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O mais do que crescido deu uma lição a quem precisa de tempo para crescer

O FC Porto campeão nacional, a jogar com os mesmos de sempre, a pressionar em bloco e a ser tranquilo em tudo o que fez, marcou cinco golos na segunda parte ao Boavista (0-5), ainda desgarrado e errático sem bola, a precisar de dias e meses para sustentar um projeto que sempre necessitaria de tempo para trabalhar o investimento e os bons jogadores que tem

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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É fácil dar balizas à definição do que faz um bom jogo, vulgarmente falando, para quem não tem um fraquinho por uma das equipas: se, no fim, houver uns quatro, cinco ou seis golos e, pelo menos, o dobro das hipóteses para terem havido bem mais, com umas bolas a baterem nos ferros, jogadas feitas ao primeiro toque e fregueses a driblarem comparsas, essa hora e meia de bola é merecedora dessa definição.

Os treinadores, por norma, não terão carinho por um jogo destes, porque muitos golos e jogadas destas implicarão que se cometam erros, nem tudo o que os outros façam é imparável e, portanto, um regalo para os olhos de quem assiste costuma equivaler a uma carga de trabalhos para corrigir coisas na equipa, na semana seguinte.

Depois, há jogos como este Boavista-FC Porto, sem os golos-mil, as chances a caírem das árvores ou as fintas mirabolásticas para encherem os highlights de consumo rápido na internet.

São duas equipas a respeitarem a gravidade e a colarem à relva a forma de se livrarem uma da outra e irem avançado no campo, até chegarem à baliza. O FC Porto com Pepe e Mbemba a ligarem-se aos laterais, para a equipa fugir à pressão alta por fora e, sempre que possível, meter um passe de fora para dentro em Otávio ou, sobretudo, Corona, uma falsa sombra de Marega que não se deixa ficar perto de algum adversário, mas sim num resvés provocador de dúvidas - vou ou não? deixo-o estar ou aperto-o?

E o Boavista anti-Boavistão, o tal Boavistão de há 20 anos e de faca afiada entre os dentes para lutar, guerrear, encostar o corpo e levar os jogos para onde o físico ganha coisa, muito distante deste Boavista que Vasco Seabra põe a pressionar o campeão nacional a todo o campo e a sair da sua área com os centrais a procurarem muito o médio mais recuado ou os outros dois, que se mostram entre linhas para a bola lá ir e ser filtrada para as alas - atraindo e saindo da pressão, tentando mexer com a forma como o adversário se defende.

Espetacular não era, incrível ao olho tão pouco, mas, dos dois lados, as equipas faziam as coisas tentando controlar tudo o que faziam. Não chutava bolas para a frente sem nexo, mas esbarravam na organização uma da outra até, mais ou menos, aos 30’, altura em que o Boavista, que apenas ameaçara com uma corrida inspirada de Paulinho contra o mundo, começou a emperrar mais as suas saídas de bola na forma como o FC Porto pressionava.

O FC Porto não fabricava mais oportunidades por intercetar bolas uns metros à frente no campo, essas apareceram no arranque, quando Alex Telles quis cruzar, ou rematar, quem sabe, e a bola rasou o poste direito da baliza, o mesmo onde foi bater pouco depois, rematada por Uribe na área, assim que Sérgio Oliveira se evadiu de Rami com uma simulação e lhe tocou um passe.

Octavio Passos/Getty

Foi o central francês, um de dois campeões do mundo do Boavista, mais aventureiro do que futeboleiro no último par de anos, lento ao não encurtar o espaço para Corona, na área, quando o mexicano era o único adversário que tinha perto, permitindo-lhe fazer uma receção orientada para o pé esquerdo e, a uns três metros da baliza, disparar o 0-1 contra a rede superior da baliza assim que a segunda parte arrancou.

E tudo o que de bom o Boavista tentou, até então, fazer, começou aos poucos a desmoronar quando o livre batido por Sérgio Oliveira, à entrada da área, fez o 0-2 desviar na barreira e confortar o FC Porto no jogo, assente nas almofadas que são Otávio e Sérgio Oliveira, pequenos motores de pressão sem bola, facilitadores com ela e reboques ambulantes da equipa.

O brasileiro era a alma que sempre se aproximava de Danilo, nos primeiros 30 metros, para dar um número a mais contra a pressão (cada vez mais lenta) do Boavista. O português tinhas passes no pé para encontrar Corona, dando-lhe receções onde só lhe restavam os defesas adversários pela frente, e atacava as segundas bolas com tudo. Assim apareceu o 0-3, quando picou um passe para Marega rematar na área.

Mais preparado, mecanizado e treinado foi o 0-4, fabricado num livre tocado, para o lado, com um passe curto, o isco que fez a linha do Boavista avançar e ser apanhava pela curva da bola que Otávio cruzou, Corona amorteceu para Marega e o maliano rematou para recompensar um trabalho feito durante a semana de treinos.

E nada de veleidades permitiu o FC Porto ao Boavista, já pouco capaz de superar linhas sem as sobrevoar com bolas esperançosas na direção de Alberth Elis, sozinho a lutar com os centrais. Viu-se, apenas, um remate frouxo do outro campeão mundial (este sub-17) aos xadrez, Angel Gomes, pouco antes de mais uma saída de bola dos anfitriões ser apanha nas armadilhas de pressão sempre bem montadas da equipa de Sérgio Conceição.

Manafá roubou a bola, correu em direção à área, cruzou rasteiro, Luis Díaz recebeu, rodou e rematou para o 0-5, para o último de cinco golos feitos em 45 minutos, uma catrefada de golos em tão pouco tempo que, provas faltassem em relação à mecanização eficaz e fiável do FC Porto, confirmou o bom jogo dos portistas contra o projeto ainda imberbe do Boavista, onde Gérard López está a investir, bons jogadores estão a chegar, mas tempo precisa, e necessitaria sempre, para tentar, um dia, ser o que o FC Porto é com Sérgio Conceição.

Uma equipa coesa, madura, que sabe o que tem de fazer em todos os momentos e com a devida tranquilidade que isso dá aos jogadores. Está-lhes na cara.