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FC Porto

A falta de angústia de Toni Martínez antes da desmarcação

Espanhol marcou dois golos na 1.ª parte em dois lances nos quais se vai especializando: fugir à linha defensiva adversária. Mas na 2.ª parte o FC Porto baixou o ritmo, permitiu ao Famalicão crescer e no final quase sofria o empate. Vitória difícil por 2-1 dos dragões, que se juntam assim a Benfica, Sporting e Gil Vicente no topo da tabela

Lídia Paralta Gomes

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

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O futebol moderno é feito de linhas, de centímetros e geometria descritiva. E ganha, na verdade, quem consegue desafiá-las, a elas, as linhas, e por desafiá-las não dizemos enganá-las, claro está, porque o VAR já não o permite, mas sim ser o mais competente naqueles milésimos de segundo que são a diferença entre queimá-las mas não as ultrapassar.

Toni Martínez, o espanhol que na última temporada andou na sombra de Marega, será por ventura um dos jogadores da nossa liga com esse timing mais apurado. Ajuda ter por companhia de ataque um homem chamado Taremi, quase tão bom na área como fora dela, que este domingo frente ao Famalicão quase pareceu um número 10 daqueles que já não existem neste futebol feito das tais linhas e centímetros. E nuns primeiros minutos em que o FC Porto dominou e não permitiu qualquer momento com bola ao adversário, que até gosta de a ter, foi um tal de ver o iraniano a vir cá a baixo buscar bola e lançá-la para o colega que gosta de desafiar as linhas. À primeira não resultou, mas à segunda sim: ao minuto 13, uma má saída de bola de Pêpê foi aproveitada por Taremi que isolou Martínez, que sem qualquer angústia antes da desmarcação bateu a linha defensiva do Famalicão e fez o primeiro.

Já começa a parecer um lance banal para o espanhol, que se apaga aqui e ali durante o jogo mas tem essa qualidade de avançado furtivo, sorrateiro que nem serpente, matreiro que nem felino, capaz de dar as maiores dores de cabeça a quem tem como trabalho olhar para as tais linhas e ângulos de câmara e depois medir o espaço entre dois jogadores - e Toni Martínez sai muitas vezes a ganhar nessas contas.

Acontece que o FC Porto nem sempre acompanhou o acerto do seu avançado. Numa 1.ª parte em que, na generalidade, dominou, os dragões permitiram, no entanto, que depois da paragem para refrescar o Famalicão viesse, bem, mais fresco. Aos 34’ Riccieli deu o primeiro aviso num canto, aos 38’ Ivan Jaime apareceu de rompante pela esquerda para rematar ligeiramente ao lado e o FC Porto percebeu que tinha ali um problema numa deslocação que já se sabia difícil.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

Nestas situações, diga-se, dá jeito ter um Toni Martínez. Porque mesmo nos piores momentos ele arranja maneira de bater mais uma linha. A dois minutos do intervalo, em três toques se fez o 2-0: Bruno Costa deu para Otávio, Otávio lançou o espanhol e este saiu dois centímetros atrás do último homem do Famalicão para se isolar e bater de novo Luiz Júnior.

Martínez fez o seu melhor para tornar fácil um jogo que o FC Porto sabia ser difícil, mas o FC Porto ajudou-se pouco a si próprio na 2.ª parte. À falta de angústia do seu avançado perante a defesa adversária, a equipa de Sérgio Conceição respondeu com questões existenciais que o início de temporada não poderão justificar. Baixou o ritmo, deixou-se levar e o Famalicão aproveitou para subir no terreno e criar perigo. Aos 56’, um cruzamento de Diogo Figueiras encontrou Riccieli na área, com o capitão a ganhar o lance a Mbemba e a mergulhar para golo.

E, do nada, o jogo estava relançado.

Seguiram-se então minutos de parco interesse futebolístico, com o FC Porto sem capacidade para controlar sem bola ou com ela e uma equipa da casa também pouco afoita na hora de chegar à baliza. Nos últimos minutos, já com os jogadores do Famalicão a clamar com problemas físicos, tudo se parecia encaminhar para uma vitória pouco esclarecedora do FC Porto. Mas ainda assim uma vitória.

Mas houve ainda lugar para um último susto, uma última lição, daquelas que Sérgio Conceição não deixará certamente passar: já nos descontos, Zaidu perdeu a bola à entrada da área do Famalicão, pouco ou nada fez para corrigir a borrada e os homens da casa, mesmo os diminuídos, foram quem nem foguetes para o contra-ataque. Bruno Rodrigues recebeu de Pablo, miúdo de 17 anos que é filho de Pena, antigo avançado do FC Porto, correu que nem um desalmado e bateu Diogo Costa, para a explosão do Municipal de Famalicão - e de Conceição, mas por outros motivos.

Só que, lá está, neste futebol das linhas, todos os jogadores sabem que podem estar a festejar um golo ingloriamente. E quando se fizeram as contas, Bruno Rodrigues estava 21 centímetros à frente do último jogador do FC Porto.

Respirou-se fundo no banco do FC Porto, aquele momento de alívio de quem sabe que se meteu a jeito para a surpresa. Valeu que na disciplina de geometria Toni Martínez é melhor que Bruno Rodrigues. E o FC Porto fica por isso na frente, na companhia de Sporting, Benfica e Gil Vicente, todos com seis pontos em dois jogos.