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Regresso ao Futuro, em exibição num sofá perto de si

Marega, o avançado-alvo das últimas quatro épocas na forma de jogar do FC Porto, assistiu à goleada (5-1) imposta ao Farense, que apesar da génese filiada e do leão ao peito nada fez para tirar do sofá a eventual festa do título do Sporting. E viu como poderão ser as dinâmicas e as prioridades da equipa a partir da próxima época, já sem o maliano

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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A obesidade dos números engana, de facto é gente farta a jogar à bola a sério em Portugal e depois é uma questão do grau de seriedade, mas, das 195.671 almas federadas em 2019/20, raras eram as sortudas, aquelas realmente felizardas por terem um treinador avesso a dogmas. Sem tentar meter uma equipa a jogar desta forma, com estas dinâmicas, com certos jogadores a partirem de certas posições para haver certos movimentos, sejam quais forem as coisas que eles façam bem, mal ou assim-assim.

O Marega que está no banco é bom a jogar futebol de uma certa forma, descrevê-lo é chuva a cair no molhado de quatro anos feitos com Sérgio Conceição, o concessor da sorte do maliano, que teve um treinador a descortinar-lhe as características e a adaptar um estilo para servir as suas musculadas diagonais de ataque à profundidade e interrompamos o raciocínio, porque em três minutos de FC Porto-Farense a bola toca na mão de Licá na área e tudo pára tão pouco depois de começar a mexer.

O penálti do 1-0 de Taremi, outros três minutos volvidos, frustra várias cabeças vindas de Faro e são também três os cartões amarelos gerados pela indignação, mas voltemos à fortuna que há mais futebolistas a não terem, do que o contrário, então esta época, que os federados mirraram para 76.883, ainda menos afortunados haverá por esses campos fora.

E os 71 golos marcados por Marega até ir para a Arábia Saudita sem proveitos financeiros devidos ao clube levam a outra questão, a do ovo ou da galinha deste FC Porto - a equipa joga como joga por causa do maliano, ou é o avançado o melhor que a equipa sempre teve para esta forma de jogar?

Sentando-o e escolhendo quem se levantou por ele, o treinador ajudou à resposta. Toni Martínez tem semelhante queda para as costas da linha defensiva, tem rapidez e presença de timing nas corridas e tem um cardápio nos pés mais vasto do que o oferecido por Marega, o 2-0 que marca a deslizar e por entre as pernas de Beto nem o mostra, mas a sua presença destapa o que pode ser Taremi, e não é, se coincidir no campo com o avançado dos “pés quadrados”.

O iraniano joga na corda-bamba dos espaços, nas barbas dos defesas e no costado dos médios, seja em ataque continuado ou em transição rápida ele oferece-se como receção fora da área e o FC Porto usa-o em quase todas as jogadas. A bola chega-lhe, todos o veem e Taremi recebe bolas, seduz saídas de posição de algum adversário e espera até soltar um passe em alguém foragido na tal profundidade. Luis Díaz é o seguinte nessa fila e aos 20 minutos já há um 3-0.

Os dois sucessos de bola corrida surgem sem o FC Porto a tentar tantas vezes, com tanta insistência e com passes a partirem tão longe da área (jogando a distância da última linha adversário e com o espaço que terá quem for atrás dessa bola) como de costume. Os jogadores que tem mudam a aplicação da matéria dada, mas as circunstâncias ajudam: são 45 minutos de Farense desatinado a cobrir os espaços entre linhas e à, meia hora, os pitons que Bilel encosta na perna de Manafá valem-lhe um cartão vermelho.

As carótidas hirtas no pescoço de Beto, refilador para lá da sua área no tempo morto que se sucede, são o sinal da frustração do Farense, sem uma equipa capaz de resistir à pressão montada pelo FC Porto mal perde uma bola, sem maneira de simplificar as decisões quando tem de evitar o momento em que os portistas gostam de se armar em ladrões. São zero remates e apenas seis ataques dos algarvios ao intervalo.

Octavio Passos/Getty

Jorge Costa rende-se, troca o presente pelo futuro e troca quatro jogadores no descanso, apesar de filiado na génese, também ter um leão no peito e até de verde estar vestido, a luta do Farense não é a que o contexto lhe deu, dificilmente disputaria este resultado e contribuiria para o Estádio do Dragão ser causa de festa em Lisboa. Não ganhando, o FC Porto faria do Sporting o novo campeão nacional já nesta segunda-feira.

Ao décimo minuto de segunda parte, as veias do guarda-redes do Farense não estão tensas, ele agora tem um sorriso de troça e três dedos esticados de uma luva, talvez por ter sido a terceira vez no jogo que uma bola recém-recuperada pelo FC Porto é logo passada a alguém que com ela se vira entre linhas e isola outrem que arranca num pique curto nas costas da linha defensiva. Otávio passa, Taremi corre e 4-0.

O resto do tempo fez do relvado um lugar-comum do futebol, coube ao FC Porto gerir e fê-lo umas vezes mais rápido, outras cheio de calma, dando tempo a representantes da miudagem e a um tipo de golos feitos, mas de minutos parcos, em parte, por a referência na maneira de fazer as coisas da equipa ser o (ou um dos) avançados à sua frente nas prioridades. Evanilson até teve uma bola para marcar, mas Beto esticou-se à sua frente, já o guarda-redes tinha ido à relva negar Fábio Vieira e visto uma bola de Francisco Conceição sobrevoar a barra.

Seria o único dos miúdos com honras de titularidade a ver, de facto, a baliza. Marchesín agarrou uma bola e cortou-a logo com o pé, batendo-a tensa e quase até à área oposta, para onde João Mário a perseguiu e ajeitou-se para o 5-0, a poucos minutos do fim. Já quase nos 90’, o miúdo que sobrava mencionar errou e originou a consolação do Farense.

O jogo ficou nos 5-1 porque Diogo Leite cabeceou uma bola para trás, não o suficiente, e Licá desviou-a no limite da área que o guarda-redes não ultrapassou, pouco depois de Pepe se guerrear à palavrada com Jorge Costa, seu antecessor central em guerras futebolísticas do passado do FC Porto.

A goleada sem Moussa Marega destapou um certo vislumbre de futuro para o FC Porto. Fica-lhe a faltar uma vitória para garantir a fase de grupos da próxima Liga dos Campeões e cumpriu a tarefa de não ser o causador de uma festa de sofá para o Sporting.

Mas, sobretudo, pode ter visto uma outra forma de jogar, de emparelhar avançados e entremear gente para descobrir espaços na metade do campo dos outros, sem canalizar tanto jogo para as previsíveis corridas do maliano. Haja treinador, seja Sérgio Conceição ou quem for, para adaptar a equipa aos atacantes com que ficará.