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As mil e uma noites

O iraniano Mehdi Taremi aqueceu a noite gelada no norte, ao marcar dois dos golos com que o FC Porto goleou o Famalicão por 4-1, num jogo em que a inteligência e competitividade do avançado (e de toda a equipa do FC Porto) foram mais decisivas do que qualquer grande momento de futebol. E em certas noites tem mesmo de ser assim

Lídia Paralta Gomes

FERNANDO VELUDO/EPA

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Às tantas, durante o intervalo, vários elementos do staff do Famalicão espalhavam sal pelo relvado, grandes mancheias como se diz na minha terra, para tentar que o terreno ficasse menos parecido a uma placa de cimento, um bocadinho como se faz nas estradas cheias de neve nos países em que ela é comum, não exatamente aqui, neste país de sol.

Não que isso tenha tornado menos dolorosa cada queda, cada tentativa de desarme no solo, cada choque e isso viu-se nas mazelas dos jogadores, nos seus gritos, nas forma como muitos sairam agarrados aos músculos. O sal também não temperou exatamente o futebol jogado neste Famalicão - FC Porto, mas o que pedir aos jogadores nestas noites de gelo infernal? Organização e competitividade, espírito de sacrifício e uma certa ratice e inteligência.

E teve isso o FC Porto, em condições difíceis. Teve isso e teve Taremi, o melhor jogador no empedrado de Famalicão, o iraniano que vem da terra das Mil e Uma Noites e que terá esta noite uma história para contar, feita de dois golos e uma grande penalidade ganha, que muito ajudaram o FC Porto a bater por 4-1 um Famalicão que é uma sombra daquilo que vimos na época passada.

É certo que são os golos que fazem os resultados e os avançados, mas talvez não haja jogada mais Taremi do que aquela que daria então o 2-1 ao FC Porto, numa altura complicada ainda na 1.ª parte, pouco depois dos dragões sofrerem o empate. Num lance aparentemente controlado, à meia hora de jogo, o iraniano viu Vaná e mais dois defesas a proteger a bola e, inteligente como poucos, encontrou maneira de roubar o lance. O guarda-redes do Famalicão, surpreendido, acabaria por derrubar o avançado, dentro da área. E na grande penalidade, Sérgio Oliveira não falhou.

Com este golo, muito conseguido graças à esperteza e raciocínio rápido de Taremi, o FC Porto encontrou a tranquilidade que não mais deixaria, num jogo que dominou quase por completo. Antes disso ainda houve um susto. Logo aos 13’, Taremi começou a contar a sua história neste jogo, num ataque rápido que aproveitou as fragilidades do sistema de três centrais que o Famalicão apresentou. Liberto na ala, Corona cruzou, a defesa deixou-se levar pelo movimento de Marega e o iraniano mexeu-se bem para aparecer sozinho, rematar e apanhar Vaná em contra-pé.

FERNANDO VELUDO/EPA

O empate apareceria pouco depois, numa grande penalidade cometida por Diogo Leite aos 20’ que Jhonata Robert concluiu com classe, um empate que o FC Porto não estaria à espera, face ao pouco que até então a equipa da casa tinha mostrado, mas assim mesmo são as surpresas e nem toda a gente reage bem a elas. Talvez por isso seja tão importante ter um tipo frio como Taremi na equipa, a encontrar oportunidades onde elas nem pareciam existir, vide lance da grande penalidade para o FC Porto que se seguiu.

A 1.ª parte foi, em geral, durinha, quezilenta aqui e ali, com muitos protestos e futebol de qualidade média. Melhoraria depois do intervalo, principalmente o FC Porto, com Taremi a voltar a marcar aos 58’ na sequência de um canto. O canto saiu dos pés de Sérgio Oliveira, a bola sobrou para Otávio e depois mais uma vez pleno de oportunidade o iraniano deu a cabeça à bola, que entraria na baliza de um azarado Vaná, que escorregou no gelado relvado e ficou KO.

Com 3-1, o FC Porto baixou um pouco o ritmo e o Famalicão teve então o seu melhor momento. Gil Dias esteve perto do golo aos 73’ e já nos últimos cinco minutos Marchesín, praticamente um espectador abandonado ao gelo durante todo o jogo, mostrou não ter congelado, com duas grandes defesas a remates de Lukovic, primeiro, e Anderson, depois.

E seria na sequência desta última oportunidade do Famalicão que o FC Porto faria o 4-1, num contra-ataque conduzido por Luis Diaz e concluído com um grande remate do miúdo João Mário, a estrear-se a marcar em estilo.

Por essa altura, já o guerreiro persa, o perspicaz soldado, elegante e matador como um gato, descansava no banco. Por este andar, Taremi terá mil e uma grandes noites pelo FC Porto. E esta terá sido a primeira delas.