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O futebol do FC Porto não prescreve

Dias depois da derrota com o Chelsea, a equipa de Sérgio Conceição derrotou competentemente o Tondela, controlando o jogo de fio a pavio, com um golo na primeira-parte e outro na segunda, e poupando jogadores a pensar no encontro com o Chelsea. O FC Porto não vai oferecer esta Liga ao Sporting

Pedro Candeias

Otávio foi eleito o melhor em campo, no Tondela 0-2 FC Porto. Foi dele a assistência para o golo de Taremi

MIGUEL RIOPA

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E de repente choveu em Tondela e a coisa parecia complicar-se um bocadinho mais para o FC Porto. Pois não era uma chuvinha ligeira, mas intensa, e porque o relvado ficou pesado logo ali no aquecimento, era provável que a estratégia sofresse uma ligeira afinação: jogar em Tondela nunca é fácil, jogar em Tondela com um olho na Liga e outro na Liga dos Campeões mais difícil se torna; jogar em Tondela com o que já se disse e em condições de aquaplaning pode ser um cabo dos trabalhos.

Fosse como fosse, ao sol ou debaixo de água, nada retiraria o sorriso confiante da cara do ultracompetitivo Pepe, o prodigioso central cujo físico não prescreve. Ora então, lá entrou o capitão a liderar o pack portista, vindo não se sabe bem de onde, porque a pandemia obriga a que duas equipas não se cruzem em túneis e balneários de acessos exíguos.

Com o luso-brasileiro não vinham Sérgio Oliveira, nem Marega ou Taremi; vinham Grujic, Toni Mártinez e Evanilson. Todos os jogos devem ser disputados de igual forma - pelo menos é o que os treinadores nos garantem na lengalenga do jogo a jogo - mas no grande espetro das coisas, o Chelsea - FC Porto vale objetivamente mais do que o Tondela - FC Porto: há uma meia-final, prestígio e bastante dinheiro em causa.

Bom, mas primeiro o Tondela - FC Porto, para o qual Sérgio Conceição preparou um sistema híbrido, na medida em que defendia ordeiramente em 4x4x2 e atacava em 2x4x2x2, com os laterais bem abertos no meio-campo, os extremos metidos e os avançados no lugar deles.

Superioridade no meio-campo, check.
Jogo interior, check.
Largura, idem.

Faltava o resto, que era encontrar espaços num adversário que tinha uma singela missão: defender e pôr a bola em Salvador Agra na linha. A tarefa era particularmente cabeluda, juntando-se a isso a relva empapada que travava as boas intenções, forçando os portistas a agir com o calculismo e precisão de uma brigada anti-minas.

Ainda assim, num contexto em que se pediam passes longos para queimar etapas, o FC Porto tentou construir jogadas interessantes, como aquela entre Corona e Evanilson, que chutou de pé esquerdo ao lado, ao 14’. Cinco minutos depois, a jogada clássica em dias de chuva: um lançamento para o ponta-de-lança, que dominou de peitou, descaiu para um lado e chutou para glória. Os protagonistas foram Pepe e Toni Martínez, o primeiro a estrear-se em assistências nesta Liga, o último a marcar pela segunda vez consecutiva este campeonato.

Instantes depois de receber o sinal de aprovação do banco pela pontaria, Pepe repreendeu asperamente Zaidu, pelo mau posicionamento num remate em que Rafael Barbosa atirou ao lado; seria esse um dos dois lances - Jamie Grau, aos 41’, para defesa de Marchesín - que podiam ter dado golo para o Tondela na primeira-parte. Fogachos na água.

Quanto ao FC Porto, continuou a querer carregar no rival que parecia saber jogar melhor futebol do que aquilo a que estava obrigado. Então, aos 24’, Corona arrancou pelo meio e combinou com Toni Mártinez e o mexicano viu o seu remate prensado para canto e Grujic cabeceou para uma defesa fácil de Trigueira mesmo, mesmo antes do intervalo.

O FC Porto seguiu para o descanso a ganhar legitimamente perante o Tondela que insistia no método defensivo, em flirt com o acaso, que lhe vale o título de equipa menos batida da Liga. Invocar aqui a estatística para justificar o tom deste texto seria redundante, mas fica aqui o que a GoalPoint explicará melhor do que eu:

A segunda-parte começou com um cabeceamento de Evanilson numa bola parada batida por Otávio; o brasileiro desperdiçou uma oportunidade clara e claro que pôs as mãos na cara a perguntar-se tinha falhado aquilo. Depois, assistiram-se a alguns momentos-Pepe em poucos minutos: Pepe a cortar a bola num remate de Salvador Agra, Pepe a ganhar uma falta ao deixar-se cair sobre os adversários, Pepe a pedir mão de um adversário para um penálti quando estava fora de jogo, Pepe a destruir as boas ideias de Agra, a seguir a ter fugido a Manafá. Pepe marca corta bate assiste cai levanta-se e nunca desliga o chip.

Foi a seguir que Sérgio Conceição começou a fazer substituições para revigorar o meio-campo e o ataque. Saíram Grujic e Toni, entraram Luís Diaz e Sérgio Oliveira, com o treinador a levantar dois dedos: o esquema era para manter, o colombiano iria juntar-se a Evanilson até que este desse o lugar a Taremi, aos 74’. Só que, pelo meio, Ayestarán fez entrar Murillo, certamente o futebolista mais vertiginoso do seu plantel, e pô-lo à direita; Conceição pôs então Diaz à esquerda e chegou Otávio a Taremi.

Após alguns solavancos, provocados sobretudo pela verticalidade de Murillo em situações de 1x1, seria esta dupla a definir o jogo: Otávio ultrapassou adversários e cruzou para o persa que não marcava desde a eliminatória com a Juventus, a 17 de fevereiro. Conceição diz que a máxima “avançados vivem de golos” é “uma tanga”, e Taremi precipitou-se para o cabeceamento, ultrapassando Diaz, e celebrou o golinho feito à segunda tentativa como se sua a vida dependesse daquilo.

E a partir daquele momento, só uma hecatombe retiraria os três pontos ao FC Porto e ao seu treinador que ainda viu o seu filho Francisco entrar para uma ou duas reviengas talentosas. No final, reuniu-se aos seus jogadores, disse o que tinha a dizer na roda, e pediu a Pepe para dar o grito de guerra. O FC Porto não vai oferecer nada até final da Liga.