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Será possível pedir futebol no dia em que o futebol morreu um bocadinho?

Não, não podemos. Num dia terrível, o FC Porto fez aquilo que tinha de fazer: não sendo possível ter a alegria para jogar bonito, jogou de forma eficaz e obreira, indo ao Vélodrome ganhar de forma clara por 2-0 e ficando agora a apenas um ponto da próxima fase da Champions. Neste 25 de novembro de 2020, o dia do desaparecimento de Deus, não se pode pedir mais a qualquer jogador de futebol

Lídia Paralta Gomes

Baptiste Fernandez/Getty

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O Marselha - FC Porto acabou há um pedaço, por esta hora já as luzes do Vélodrome devem estar desligadas, as cadeiras vazias como há meses estão e eu continuo sem saber como é que se escreve sobre um jogo de futebol no dia em que o futebol morreu um bocadinho.

Como se está atento a táticas, estratégias, a contas, números, a apuramentos quando tudo o que nos passa pela cabeça em loop são os dribles, a magia, aquela mão marota, os tangos sem rosa na boca por entre os adversários? Eu não sei. Ainda não sei. Perdoem-me a sinceridade. Não consigo pensar em Champions, no hino que todos trauteamos antes do início de cada jogo, na minha cabeça passeia-se Manu Chao e aquela cantiga Si you fuera Maradona/Viviría como él/Mil cohetes, mil amigos e a pergunta insistente: que raio fizemos nós para merecer este 2020, que nos tirou a liberdade, depois os abraços e agora ainda nos tira Maradona já depois de em janeiro nos ter tirado Kobe.

E como é que se passa por isto sem abraços? Eu não sei. Ainda não sei.

Acredito que na cabeça daqueles 22 jogadores, que às tantas se tornaram apenas 20, também passaram muitas outras coisas, nenhum deles se lembrará de Maradona no auge, mas isso não interessa, a finta e a malandrice são eternas. O que se passou no Vélodrome não foi exatamente futebol, isto se olharmos para o futebol como aquilo que Maradona jogava, mas será possível pedir futebol no dia em que o futebol morreu um bocadinho?

Talvez não, ainda mais aos jogadores do FC Porto, dois baques num só dia é muito baque, num só dia foi-se o Chefinho e foi-se El Pibe e quando assim é o importante é engolir em seco e aguentar com fibra - em Marselha o FC Porto foi essa equipa. Começou mal, desconcentrado, aos 15 minutos Marchesín teve de se esticar todo para ir buscar um cabeceamento de Germain, mas aos 20 minutos já tinha os franceses na mão.

E depois foi ser obreiro, num jogo pouco bonito, faltoso, duro, com uma expulsão para cada lado já na 2.ª parte - os vermelhos foram só a materialização cromática de uma realidade: a cabeça dos jogadores nem sempre esteve ali. Até o primeiro golo do FC Porto foi meio sem jeito, já perto do intervalo, Zaidu à segunda depois de um cabimento de Grujic que iria sair absolutamente fora de qualquer alvo, mas acabou a fazer uns quantos ricochetes e ir parar aos pés do lateral nigeriano.

Alex Caparros - UEFA/Getty

Na 2.ª parte, o FC Porto controlou - o Marselha, fora os primeiros minutos, foi sempre uma equipa intranquila e com poucas soluções. Pouco crente. E o FC Porto, ao revés, um conjunto coeso. A expulsão de Grujic, aos 67’, poderia ter sido um ponto de viragem não tivesse Balerdi, três minutos depois, feito falta sobre Marega na área e deixar a equipa de Sérgio Conceição de novo por cima, por já não estar a jogar em inferioridade e porque Sérgio Oliveira apontou com a autoridade dos pragmáticos o pontapé da marca dos 11 metros.

Aos 71 minutos, já não havia luta que o Marselha pudesse dar - até porque hoje estamos todos nós um pouco derrotados - e o FC Porto já não se desmoronaria. A vitória deixa o campeão português a um simples ponto dos oitavos de final da Liga dos Campeões, quando há ainda dois jogos na fase de grupos. Uma missão cumprida com diligência de escriturário, mas não peçam mais ao futebol hoje, porque hoje, dia 25 de novembro de 2020, talvez nem devesse ter havido futebol, como a 1 de maio de 1994 talvez não devesse ter havido Grande Prémio de San Marino depois de Ayrton Senna se despistar na curva Tamburello.

Hoje já não vai dar, mas quando este dia morrer, quero que ele volte a nascer e quero que volte a haver futebol. Que voltemos todos a ser Diego Armando Maradona. E que 2020 acabe rápido.