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FC Porto

Duelos de fundo de court

O Atlético Madrid - FC Porto pareceu, a tempos, uma daquelas batalhas já passadas entre Novak Djokovic e Andy Murray, duelos intensos e competitivos, como duas paredes sólidas a anularem-se, sem lugar para macramé. Houve muita guerra, pouca baliza, num jogo que sempre teve cara de nulo e acabou sem golos, apesar da equipa portuguesa talvez ter queixas da arbitragem

Lídia Paralta Gomes

Soccrates Images

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Antes das lesões na anca afastarem definitivamente o britânico das grandes decisões, havia um duelo no ténis particularmente duro: as partidas entre Andy Murray e Novak Djokovic. Eram geralmente lutas titânicas de pancadas secas de fundo de court, de dois jogadores que pareciam conseguir chegar a todas as bolas, encontros equilibrados, ultra-competitivos. Era como ver dois pugilistas em sequências infinitas de rounds sem nenhum deles a vergar.

Lembrei-me algumas vezes destes duelos empedernidos entre Murray e Djokovic - que nasceram com uma semana de diferença, curiosamente - durante o Atlético Madrid-FC Porto, uma verdadeira guerra de trincheiras entre duas equipas que muitas gente acredita serem parecidas, na atitude, na intensidade, formações mais coesas do que fantasistas. E se esta análise parece um pouquinho simplista, o certo é que sim, durante os 90 minutos de jogo no Wanda Metropolitano pareceram equipas semelhantes, que tantas vezes se anularam em duelos a meio-campo, com muito pouca baliza à vista.

A 1.ª parte foi nisso um exagerado exemplo, ainda assim com um FC Porto com mais bola e muito bem a trancar qualquer ataque mais empertigado do Atlético, com a boa colocação de Grujic e Uribe a meio-campo. Luis Suarez andou quase sempre sozinho e João Félix quase sempre perdido e há mérito do FC Porto nisso. Mas no ataque, muito pouco. Taremi esteve perto aos 7’ após um corte atabalhoado de Llorente e tirando esse lance quase fortuito a bola não visitou o último terço de parte a parte, não teve um qualquer vislumbre de baliza, não cheirou nem pouco mais ou menos o perigo.

Nunca um zero-a-zero pareceu tão zero-a-zero.

DeFodi Images

Após o intervalo houve uma ligeira viragem nos acontecimentos, principalmente depois de Simeone lançar Griezmann e Correa, ambos a trazerem mais velocidade ao ataque dos campeões espanhóis. Mas quem até esteve perto de marcar foi o FC Porto, aos 50’, com Otávio a rematar a bola ao ferro quando, aparentemente, tentava cruzar para Díaz, naquilo que podemos chamar de oportunidade involuntária no código penal dos golos. Porque de forma voluntária estava mais difícil, para um lado e para o outro. O mais próximo que o Atlético esteve do golo foi aos 68’, num remate cruzado de Correa à qual Diogo Costa respondeu com uma defesa eficaz, como são as melhores defesas.

O jogo foi ficando paulatinamente mais partido nos últimos 15 minutos, o que não lhe trouxe um acréscimo de qualidade por aí além, mas pelo menos deu-lhe alguma imprevisibilidade, o que já é qualquer coisa num jogo tão divido. Na parte final, o FC Porto parece, no entanto, ter algumas razões de queixa de um árbitro romeno sempre demasiado zeloso e que foi distribuindo amarelos em barda. A cerca de 10 minutos do final, Ovidiu Hategan anulou, por indicação do VAR, um golo aparentemente limpo de Taremi e já nos descontos expulsou Mbemba por considerar que o central travou Griezmann quando este seguia isolado para a baliza - o que é, no mínimo, discutível.

De resto, o nulo aceita-se porque o jogo sempre teve cara de nulo, porque sempre se olhou mais para o lado do que para a frente, um jogo faltoso e em que a bola raramente andou perto da baliza.

Europa Press Sports

Voltando ao ténis, as direitas maciças a viajar de um lado ao outro do court a muitos quilómetros por hora são interessantes enquanto apreciação do esforço humano, mas nós gostamos mesmo é de ver um drive volley, um drop shot, um smash, variações de jogo, de uma subida à rede da qual não estávamos à espera. Por isso é que Roger Federer é mais amado que Djokovic e por isso é que um jogo de futebol de ataque e com golos vai sempre levantar mais corpos nas bancadas do que um duelo intenso, mas seco de emoção.

Posto isto, o resultado não é totalmente desagradável para o FC Porto, frente a um dos favoritos num Grupo B complicadíssimo em que todos os pontos são importantes.