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O futebol é de ninguém. Este jogo foi dos eficazes do futebol

O FC Porto rematou mais vezes, teve mais oportunidades para marcar e, estrategicamente, escolheu uma forma de defender que condicionou bastante o Chelsea durante vários períodos. Mas os ingleses ganharam 0-2 porque foram melhores em duas coisas: erraram menos individualmente e foram mais eficazes nos três remates que acertaram na baliza

Diogo Pombo

Fran Santiago/Getty

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Pela via mais rápida são oito quilómetros e meio, a terra não é muita, para quem veio de outro país estes oito mil e quinhentos metros soam a preciosismo, o Sánchez Pijuán onde estão fica perto do La Cartuja que elevou os antepassados à glória, e esta é coisa que parece ter sido há pouco e foi-o há muito, já são 18 os anos contados desde que o FC Porto levou uma Taça UEFA da cidade que agora serve de casa a fingir para jogadores a quem, por certo, se explicou a costela-talismã do lugar.

De entre Agustín, Wilson, Chancel, Zaidu, Mateus, Marko, Otávio, Jesús, Luis e Moussa não há, sequer, que já tivesse começado no futebol em 2003, o único até já era sénior é o nome que falta, Pepe, o mais batido e rodado dos portistas em Ligas dos Campeões passadas que está ao meio da linha de cinco que o FC Porto monta sem a bola, puxando Corona para a direita de Manafá para povoar a largura por onde Havertz espreita e sobretudo Werner costuma zarpar, de fora para dentro.

O mexicano lá aguenta a posição e espera, como espera a equipa num bloco médio-alto, sem Marega ou Díaz a tentarem condicionar os três centrais do Chelsea cujo um dos truques é trocarem passes e paciência atrás, para cortejar a pressão dos adversários e assim abrir espaços entre eles, nas suas costas, onde quer ter os seus médios a receber e a virarem-se com bolas que possam lançar no trio da frente que poucos toques precisa até inventar algo de perigoso.

E o tempo corre e o Chelsea tem mais da bola mas não do espaço, é bola inconsequente lá atrás e quase inofensiva na frente, Corona é a barra que impede jogadas de serem rodadas até ao ala Chilwell e a preocupação extra que retira a Manafá deixa-o ocupar-se de, e anular, Timo Werner. De perigo se fala só quando Uribe recolhe uma segunda bola à entrada da área e a remata (10’) logo e no momento em que Otávio curva um canto (23’) que o guarda-redes Mendy impede à risca de entrar diretamente na baliza.

Trinta minutos se contaram assim, a bola a mais a servir de pouco ao Chelsea, a estratégia sem ela a ser uma falta servitude do FC Porto que, assumindo esta postura, bloqueava o adversário e aproveitava as recuperações para arrancar ataques rápidos que até se livraram da reação pós-perda em que o adversário, com Thomas Tuchel, é forte. Mas, a partir da meia-hora, as coisas mudaram.

O Chelsea, empurrada a linha de Marega-Díaz para trás, orientou mais vezes as posses de bola para a direita, à procura de alguém a receber no lado cego, ou perto, do inquieto Zaidu, o elo mais precipitado da defensiva a abordar coisas no seu raio de ação; e na jogada mais duradoura dos ingleses no meio-campo do FC Porto até ao intervalo, na segunda vez dessa mesma jogada em que a sua última linha até estava com seis jogadores, Zaidu precipitou-se.

Tentou antecipar-se para cortar o passe (de Jorginho, não pressionado) que identificou tarde, desvantajou ainda mais a posição sem alguém na cobertura e deixou que Mason Mount rodopiasse com uma receção orientada de costas, no costado de Zaidu, para deixar a bola à sua frente e a rematar (32’) com o segundo toque. 0-1 com o único remate feito pelo Chelsea na primeira parte, que ainda teve a cabeça de Pepe a desviar (43’) um canto para as mãos de Mendy.

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À primeira bola da segunda parte, o FC Porto saiu com ela, bateu-a na frente e logo quis pressionar junto à área, a intenção lá e a equipa não, partida e desconjuntada para o Chelsea a furar até ao outro lado do campo, muito pela boleia de Kovacic, dos médios na Europa que mais chama um figo a quem o abordar à queima ou abrir relva para ele correr com bola como o fez, formatado que está para o fazer.

De formatos está, também, Marega cheio, ou de um em peculiar, o de sprintar pelas costas do central esquerdo adversário e rumo à profundidade entre este o lateral/ala, lá foi o maliano a correr atrás de um passe rasteiro de Manafá que pareceu ter os oito mil e quinhentos metros de distância que separa este FC Porto do sítio do outro FC Porto, que tinha outros jogadores, donos de outra eficácia que o avançado não teve (51’) para desviar a bola do guarda-redes. Seis minutos depois, foi uma corrida fura-linhas de Manafá a deixar Luis Díaz curvar um remate que rasou o poste da baliza.

A tal pressão que o FC Porto montou ao primeiro pontapé na bola pós-intervalo prosseguiu, constante, jogo fora e a campo inteiro. A agressividade das boas nos duelos, os apertos nas costas dos adversários e a forma como cerravam espaços ia dando muitas recuperações de bolas aos portistas. Sobretudo, ia desconfortando o Chelsea no jogo. Os ingleses que, nos últimos 15 jogos muito cresceram em capacidade de gerir a bola e tê-la em ataque posicional, lutaram mais do que jogaram até aos derradeiros 10 minutos.

Erraram pela forte pressão individual exercida pelos portistas, bateram várias bolas para a frente - onde até colocaram a estampa de Giroud, para tentar segurar esperanças no espaço aéreo de Pepe e Mbemba -, tiveram Reece James e Ben Chilwell constantemente postos em duelos e viram o FC Porto a controlar vários períodos da segunda parte, mesmo que, depois, de palpável só um remate frouxo (69’) de Marega. Até que se entrou na dezena de minutos do fim.

Aí houve um contra-ataque rápido que virou rapidíssimo nos pés de Pulisic, que usou o direito para rematar (84’) a bola contra a barra, um par de minutos volvidos das primeiras substituições de Sérgio Conceição a uma equipa espremida até então; um minuto depois de a baliza de Marchesín abanar, uma bola longa caiu sobre Corona, já ocupado a ser lateral, e caiu sobre o pé esquerdo que no mexicano é como se fosse o direito, é conhecida a pantufa que há em cada pé seu, mas ali não as houve.

A bola bateu no pé de Corona e ressaltou com afronta, ele com o corpo orientado para dentro, para a baliza, de costas voltadas para onde vinha Chilwell embalado. O inglês ia receber um passe e recolheu a sobra de um erro, acelerou para fugir a Marchesín e encostar (83’) um 0-2 demasiado castigador para o FC Porto, talvez. Evidenciador de duas coisas será, seguramente.

Elas são o facto de, muitas vezes, a diferença no futebol está em quem erra menos ou muito pouco, tal e qual os portistas se apresentaram contra a Juventus, na proeza da ronda anterior; e o outro facto, o de o futebol não ser de homens, mulheres, crianças, adultos ou de quem olhe para o umbigo e se achar dono de reclamar qualquer propriedade sua, mas é muitas vezes de quem é mais eficaz nos momentos fulcrais. O futebol é de ninguém.

O resultado deste jogo foi do Chelsea porque, individualmente, não errou como o FC Porto e teve a eficácia (três remates na baliza, dois golos) que os portistas não tiveram.