal a Vila do Conde para se assumir como uma equipa grande, que joga como grande, que quer resultados de grande.

Mas, não tendo sido o FC Porto - Sp. Braga um mau jogo, sinto que nos calhou sopa.

Talvez porque só se tenha visto o melhor de ambas equipas a espaços, o que, nesta altura do campeonato, não será assim tão estranho. A expectativa de um Sp. Braga à procura de ter bola saiu gorada na 1.ª parte, com a equipa minhota a jogar muito na dependência do adversário, a defender com muitos homens e a tentar sair mais na transição ofensiva do que exatamente no ataque apoiado.

Quality Sport Images/Getty

O primeiro golo do jogo, dos bracarenses, foi, assim um golo contra a corrente: não só o sinal mais até então era do FC Porto, com mais bola, mais ataque, ainda que nem sempre da forma mais eficaz, como resultou de uma das poucas jogadas construídas pelos terceiros classificados da última época. Uma boa diagonal apanhou Esgaio na direita, o cruzamento para a área não saiu bem mas Sequeira conseguiu ainda assim fazer o passe atrasado para Castro. O ex-FC Porto, sem qualquer marcação - os dois médios mais recuados do FC Porto estavam na área - entrou de rompante pelo corredor central e com um remate na passada bateu Marchesín.

O FC Porto reagiu bem ao infortúnio, continuou a ter mais bola, mas as inúmeras tentativas de lançar Marega nas costas do adversário deram, invariavelmente, em nada. E só quando o jogo exterior resultou é que os dragões conseguiram chegar ao empate: já dentros dos descontos da 1.ª parte, Alex Telles cruzou tenso e forte, com Sérgio Oliveira a saltar mais alto que Sequeira para bater Matheus. E logo na jogada seguinte, a reviravolta. Batido pelo movimento de Marega, Raul Silva fez falta sobre o maliano, uma falta tonta e desnecessária numa diagonal à entrada da área. Na grande penalidade, Alex Telles bateu com a eficácia do costume.

Em menos de nada, e ainda antes do intervalo, o FC Porto já estava em vantagem.

Após o intervalo, o Sp. Braga entrou melhor e viu-se finalmente a equipa de vocação atacante que nos foi prometida. Aos 48’, uma grande jogada de envolvimento do ataque deixou Ricardo Horta na cara de Marchesín, com o médio, inexplicavelmente, a chutar por cima, depois de um grande movimento que deixou a defesa do FC Porto à nora.

Houve mais Sp. Braga nos segundos 45 minutos, pelo menos um Sp. Braga mais igual a si próprio, ou igual ao seu treinador, mas logo as substituições tornaram o jogo equilibrado mas pouco dinâmico, aguerrido mas nem por isso entretido, com nenhuma das equipas a controlar, mas tampouco a criar grandes ocasiões de perigo.

Caminhava-se então para final nesta toada quando, talvez numa tentativa de segurar bola mais lá à frente, Sérgio Conceição lançou Mehdi Taremi aos 87’. E aos 88’, o iraniano, rato como sempre, ganhou com corpo e com inteligência uma bola a Tormena à entrada da área, com o defesa brasileiro a rasteirar o avançado já em zona proibida. Mais uma grande penalidade, mais um remate certeiro de Alex Telles e o resultado num 3-1 que já não deixava grande margem para a reação do Sp. Braga.

Para prato forte da 1.ª jornada, o FC Porto - Sp. Braga foi demasiadas vezes morno. O FC Porto foi mais equipa, uma equipa coesa tal como nos tem habituado, e o Sp. Braga parece ter pagado caro o abdicar, pelo menos na 1.ª parte, daquilo que deverá ser a sua ideia de jogo. Isso e ter uma linha defensiva que muitas vezes não acompanha a qualidade que os minhotos têm lá à frente, o que poderá ser um problema para esta equipa de Carlos Carvalhal.