Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
FC Porto

As Intermitências da Relva

No relvado dos Barreiros, como Sérgio Conceição já duvidara, não se viu um grande jogo, nem sequer um bom. Taremi marcou e depois Bruno Xadas empataria com um golo melhor (1-1), mas, num jogo em que a iniciativa foi sempre do FC Porto, as bolas deixaram de morrer na relva e todas espernearam com a vida de ressaltos e sobressaltos, o que explica muita coisa, mas não desculpa tudo

Diogo Pombo

GREGORIO CUNHA/Lusa

Partilhar

Está engalfinhado a corpos na área e a bola a saltitar, é a vida a que está condenada neste lugar de topografia esquizofrénica. Taremi tenta amansá-la com o peito e pô-la no chão, não dá, mas fica a jeito de Luis Díaz, que a aproxima de si, a puxa com a sola da chuteira e toca-se ligeiramente por baixo, para a levantar e logo rematar, quase à moda da versão de praia que existe do futebol e se joga na areia. O único esgar de boniteza na amostra que deu em nada foi esse.

A estes segundos de traulitadas na bola, aos 16’, seguem-se outros, pelos 18’, em que ressaltos e desvios acabam com Toni Martínez, nem a 50 centímetros da baliza, a tropeçar nessa mesma bola quando estica de urgência o pé esquerdo para a transformar em golo, coisa que antes não acontece por um de vários corpos listados a verde-rubro postos sobre a linha, feitos barreira contra o remate de Taremi. Tão pouco esta jogada resulta em algo, mas ambas padecem do mal anunciado e inevitável que ampararia este jogo.

O retalhado relvado do Estádio dos Barreiros mais parecia um pedaço verde desprezado durante meses que, na véspera, foi aparado e remendado à pressa por alguém ter avisado que seria dia de bola, ou esta é uma descrição piorada pela severidade do que se vê pela televisão e no terreno a tentação por descrever o campo como um batatal não se justifique. Só que o demonstrado pelo jogo também não abona à relva que teve a pior avaliação da Liga na última época.

O esquartejado tapete convida à rapidez e sentido prático visto até ao intervalo, as jogadas que se veem são pouco rendilhadas e muito verticais, o que, traduzido, equivale à muita bola tida pelo FC Porto ser usada pela equipa de Sérgio Conceição com ainda mais vertigem pela área e baliza adversários. Fechando-se, muitas vezes, bastante atrás da linha do meio-campo, o Marítimo enclausura-se e isso bate na pressa prática dos visitantes a quererem atacá-lo e enquanto tentam escapar à roda da fortuna do relvado.

Querem chegar-lhes com poucos passes ou receções pelo meio, que se evitem imprevistos no relvado como as duas jogadas já descritas e se tentem outras como a que tem Taremi a lançar Otávio, o brasileiro a picar a bola sobre o guarda-redes, Luis Díaz a desviá-la junto ao poste, outra vez, contra um defesa do Marítimo. É infrutífero: o avançado iraniano chega à sobra (35’) e encosta o 1-0. Parecia o início de um precipício na Madeira.

Foi a única bola aninhada nas redes pelo FC Porto, apesar de muito ameaçar repeti-lo, sobretudo, pelas manigâncias do colombiano que tem à esquerda, ganhador de espaços, vantagens e desequilíbrios para ele ou outros em cada bola que recebe para encarar Cláudio Winck (ala direito) ou Jorge Sáenz (central direito). Luis Díaz aproveita atrasos de quem tenta encostar-se nele à queima para correr, cruzar e Paulo Victor parar o remate de Otávio (22’); dois minutos passam e faz de dois adversários uma chicane na área para bater a bola à pressa, para a rede lateral da baliza.

O Marítimo mantém-se encolhido e incapaz de aproveitar os três centrais, que se nota quererem jogar para ligarem passes pelo centro das coisas — como a jogada em que sofre o golo — e só o conseguem a segundos da ida aos balneários. Iván Rossi gira numa receção, rasga a bola para a corrida na largura de Vitor Costa e o ala passa rasteiro com mira no pé esquerdo de Bruno Xadas, que curva um bonito golo para o 1-1. A bola, a deslizar sem sobressaltos até ser rematada, pareceu imune às não sei quantas polaridades da relva.

GREGORIO CUNHA/Lusa

Com os minutos, a vida saltitona da bola acentuar-se-ia e isso surpreendeu ninguém, esteja são ou em mau estado essa é a sina de qualquer relvado, cujo desgaste com uso tende a piorar a qualidade de qualquer jogada que pouse nele e os ressaltos, desvios e ricochetes com que Otávio (47’) e Luis Díaz (52’) logo brindaram o arranque da segunda parte sugeriram o que vinha aí.

Um mundo onde a bola não faz uma viagem rasteira completa e o futebol, sôfrego, vai decaindo com ela para uma realidade com muitas faltas, ressaltos inesperados e pancadas que a deixam entregue à gravidade. O jogo na Madeira não fica entregue a um cada um por si, não chega a essa ponto, mas até quando Sérgio Conceição tira Pêpê e Corona do banco para coabitarem com Luis Díaz, a impressão parece essa, a de prescindir da mínima teia de passes em prol de tentar desmontar o Marítimo à lei do talento à cabeça.

Mas, até ao fim, é André Vidigal quem desvia para o poste (69’) uma atabalhoada bola que se encavalitava em si própria ainda nos pés de Cláudio Wick, que a cruzou para o extremo depois de uma má abordagem de Pepe a um passe longo. É a única vez que o Marítimo se acerca perigosamente da área contrária. O resto é preenchido com o uso do FC Porto do território e da bola que tem a mais, sem dinamismo ou engenho para se desfazer da muralha de corpos madeirenses, em duas linhas cerradas, que se formam sobre o desfigurado relvado.

A jogo terminaria inclinado, o declive cada vez mais acentuado para a baliza do Marítimo, já com os pedaços de talento nos dois jovens canhotos do FC Porto a se acrescentarem à aparente tendência de tentar desbravar o resultado pela força jeito individual em vez do jeito de um plano coletivo. Já nos descontos, Fábio Vieira curvaria um livre direto que passou perto da barra; e Francisco Conceição, deixado no um para um, picaria a bola que um ressalto fez embater no poste da baliza.

O jogo não foi bom para quem o jogou, nem para quem o viu, condições que nem sempre comungam sem que isso signifique prejuízo de uns em detrimento de outros. O jogo foi mau, como Sérgio Conceição subliminarmente suspeitara quando disse que duvidava de “grandes jogos em maus relvados”. Nos Barreiros, as bolas deixaram de morrer na relva e todas espernearam com vida, o que explica muita coisa, mas não desculpa tudo.