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FC Porto

Deixar o melhor para o fim

Há jogos difíceis de caracterizar e o FC Porto - Moreirense é um deles. A espaços bem jogado, noutros anárquico e partido, só nos últimos minutos a equipa de Sérgio Conceição, que falhou golos atrás de golos, parece ter encontrado a calma para ser eficaz e vencer por 3-0

Lídia Paralta Gomes

Octavio Passos/Getty

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Às vezes as noites de futebol podem ser contraditórias. Frente ao Moreirense, o FC Porto teve um ror de oportunidades, controlou grande parte do jogo, ainda sofreu dois ou três sustos na 2.ª parte, foi rematador, enviou bolas ao ferro. E no entanto, pelo menos até ao último quarto de hora, o jogo deste domingo no Dragão não deixou de ser morno.

Queiramos ou não, são os golos que nos empolgam e o FC Porto - Moreirense teve-os, mas mais para o final, numa altura em que o jogo já tinha outra história, umas vezes mais bem jogada, outra mais anárquica, como se uma narrativa consistente não servisse para a contar. A moral, essa, não seria muito diferente fosse o jogo acabar aos 75 minutos ou aos 97: o FC Porto ganhou, mereceu ganhar, os números foram simpáticos mas para lá chegar houve uma série de desvios, de ritmos umas vezes mais acelerados, outras vezes mais molengões, o que se percebe, afinal quem é que quer jogar às nove da noite de um domingo chuvoso e gélido?

O jogo começou aberto, com as duas equipas a jogarem e a deixarem jogar, até porque ambas estavam muito bem no momento defensivo. O FC Porto marcou cedo, aos 22’, numa grande penalidade que Sérgio Oliveira converteu após uma falta imprudente de Ferraresi sobre Corona, uma mancha que caiu e fez abalar a até então quase perfeita atuação do Moreirense no seu meio-campo.

O golo fez o FC Porto crescer, mas a equipa da casa bateu de frente com a falta de eficácia: Taremi esteve perto aos 34’ e aos 39’ enviou uma bola ao ferro de cabeça, com Pasinato a fazer uma defesa impossível, toda ela reflexos, na recarga de Marega. Luis Diaz também esteve muito rematador, mas com pouco acerto, situação que se manteve na 2.ª parte, com Rosic a salvar a sua equipa logo aos 50’, a tirar uma bola que ia direitinha para Sérgio Oliveira encostar após cruzamento de Corona.

Octavio Passos

Por esta altura, e já depois de Pasinato tirar mais um golo a um Corona isolado, aos 60 minutos, o FC Porto parecia sentir a falta do pêndulo que é Otávio, da sua intensidade e critério. Faltava ser mais constante, faltava alguma assertividade. Enquanto isso, o Moreirense conseguia por vezes chegar à área do FC Porto, mostrando que qualquer jogo, por mais controlado que esteja, nunca está verdadeiramente dominado quando só se consegue marcar um golo.

É claro que nunca é tarde para acordar, para beber aquela bebida isotónica imaginária e resolver um jogo de sensações divergentes. E a ida ao banco correu bem a Sérgio Conceição: a entrada de Toni Martinez trouxe alguma da energia que por vezes pareceu faltar, às vezes até energia demais, com o avançado espanhol a arriscar a expulsão num par de entradas mais, digamos, entusiásticas.

Tal qual o seu festejo aos 77’, quando colocou a bola na baliza de Pasinato antes do VAR demorar quatro minutos a encontrar um fora de jogo de três centímetros de Taremi numa fase anterior da jogada. Curiosamente ou não, o jogo mudou aí. E se o primeiro golo no campeonato para o espanhol não aconteceu aos 77’, aconteceria aos 88’, numa jogada de insistência em que rematou uma, duas, três vezes até a bola lhe fazer o favor, com um desvio em D’Alberto pelo meio. Martinez queria muito marcar e teve o seu prémio.

E depois de tanto lutar contra remates tortos, defesas do guarda-redes, foras de jogo milimétricos, o FC Porto deixou mesmo o melhor para o fim, fazendo o 3-0 já nos descontos por Evanilson, também ele vindo do banco: às vezes as coisas só lá vão com algo completamente diferente.

Num jogo a espaços esquisito, o FC Porto conseguiu resolver nos últimos minutos e entra em 2021 a vencer, tal como o Sporting. As narrativas de jogo nem sempre têm de ser coerentes, desde que no final o objetivo seja cumprido.