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Ninguém é de aço

O FC Porto não foi avassalador, não controlou sempre, mas venceu por 1-0 um Vitória que só conseguiu rematar uma vez no jogo e assim ficou, de novo, a quatro pontos da liderança que tem patinado, como chegou a estar antes de começar a patinar

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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Dezembro não foi assim há tanto, quando o reflexo deste jogo se fez faltava pouquíssimo tempo para dobrarmos o ano, em Guimarães saía vapor dos arfares dos jogadores e no frio houve um Pepe de mascarilha, um erro logo a abrir na fase de construção dos que destapam as tocas de quem critica construir pela relva e um miúdo deste milénio a ser substituído à meia hora.

Sucederam coisas esquisitas, inusitadas pelo menos, e o FC Porto haveria de ganhar com um bis iraniano no meio de cinco golos, o evento já parece um fantasma de futebóis passados e Vitória que então perdeu também é outro, está diferente, agora chegou ao Dragão com três centrais, o terceiro treinador da época (Bino) e Marcus Edwards a titular, o perturbador inglês que naquele dia só entrou em campo à terceira idade do jogo (80’).

Aqui não, esteve de início e nele o protagonismo da forma rápida, bem vertical e prática (bola no pé, passes rasteiros, gente próxima para combinar) com que o Vitória começou a atacar: com uma diagonal da direita para dentro, a acabar uns metros antes de onde a linha defensiva do FC Porto protegia a zona na área, recebeu um cruzamento rasteiro de Mensah, mas falhou o remate (7’); logo a seguir, na esquerda, livrou-se de Nanu e cruzou a bola com força para o espaço entre os defesa e Marchesín (9’) e vários pés quase lhe chegaram.

Estes minutos tiveram ares de preâmbulo de algo maior, algo atrevido e atacante. Era engano, a partir da metade da primeira parte a bola foi reclamada pelo FC Porto, como sempre muito apostado em forçar e forçar a última linha adversária com corridas rumo profundidade e bolas caçadoras dos jogadores que as faziam. A mescla de intenções ditaria o resto.

Querendo tanto, à força e quase sempre da mesma forma chegar à baliza, o FC Porto empurrava o adversário contra a área pela repetição das tentativas, encostava-o; e, por tanto ter de controlar a maneira de atacar portista e optar fazê-lo com um bloco baixo, juntando os alas aos centrais e os extremos aos médios, o Vitória encurtava a equipa e, nas bolas que recuperava, era facilmente apertado com tudo.

Só viu baliza ao longe até ao intervalo, nenhum remate para amostra, depois do arranque ousado resumiu-se a procurar, em cada bola recuperada, lançamentos à pressa na ilha em que se transformou Estupiñán, inundado pelo controlo de Mbemba e Pepe. Mas o FC Porto, mesmo com mais bola e território controlado, não trocava passes dentro do bloco adversário e na área só existiu um remate em esforço de Taremi (21'), lançado por Pepe na ressaca de um lançamento lateral.

Octavio Passos/Getty

Para compensar a ausência de balizas houve ritmo, dinâmica e bola a rolar, o jogo teve tempo útil, em parte porque registou apenas seis faltas e o câmbio entre ataque continuado do FC Porto e as fugazes tentativas de contra-atacar do Vitória era fluído. A novidade esteve na sétima falta, inofensiva, que parou a bola à entrada do meio-campo portista.

Rochinha viu algo, pensou em outro algo e o que lhe saiu do pé direito foi algo disparatado, a bola que o pé cortou com força saiu rasteiro contra um adversário que estava de frente para o jogo e logo lançou a reação em Otávio, que se virou de frente enquanto os três centrais do Vitória fugiam da linha do meio-campo, quiçá prevendo o previsível Marega. O maliano arrancou, o passe entrou, Mumin até chegou primeiro ao passe, mas hesitou e a força e o embalo do maliano tomaram a bola e cavalgaram até ao golo (49’) em pleno Ramadão.

O jogo ficou mais ou menos igual, foram mais 10 minutos de insistência de um lado e acudir como se podia do outro, às tantas (65’) o Vitória trocaria de extremos e a coincidência de Rúben Lameiras e André Almeida puxou mais da bola para a equipa. A resistência de ambos à pressão e o critério com que decidia o que fazer davam mais respirações às posses de bola da equipa que, aos poucos, foi emergindo no jogo.

Também porque o FC Porto, com o tempo, abrandou o ritmo dos passes e das jogadas. Pareceu querer mais controlo, como se vagar fosse forma de controlar, não o é, e mesmo que Taremi tenha lançado Marega para o maliano se desviar de Bruno Varela e o guarda-redes bloquear o remate (68’), nas últimas, o Vitória ia crescendo. Parcamente, mas ia.

De tangível só um livre que Pepelu curvou para lá da barreira (73’), Marchesín atirou-se à relva e os seus dois braços esticados para repelir a bola. Seria o único remate no jogo Vitória, cujos vários cruzamentos, passes longos tentados, quase-receções na área acabariam por ser apenas ruído, uns sons incomodativos embora suportáveis.

Findariam nos últimos instantes, o Vitória acabou tal e qual esteve antes, encurralado e encurtado atrás, empurrado pelo chutão sem tino para fazer a gravidade trabalhar do central Mumin (mais um erro grosseiro), que Luis Díaz amansou na relva para rematar e Bruno Varela salvar (90’); depois, Francisco Conceição aproveitou os seus minutos para ser ladrão na área, dribla dois adversários e rematar (90’+2) à barra.

Tudo acabaria por deixar o FC Porto como esteve no início de fevereiro, à 16.ª jornada, de novo a quatro pontos da liderança, antes foram eles os escorregadios de pontos e agora são quem ganha e vai ganhando enquanto falha um pé ou outro ao Sporting. Ninguém é de aço, todos vêm do ferro que têm dentro e terão de ter até ao fim do campeonato.