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FC Porto

Aquela magnífica desolação na cara do miúdo

O FC Porto esteve a perder em dois momentos do jogo, mas soube corrigir e melhorar, houve um par de golos de Taremi (cada vez mais influente) e ganhou (2-3) ao Vitória, em Guimarães, onde o truque apareceu à meia hora de jogo, na tristeza da cara de um miúdo nascido em 2000 que simbolizou o que começou mal e acabou bem para a equipa portista

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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Sendo audível, o som é insuficiente, não há placas indicadoras da direção do rouco “bora, miúdo!” ouvido, ainda a bola chegava a Rochinha vinda do pé desordeiro de Uribe, que errou ao tentar passar de primeira a bola que Sérgio Oliveira lhe passou, não olhou, não viu e nem se apercebeu que o extremo estava onde devia, a fechar o cerco para enclausurar uma receção que o Vitória convidava o FC Porto a tentar ao centro. Era um isco.

A falha individual deu-lhe êxito. Rochinha arrancou com a bola e forçou a duplicação da autoria do erro porque Uribe acorreu à redenção e ainda o alcançou, à queima, sendo fintado para o português arranjar o espaço definitivo com que rematou o 1-0 (desviado nas costas de Diogo Leite), já abeirado da área. Era o sétimo minuto do jogo e mais palavreado calão se ouviu, logo aí, no vazio do estádio.

Um recinto vazado é uma visão triste, é deprimente até, mas aqui e agora talvez seja pelo melhor. Foi neste lugar que alguns humanos atrasados e em desvantagem no inteleto imitaram sons de macaco há 316 dias sempre que Moussa Marega tocava na bola, não é por eles que o estádio esteve sem gente, mas esses específicos nunca farão falta para o bem de toda a gente e de Marega.

Logo ao primeiro minuto, o maliano esteve perto de contribuir para um golo, o maliano pressionar ainda mais a ação de Bruno Varela que já tinha uma tonelada de pressão em cima: Sacko atrasou-lhe a bola pelo ar, bateu-lhe mesmo à frente na área e o guarda-redes tentou passá-la de cabeça. Só a afastou um pouco na direção de Corona, cujo remate rasou a barra da baliza. Pouco depois, Marega foi lançado por Taremi na área e rasteirou uma bola mansa para as mãos de Varela.

Mas não foram amostras de superioridade, muito menos de altivez no jogo, porque durante meia hora o Vitória anulou várias coisas do FC Porto enquanto os portistas se entupiam a eles próprios. Deixando a bola rolar à vontade nos centrais, os de Guimarães punham os extremos a bloquear passes para as laterais e convidavam o adversário a arriscar bolas por dentro, onde encostavam logo nas costas dos médios que, muitas vezes, ficavam em inferioridade por Sérgio Oliveira muito recuar para a saída de bola com Pepe e Diogo Leite (mesmo que sem pressão).

E ficando o Vitória com última linha perto da sua área, retirava a profundidade tão desejada pelo FC Porto, que recorria muitas vezes ao passe longo e direto, mas pedinte de receções ou disputas dos avançados e não de movimentos de ataque ao espaço nas costas dos defesas, que não existia. Mais ainda, a equipa era ostracizada onde tantas vezes reprime, sem piedade, os outros: nos duelos. Perdia-os quase todos.

Sem que o Vitória lograsse, propriamente, filtrar tudo isto em jogadas que finalizasse perto da área, foi uma meia hora de erros, passes falhados, segundas bolas perdidas e faltas, bastantes faltas, a tristérrima desolação estava na cara de Romário Baró enquanto esperou para ver o seu número na placa do quarto árbitro, ao fim dessa meia hora, em que já tinha visto um cartão amarelo e acabara de fazer duas faltas a cortejar um segundo.

Com Luis Díaz a ser opção, mais por fora, para receber e encarar adversários em drible, a equipa melhorou - também por acertou na forma de pressionar o Vitória, com duas linhas de três a caírem rápido sobre qualquer saída de bola. E Pepe também sairia, por lesão.

HUGO DELGADO/LUSA

Os da casa baixaram as linhas, foram forçados a encolher a equipa e perderam capacidade de acumular segundos para avançarem no campo com muitos jogadores em vez de só pelos fogachos de Rochinha e Ricardo Quaresma.

Os médios do FC Porto já inspiraram e expiravam com bola em campo alheio, além de encolhidas as linhas do Vitória foram ficando tão passivas que Sérgio Oliveira teve tempo para rasgar um passe aéreo para Marega, à espera nas costas do lateral, atacar a área e tocar a bola de primeira para o outro poste, onde Taremi se esticou para o 1-1. Pouco faltava para o intervalo.

Prosseguiu a ascendência de quem visitava e os anfitriões assumiriam de vez o bloco médio-baixo, esperando pelo FC Porto mais perto da área e, juntando as peças, apostariam de vez nas transições rápidas nos momentos em que o houvesse menos gente portista a defender mais metros de campo.

Aquela equipa intensa na pressão sobre a saída do adversários, da agressividade posta em todos os duelos e na mescla de movimentos por dentro, para apoio frontal (Taremi) com sprints para a profundidade (Marega) já se via. E o Vitória sofreu na segunda parte com esta jardineira de ingredientes: os seus laterais ficaram sozinhos a encarar Corona e Díaz, os seus centrais também se digladiavam com os avançados porque a ajuda de Pepelu nem sempre chegava.

E o FC Porto carregou, forçou, insistiu e teve múltiplas bolas órfãs de apenas uma finalização na área. Mas, antes de aparecer, houve outro erro de Uribe castigado pelo Vitória. O colombiano foi discutir uma bola dividida com o calcanhar, a sobra foi ter com Rochinha, que viu a alma mais perigosa em campo - e até ali das almas mais discretas no jogo - só com Zaidu pela frente.

O passe entrou no bailarico técnico de Quaresma, cujas simulações bípedes descobriram espaço para cruzar a bola que Estupiñán cabeceou para o 2-1. Foi quase um grão da areia no extenso areal atacante do FC Porto, não alterou tendências ou ritmos, a equipa de Sérgio Conceição continuou a colocar muitas jogadas a serem decididas em situações de um-para-um nos seus extremos, porque espaço não havia na profundidade ou dentro do bloco encolhido do adversário.

Uma delas, logo a seguir, fez Luis Díaz ultrapassar Sacko ao sprint e cruzar rasteiro para o lugar onde o pé embalado Taremi ia chegar, para de primeira bater o 2-2. Depois, o mais sereno e criterioso Corona teve todo o tempo para cruzar a bola que Suliman intercetou com a cabeça, elevando-a por cima da área; embora o rodeassem, nenhum de três adversários a disputou com Luis Díaz, que a amansou com uma receção de pantufa e a rematou com o bico da chuteira, única forma ali possível para fazer o 2-3.

Com descontos, o jogo acabaria 15 minutos mais tarde. De perigoso nada mais houve, as balizas permaneceriam tranquilas, chegaria a vitória do FC Porto e o último sibilo, perdoem-me a centralização, rebobinou-me a memória de volta à imberbe cara de Romário Baró, fatalmente a mirar o que o aguardava quando foi substituído pelo tipo que acabou por desbloquear o jogo.

Foi uma magnífica desolação: ele triste e devastado pelo amarelo que já tinha o tirar de campo - por admissão do treinador; a equipa, ainda sem o saber, a sair dali magnificada no jogo, mesmo que sejam momentos destes que podem estilhaçar a confiança e a perceção externa de um jogador, este nascido em 2000.