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Caiu um dente de Leite, mas ninguém se lembrará

No último minuto dos descontos, a cabeça de Toni Martínez fez o 2-1 com que o FC Porto venceu o Santa Clara, após marcar de penálti e sofrer com outro cometido por Diogo Leite, o central vindo diretamente do Europeu sub-21 que foi titular e errou, como qualquer miúdo jogador erra para, só assim, ir aprendendo

Diogo Pombo

O salvador Toni Martínez e a cara de Diogo Leite, atrás, a correr para ele

Octavio Passos/Getty

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A proverbial fada de asas batentes que surge de noite, às escondidas, no seu voo silencioso a sopro das historietas de pais para os filhos, um imaginário alimentado para a criançada deixar entre a almofada e o colchão os pedaços de leitaria caídos da boca é, coincidentemente, uma analogia que cola a Diogo, primeiro pelo óbvio apelido, depois pelas circunstâncias tão recentes.

Central canhoto com um fraquinho por se ligar com passes rasteiros e verticais a quem esteja entre linhas, ele esteve a últimas duas semanas longe, com os sub-21, a ser titular e totalista da seleção que tricotou três vitórias na fase de grupos do Europeu dos projetos portugueses de futebolista a quem os últimos dentes de leite estão a cair. Sérgio Conceição atentou aos jogos, Diogo voltou e titular voltou a ser no FC Porto contra este Santa Clara.

Que é altivo e pressiona a todo o campo, cheio de armadilhas posicionais para convidar o anfitrião a sair da área pela relva e pelo defesa central pretendido pelos açorianos. Muitas vezes deixam os propositados espaços, a bola saía para Diogo Leite e acionavam as ações de aperto, de fora para dentro, forçando-o a orientar-se no pé. Tanto no miúdo como em Pepe, o Santa Clara montava alta a pressão sempre que os portistas saiam com a bola de Marchesín.

Condicionaram o guarda-redes, os dois centrais e toda uma equipa do FC Porto, que passou uma parte a ser direta na procura de lançar a bola em movimentos que se dirigiam constantemente ao espaço nas costas dos laterais açorianos, Luis Díaz e Marega caiam lá muito, João Afonso e Mikel Vilanueva ativos tiveram que ser nas compensações e haverem-se, também, com a outra solução a que os portistas recorriam - as receções de Taremi, as rotações do iraniano e as conduções poderosas do avançado rumo à área.

O FC Porto, também muito pressionante no início de qualquer posse de bola do adversário, só fez a bola ver a baliza com tentativas vindas de longe, Otávio fá-lo cedo (4’) e Sérgio Oliveira mais tarde (14’), remates mais ameaçadores do que o vindo da cabeça da Vilanueva (39’). O Santa Clara acercava-se em cantos e livres, mas da vez que mais perto esteve de ter alguém a finalizar, na área, apareceu Diogo Leite a desarmar Carlos Júnior à última.

À feitura do intervalo seguiu-se um reinício de rompante e Diogo Leite, talvez já adivinhando a azáfama e antecipando os efeitos do frenesim, falhou o fácil primeiro passe que teve para fazer; no minuto seguinte, Taremi esgueirou-se por entre os centrais que mantinham a linha defensiva subida, foi atrás de um passe de Otávio nessa profundidade e, à saída do guarda-redes Marco, desviou a bola e caiu na relva.

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Sérgio Oliveira fez o 1-0 no penálti - o 11.º nos 19 golos que tem esta época - alterou o marcador (49’), mas não o jogo, a pressão alta que o FC Porto fazia era permeável, mais do que o costume, o Santa Clara trocava bastantes passes por cada encontro tido com a bola e avançando no campo com a ordem e o critério a cargo de dois tipos em particular até a equipa conseguir acabar as jogadas em Carlos Júnior.

O japonês Morita ordenava os primeiros 60 metros com ações das que fazem a bola desaparecer quando os adversários o alcançam; o brasileiro Lincoln virava-se com ela nos últimos 40 para ser o elo mais vertical nas tentativas de descobrir espaços na linha defensiva do FC Porto. Foi ele a precipitar-se sobre uma corte curto na área e a provocar a precipitação de Diogo Leite, que à queima o derrubou para outro penálti se apitar. Carlos Júnior bateu-o (56’) para o 1-1 e o seu 9.º logo esta temporada.

Erro de quem, como toda a miudagem, só cresce errando e a errónea jogada fez o FC Porto crescer no jogo. Intensificou a pressão após as bolas que perdia, projetou mais os laterais com ela, prolongou a duração das jogadas e encostou o Santa Clara à área, dificultando as tentativas de redescobrir o fôlego nos roubos que já só conseguia bem dentro da sua metade do campo. Os açorianos estiveram mais de 20 minutos sem ligarem uma jogada até à baliza portista.

Em todo esse entretanto, Taremi desperdiçou sem jeito um passe picado com pinças (59’) por Uribe e um remate de Fábio Vieira na área que foi desviado (70’), o outro rapaz recém-vindo do Europeu dos mais novos cuja rotação na bola deu outro ritmo à equipa que, contudo, pareceu ter perdido aos poucos a capacidade de dar um vazão finalizável à muita bola que teve até ao final. Porque foi deixando de ser capaz de jogar dentro do bloco do Santa Clara, cada vez mais com as linhas comprimidas e coladas à baliza.

Haveria cinco minutos de descontos, pareciam uma contagem inevitável para um empate e o habitual holofote viciado no erro cair sobre o miúdo que não tem uma sequência de titularidades constantes desde dezembro e, repetindo, como todo o futebolista só aprenderá se jogar porque estar em jogo significa cometer erros.

E os melhores são aqueles que domam a arte de pouco errar, porventura Diogo Leite sabe-o e por isso, ainda com um quê de aflição no olhar, mas com a cara aliviada, terá dado um abraço sentido a Toní Martínez mal o árbitro apitou, um minuto após o espanhol cabecear o cruzamento de Corona e resgatar o 2-1 no limite dos descontos (90’+4). O avançado salvou a vitória, salvou o FC Porto e salvou Diogo do escrutínio que sempre tende a pairar sobre estes dentes de leite que caiem a qualquer jogador.