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FC Porto

O generoso, o killer que não é falso e os garotos

FC Porto fecha a época com uma vitória por 4-0 contra a B SAD. Quando soou o apito final, estavam seis jogadores da formação a jogar com o dragão ao peito

Hugo Tavares da Silva

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Quando alguém está bem com a vida a coisa nota-se. Vivem mais vagarosamente, sabe-se lá, estão serenos, levitam durante a labuta, sorriem mesmo que não seja com os lábios, há mais tempo para a generosidade, são menos egoístas ou caprichosos. Otávio, que não anda afobado e deixa a urgência para outros, parece viajar nessa carruagem. Chegou ao FC Porto em 2014 e renovou há pouco até 2025, apesar dos rumores de que era desejado na terra do pepperoni e das pastas. A bola gosta dele, ele já fala em FCPês e os colegas, que se vão juntando à volta dele como se fosse uma fogueira para contar histórias, agradecem: são já 12 assistências para golo (8 na liga). Deviam ser 13…

O campeonato terminou esta noite no Dragão com mais uma vitória folgada, a terceira depois do desaparecimento do 11 de Marega após anúncio da transferência para o Al Hilal: o FCP bateu a B SAD por 4-0, com golos de Taremi, Grujic, Toni Martínez e Diogo Leite.

O jogo teve pouco ritmo, estava pouca coisa em causa. O veneno dos ataques, a qualidade claro, marcou a diferença. Se os homens da casa já tinham assegurado o segundo lugar, os futebolistas orientados por Petit, no 10º lugar, podiam ainda sonhar com a subida de três lugares. A B SAD até foi crescendo, pelo menos em algumas fases do jogo, encontrando caminhos para a baliza, aproveitando o espaço deixado pelos laterais ofensivos do FCP, mas Marchesín e o desacerto dos avançados não permitiram o marcador do visitante mexer.

Uma das grandes notícias, mesmo num jogo a valer pouco, foi o facto de o FC Porto ter terminado com seis jogadores da formação em campo: Diogo Leite (22 anos), João Mário (21 anos; bela exibição e assistência para o dois-zero), Sérgio Oliveira (28 anos), Romário Baró (21 anos), Fábio Vieira (20 anos) e Francisco Conceição (18 anos). Terão mais protagonismo na próxima época?

O primeiro golo pingou logo aos 14’, quando Varela, solidário, estava recuado a ajudar a defesa e cometeu um erro de cálculo na receção da bola, que preferiu outro fado. Otávio adivinhou e, generoso lá está, ofereceu-a a Taremi, que tocou para a baliza deserta. A bola saiu tão colada ao poste que ele, na hora de festejar, encolheu os ombros como quem sentia alívio.

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Taremi entende-se bem com Toni Martinez, o mais nove dos noves em campo. Ou seja, o iraniano pisa outros terrenos, dá-se de outra maneira, está mais disponível, sai mais do lugar. E isso não significa que não seja um 9 a sério, tal como explicou em tempos Tostão, numa crónica na “Folha de São Paulo”, quando tentava descascar Rafael Sóbis, avançado do Cruzeiro, onde o campeão do mundo de 70 jogou quase a vida toda: “Não vou chamar Sóbis de falso 9. No Brasil, todo centroavante que não é pesadão e que não joga parado é chamado de falso 9. O centroavante ruim, geralmente, é o estático, o verdadeiro 9". Taremi - que não é ruim, que não é pesadão e que não joga parado - não é um falso 9, é um verdadeiro. E dá muito trabalho - exige qualidade - a técnica e a inteligência corresponderem quando se navega por águas distantes da baliza. De acordo com a Goal Point, Mehdi Taremi já leva, desde a época passada, 34 golos e 13 assistências em 64 jogos.

Do outro lado iam-se registando alguns bons pormenores de Tomás Ribeiro, Miguel Cardoso, Calila e Afonso Sousa, neto de António Sousa e filho de Ricardo Sousa. Na frente, Cassierra, atrevido, tentava desequilibrar e atirar à baliza de Marchesín, mas o golo nunca chegaria.

O segundo golo deste fim de tarde nasceu na direita, com João Mário a acelerar e deixar Rúben Lima para trás, escolhendo depois o cruzamento atrasado: Grujic, 2-0. De acordo com o playmaker do zerozero.pt, João Mário já tem tantas assistências (3) neste campeonato como Wilson Manafá e mais do que Zaidu e Nanu.

Pouco depois, a seguir a Varela ter disparado à trave do FCP, o árbitro cometeu um daqueles erros primários: Otávio sofreu uma falta dura de Phete mas mesmo assim conseguiu isolar Taremi, que escolheu bem e magicou o três-zero. Mas Otávio havia sido pisado e o apito precipitou-se a apitar. Lá está, era mais uma assistência, sublime, para o generoso Otávio, um homem de 26 anos, natural de João Pessoa.

Quando o Belenenses, que não abdicou de tentar jogar, cometeu um erro na saída de bola depois de um pontapé de baliza, o dragão mordeu, ganhou a bola, Sérgio Oliveira lançou Toni Martínez e o espanhol fez mais um gol, o sétimo na sua contagem.

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Até ao final da partida viu-se pouco mais: o habitual festival de substituições, que trouxe os meninos do FCP para o relvado. Do lado do Belenenses SAD ainda entraram Bruno Ramires, Sithole, Francisco Teixeira, Akas e Nilton Varela, que foi o último a tentar abanar as redes de uma baliza.

Baró, que até entrou a tentar fazer uma rabona, começou a combinar com os colegas no meio campo, principalmente com Fábio Vieira a convocar e juntar os amigos à volta da bola. Os miúdos divertem-se a tocar na coisinha mais bonita em campo. Conceição, com um jeito mais elétrico e menos utilitário do que o pai tinha, ia tendo os seus 1x1 na linha, lembrando-nos que o futebol ainda tem espaço para isso, drible, risco, incerteza. E, claro, a arte de enganar o outro.

Antes do apito final e depois de uma bola saída da canhota de Fábio Vieira, num livre, Diogo Leite meteu a cabeça na bola e assinou o quatro-zero. Antes desta partida, o Belenenses SAD tinha uma defesa menos batida (31) do que 14 equipas da liga, melhor até do que o Sp. Braga (33). A equipa de Petit nunca tinha sofrido uma derrota tão pesada.

O campeonato acabou e agora falta o maior ponto de interrogação ser resolvido: Sérgio Conceição vai embora ou fica?