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FC Porto

Uma bicicleta não chegou para este pérfido espírito inglês

Outra vez, Sérgio Conceição acertou na estratégia e o FC Porto incomodou e, durante muito tempo, anulou o Chelsea, mas faltou-lhe ver e chegar à baliza, tal como na primeira mão. Viu-a só nos descontos, com um golaço de bicicleta (0-1) de Mehdi Taremi que já apareceu tarde e serviu de despedida da Liga dos Campeões

Diogo Pombo

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O livrinho é de 1940 e custava um escudo e meio, são 24 páginas de notas e comentários escritos por Thomaz Ribeiro Colaço sobre “O Espírito Inglês”, no fundo o escriba dedicou-se aos ingleses, então ainda existia a noção abstrata e territorial de um Império Britânico, também escrevinhou sobre isso, mas a causa a que se dedicou são os ingleses e às tantas, pondo palavras com origem em outros, descreve-os como “os mais egoístas, os mais pérfidos e os mais ambiciosos”.

Passou-se uma guerra, desmembrou-se o império, contaram-se décadas e foram os tempos deste datado livro, olhasse o autor para este Chelsea inglês e pouco inglesado e rasgá-lo-ia: de ingleses só há Reese James, Mason Mount e Ben Chilwell, estes dois os marcadores do 0-2 da semana anterior, à volta deles correm um americano, um italiano, dois franceses, um espanhol e dois alemães e mais um outro, que em todos manda, no banco.

Ia a primeira parte a meio e Thoma Tuchel vira às costas ao campo, revolta-se, esbraceja para bater uma palma e a irritação ecoar no estádio, ouve-se a frustração por Havertz não correr e pressionar a receção que Mbemba faz de uma bola inofensiva, vinda de um lançamento lateral; o treinador do Chelsea enfurece-se um pouco e o FC Porto filtra a posse para o outro lado do relvado. É uma intenção coletiva que sai ao adversário, mais uma, será isso a irritá-lo.

Quando Tuchel fumegou, Jesús Corona já rematara na área, a bola desviada à última pelo socorrismo de Jorginho ao erro do guarda-redes Mendy, apertado por Marega na ponta do icebergue de pressão portista a campo inteiro e que errou ao meter um passe nos pés do mexicano (11’). Depois, fixando-se no lado cego de Chilwell e sem coberturas por perto para o inglês, encostou-se ao adversário, ganhou a receção e logo rematou a bola que ficou a saltitar-lhe à frente, mas acabou na bancada (33’).

oram as duas tentativas do FC Porto até ao intervalo, o Chelsea teve uma, saída do pé direito de Mount ao fim de uma transição rápida, Mbemba desviou essa bola e quase deu em susto azarado, passou ao lado da baliza (7’) e nem essa, ou a outra, encaixaram bolas; não houve remates a verem baliza, tão pouco os portistas viram o golo, faltou-lhes, como os evadiu na primeira mão apesar de também lá a estratégia muito incomodar o adversário em que o inglesamento pouco importa - o que o releva são os meios, o dinheiro e logo a qualidade individual que tem a mais.

Apesar de tudo isso o FC Porto acerta, Sérgio Conceição é reincidente e a forma como monta a equipa para se comportar, sem bola - bloco bem alto, pressionando a campo inteiro, os jogadores agressivos nesse momento e agora com a linha defensiva subida e feita a quatro - incomoda bastante o Chelsea. Outra vez, mas de outra forma, o Chelsea é condicionado também porque tem outros em campo.

Kanté não é Kovacic, na ampulheta do francês a areia cai muito nas coisas boas que oferece sem a bola e demora a encher-se no que dá nas ações com ela, é o que não dá que o menoriza perante o croata que falta faz ao Chelsea, que tão pressionado, com tantas receções de costas apertadas e obrigado a decidir rápido, incapaz é de achar conforto na forma como é chateado. Ao FC Porto, falta nos últimos 20/30 metros não depender tanto no recreio gerado pela aproximação de Otávio a Corona, à direita.

Fran Santiago/Getty

Nota-se quando o jogo retorna, até podia já assim estar antes mas a televisão enquadra a inquietação de Sérgio Conceição, a esbracejar e a rodopiar no banco, presumo que indicações-mil rumo às dificuldades que a equipa denota mais a acercar-se da área e a ser criativa quando lá chega, porque não chega só insistir, carregar, procurar Marega e quase marrar contra a área. Falta artimanha para atrair, fixar e inventar coisas inesperadas.

Quando Taremi, mesmo com tempo e espaço para usar os pés, cabeceia um quase balão de Corona para Mendy ir à relva (65’), o FC Porto já passara esses 20 minutos a perder mais segundas bolas, a errar amiúde nos primeiros passes das jogadas e a ser ultrapassado nas reações às perdas. O Chelsea tem quatro aterragens vertiginosas na área portistas, já não parece impotente. Nem anulável.

O tempo que restava era muito. Mas, a cada minuto, faltando um pouco menos, iam sobrando menos coisas tangíveis. Foram sendo curtas a fatia de bola maior do FC Porto, o incómodo causado no Chelsea ainda se descortinava, as fintas evasivas de pressão de Corona (depois, de Díaz), a cilindrada de Otávio, a insistente procura de Marega ou Taremi ou os cruzamentos à procura de algo que nem sempre Zaidu, ou Nanu, pareciam não ter bem a certeza, foram sendo curtos.

Ou insuficientes, como se queira, os portistas viam a baliza ao longe, era-lhes um retângulo aparentemente inalcançável e o Chelsea desconfortável, sim, só que acomodado a estar como tal, uma e outra equipa mantiveram-se sem tentarem ferir os alvos até aos descontos. Houve uma correria de Pulisic área dentro que só Marchesín parou, na única parada que fez no jogo; depois, o melhor para o fim, uma tentativa de Nanu que finalmente foi um cruzamento chegado ao destino.

Alcançou o único iraniano presente na Liga dos Campeões, a história guarda a antiga Pérsia como o berço de bonitezas espampanantes, de ornamentos esbeltos, e Mehdi Taremi achou por bem acolher a praticamente última bola do jogo com uma bicicleta projetada no ar. No incrível tardio o FC Porto viu a baliza, mas faltou tempo para o sublime de Taremi ter seguimento.

O FC Porto ganhou este segundo jogo, mas um 0-1 subtraído a 0-2 resulta-lhe em nada, o clube mais endinheirado ficará pelo resultado - a primeira vitória fora contra uma equipa inglesa, que nem jogou em Inglaterra - e desportivamente cai nos quartos-de-final da Liga dos Campeões onde chegar tão longe tem direito a fartos elogios quando se parte de Portugal.

De onde Thomas Colaço Ribeiro escreveu e até terá razão, os ingleses podem não ser pérfidos, mas a perfídia deste Chelsea ao não jogar, ou comportar-se, ou agir conforme a superioridade que o papel lhe reconhece, fá-lo ficar como traiçoeiro e ter faltado ao que dele se esperava - ou, provavelmente, foi obrigado a sê-lo pelo FC Porto. E à estratégia faltou baliza que fosse avistada mais cedo.