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Só não houve a minizinha no café

O FC Porto ganhou (0-2) ao Fabril dando minutos a muita gente e estreias a marcar aos dois avançados que começaram esta 3.ª eliminatória da Taça de Portugal: um golaço de Toni Martínez, um golo de Mehdi Taremi e, depois, controlar as coisas até ao fim

Diogo Pombo

MÁRIO CRUZ/LUSA

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Ah, a Taça de Portugal e um grande a descer degraus para se apertar na casa de um pequeno, a magia podia estar só aí, mas não esta, e um catalisador de tudo o resto que se distribui pelas bancadas de pedra; a saída subterrânea dos balneários com os corredores sinalizados a tinta; a relva esquizofrénica no aparo e com crostas de terra a escarafunchá-la; a festa proporcionada pela prova que dá tempo de luz a estes clubes debaixo dos holofotes.

A ida do FC Porto ao Barreiro de pegada operária foi roubada desta mística taceira, a pandemia essa grande ladra que lhe tirou as gentes, e ao longe todos vimos como a bola foi dos portistas como ninguém se admirou que fosse. Eles com a equipa remendada por oportunidades dadas aos que têm jogado menos, a tentarem circular a bola rápido e com poucos toques e a relva descuidada a atrapalhar-lhes a intenção.

Porque o Fabril até nem montou o bloco lá muito atrás, manteve-se com postura média, a fixar a primeira pressão onde andasse o primeiro dos médios adversários a pegar na construção - Otávio, na maior parte das vezes. Depois, fazia por compactar o 5-4-1 que tentava impedir receções dos avançados ou do extremo do lado contrário da bola, que sempre aparecia ao centro do campo.

A relva alta e buracada esteve do lado deles, o atrito verde que sempre prejudica quem mais técnica tem nos pés que tocam na bola, os passes do FC Porto na primeira parte nunca puseram o Fabril a correr atrás da ratoeira e a cansá-los e desorganizá-los pela rapidez constante.

É verdade que por Taremi e Toni Martínez os portistas remataram quatro vezes nos 20 minutos iniciais, mas depois o jogo esmoreceu: a bola muito nos pés expectáveis durante a maior parte do tempo (a rondar os 70%), embora a organização da equipa com um dos orçamentos mais magros da terceira divisão fosse pouco desfeita. O mais impactante que o FC Porto inventava partia de corridas ou tabelas criadas por Manafá, do lado esquerdo.

Com o tempo, vendo o quão emperrado estava o adversário, o Fabril arriscou nos momentos de pressão, apertou as receções de bola de costas em campo contrário, roubou várias e fez algumas jogadas alcançarem o avançado Ivan Reis. Teve um remate na área e forçou dois cantos, mas um foi uma falência: na reação à ressaca, o FC Porto partiu em contra-ataque e a segunda vaga de chegada a área fez Otavio picar um cruzamento para uma acrobacia em moinho de Toni Martínez marcar.

Caia a fortaleza maior que os pequenos têm para receber os grandes na Taça, o golo desfez o único equilíbrio possível a partida e a reentrada do FC Porto agravou essa evidência.

MÁRIO CRUZ/LUSA

A equipa tornou-se mais ativa na pressão pós-perda, mais intensa no aperto ao espaço nas poucas posses de bola que o Fabril teve, desde trás, e sobretudo acelerou o ritmo das jogadas. Retirou toques per capita a circulação de passes, facilitou o que já bastava o relvado complicar e Taremi faria o segundo golo ao sexto minuto da segunda parte. Sem a arte espetacular do avançado que tinha ao lado, mas também se estreava a marcar como ele.

A parte da gestão entrou logo a seguir, com três substituições injetadas por Sérgio Conceição e outras duas mais tarde, para o pó não se agarrar aos jogadores do costume, que tem mais rotação e deram-na ao elemento do jogo que fez o FC Porto controlá-lo ainda mais: a posse de bola. Corona, Sérgio Oliveira e Fábio Vieira acrescentaram-lhe qualidade e critério e lá foi a equipa dominando.

Nakajima remataria com perigo, Evanilson não o faria porque, na área e de baliza escancarada, falhou na bola que vinha a saltitar depois de trabalhada a solo e ao sprint por Luis Díaz. O FC Porto ganharia por 0-2 ao Fabril de trabalho e organização sem bola, embora curto e com reduzido tempo médio de vida a cada posse de bola, apesar da genica de Nuno Sá, Adjeil Neves ou Edi Castro.

Caiu a equipa do Barreiro, outrora a Companhia União Fabril conhecida por CUF e de muitos pés batidos aos grandes, entre os grandes, nos anos 50, 60 e 70 quando empregava operários para deles fazer jogadores ou mais o vice deste versa, que hoje dispõe de condições e saúde financeira invejável a muitos do Campeonato de Portugal, que rejeita ser tornada em SAD e comprada por investidores-farejadores de oportunidades, como o prova esta reportagem do "Diário de Notícias" sobre o clube e a história que carrega.

Essa história foi contada por causa da Taça de Portugal onde, com esta derrota, não se ouvirá falar mais dela neste prova, a das histórias, dos clubes da terra, das gentes dessas terras, dos campos humildes e da "minizinha no café" no final do jogo, como Sérgio Conceição falara na antevisão. Bem que a podia beber, mas a pandemia e o seu recolher obrigatório tudo afetam. Até as pequenas grandes tradições da Taça.