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FC Porto

Pepe: um muro com 38 anos e 11 dias de vida

Foi condigno ser o defesa central português a fazer o último corte de bola na área contra a Juventus. Acumulou 18 no jogo e, no penúltimo, até se projetou com uma espécie de pontapé de bicicleta para impedir outro passe de chegar a um adversário e estatelou-se no chão. Pepe tem quase 40 anos e reviveu noites passadas para elevar o FC Porto a glórias que ele encarna na equipa

Diogo Pombo

Tiago Pereira Santos

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Nos descontos do que já era complementar, a Juventus rendeu-se a despejar-se sobre a área do FC Porto, há poucas coisas certas na vida e uma delas é a certidão do bombardeamento de bolas quando o desespero sufoca o tempo e os italianos, sem um plano eficaz até então, afunilaram as tentativas aéreas na direção dos corpos que conseguissem pôr perto da baliza. Mas, nas imediações, havia um calvo.

Etiquetar de careca quem não o é por sina genética talvez seja injusto, em Pepe não há peladas, ele tem cabelo e rapa-o, em tempos vimo-lo de caracóis, mas o seu ADN de futebolista tem-no com a cabeça rapada, de outra forma é estranho e difícil de entranhar e foi essa cabeça branca e descabelada que, na noite de terça-feira, tirou a bola da área do FC Porto pela última vez.

Ser Pepe a fazê-lo foi condigno. Encafuado entre corpos, saltou para encostar o cocuruto à bola no seu estilo de ter os braços dobrados a 90 graus durante a impulsão, desviando-a para longe de um adversário e em direção ao limite da área. Era o 18.º corte do defesa central no jogo. No 17.º, nem um minuto antes, malabarizou o corpo numa bicicleta para impedir que um passe picado no ar chegasse a De Ligt, o projeto de central à espera nas suas costas.

Era o holandês ainda um júnior adolescente e já Képler Laveran Lima Ferreira tinha a primeira de três Ligas dos Campeões conquistadas, nessa permaneceu sentado (2014), na seguinte jogou a titular (2016) e na outra não seria convocado (2017).

A esta tríade juntaram-se muitos cortes, interceções e desarmes contra adversários do melhor que há, em partidas de ‘quartos’ ou ‘meias’ da Champions durante a década que passou no Real Madrid, onde todos os dias se vai para a cama com a exigência de ganhar a prova mais difícil de levar para casa.

A idade distingue ninguém e apanharia Pepe, saiu para o Besiktas e chegaria ao FC Porto há pouco mais de dois anos e já com 35, a fixar o pôr-do-sol da carreira no clube que o projetou e não tem os mesmos dinheiros e meios para ter os melhores jogadores de um continente para cada posição. Mas, contra a Juventus, teve um tipo no trigésimo oitavo ano e décimo dia de vida a jogar como um dos melhores centrais da Europa.

MARCO BERTORELLO/Getty

Não se tratou apenas numa questão de cortar bolas. Quando o FC Porto, ainda com 11 jogadores, tratou de pressionar bem alto e na área adversária a saída de bola, Pepe comandava a linha defensiva subida, a ter que lidar com muitos metros nas costas. Pepe era um virar de cabeça e ajuste de apoios constantes - nunca falhou, por exemplo, no recuo repentino de uns metros quando alguém da Juventus tinha a bola (descoberta) de frente para o jogo, com tempo e espaço para a colocar na profundidade.

Via-se em Pepe um esbracejar a corrigir os outros e a pedir-lhes coisas. Em tudo o que fazia, Pepe parecia um poço de concentração a condizer com o contexto em que estava.

E, depois, os tais muitos cortes, vindos da colisão entre a estratégia escolhida pelo FC Porto, as consequências que provocava na Juventus e a incapacidade dos italianos em variarem um plano de ataque para lá do posicional lento ou dos cruzamentos para a área.

Com 11 jogadores ou quando o FC Porto já só tinha 10, Pepe foi dono do seu espaço. Quando a equipa se remetia, ou era remetida, a um bloco baixo - havendo então menos metros para serem cobertos - o central nunca perdeu uma bola que fosse bombardeada para a sua zona. O contexto era de sofrimento para a equipa, embora mais ajustável a Pepe (e Mbemba) pela forma como a Juventus atacava, sem lhes exigir o mesmo raio de ação. E, no final, ei-lo, com penso no sobrolho e de corpo estendido no relvado assim que o último apito soou.

Pepe é capitão e iria à flash interview da TVI, em outros sóis lá esteve quando o FC Porto empatou ou perdeu, dando cara e palavras em momentos difíceis. Desta vez disse, aliviado, que “a equipa demonstrou um caráter enorme, os jogadores estavam muito bem focados e as coisas tornam-se mais fáceis com toda esta paixão”, a que ele, com esta idade, ainda tem para juntar ao que os 38 anos não lhe tiraram - a capacidade para ainda ser um defesa central destes, capaz destes jogos.