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FC Porto

O fantasma de goleadas passadas voltou para roubar e recuperar a bola rápido

Pela terceira vez em três anos, o FC Porto foi goleado (1-5) em casa, na Liga dos Campeões, pela máquina de pressão e contrapressão do Liverpool, que nunca deixou o adversário respirar em qualquer jogada. Como em 2018 e 2019, a equipa de Sérgio Conceição muito sofreu com perdas de bola acontecidas meros segundos após a ter recuperado

Diogo Pombo

Andrew Powell/Getty

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Ainda há horas lia o Roger Federer, nos seus redondos 40, a desabafar como nos 20 é que era e uma arrelia qualquer nas costas se curava com horas de sono bem dormidas, há idades em que a própria idade é um medicamento, mas, entrando pelos 30, as maleitas recebem o milagre da multiplicação e as dores ganham morosidade, prolongam-se no tempo, requerem outras pinças de cuidado a quem pretenda desafiar a idade como Pepe o faz, nas condições em que o faz.

Mais perto dos 39 anos do que dos 38, o português ainda é veloz a papar metros em corrida, rápido a mudar de direção e instantâneo como um defesa central pode ser a reagir a bolas postas no espaço que houver nas suas costas, daí Sérgio Conceição confidencia que uma coisa é a equipa a defender com Pepe, outra é escolher como e onde se monta a linha defensiva sem ele. Não se trata de depender em alguém tão no pôr-do-sol da carreira, é uma questão de um futebolista no seu crepúsculo ainda ser o jogador que é, logo, tão influente.

Quando os escolhidos de cada equipa aqueciam os músculos e se preparavam em campo para este FC Porto-Liverpool, ver o central de colete vestido, de um lado um lado para o outro, sugeria que a equipa poderia montar-se de uma certa forma. Mas, algures, a musculatura delgada de Pepe deu de si e quem começou o jogo foi Fábio Cardoso perto de Marcano. Não por ele, mas por quem ele substituía, o FC Porto sem bola fechou-se perto da sua área, com as linhas bem juntas num bloco curto, sem tentar pressionar as ações dos defesas ingleses.

Sem o seu quase quarentão, deixou os primeiros passes do Liverpool saírem sem incómodos, preocupou-se em apertar os espaços aos médios contrários e tentar impedir que entrassem bolas nos tipos que se desmarcavam entre os centrais e Corona, ou Zaidu. Tipos que eram Mané, Salah e Jota, a acelerarem qualquer jogada que lhes chegasse nas redondezas da área e a aconselharem, mais ainda, que a última linha do FC Porto e por arrasto toda a equipa, acentuassem um comportamento — ir baixando em direção à baliza para encurtar o espaço para onde aquele trio do Liverpool se martela sem piedade.

Após uma bola parada, foi para aí que Curtis Jones apontou um cruzamento, para essa meia-terra que não é de ninguém, mas de quem lá aparecer, no caso foi Diogo Costa a desviá-lo na direção do mal posicionado Zaidu, tão virado para a própria baliza e com os pés tão cravados na relva que não reagiu de forma a evitar que o seu toque na bola fosse um bombom para Salah recolher e, simplesmente, passar para o alvo (18’).

O segundo golo do Liverpool fabricou-se de outro cruzamento, agora da direita e de mais longe, quando Milner curvou a bola para a relva entre os defesas do FC Porto e a visão o guarda-redes, que arriscou chegar-lhe. Falhou a abordagem e Mané, perto do poste, também teve (45’) o seu fácil desvio da noite. Entre uma e a outra mexida no resultado, o jogo tornou-se crescentemente dos visitantes, controladores da bola e usurpadores mecânicos de qualquer intenção que o FC Porto tivesse com ela quando a recuperava; como um tabuleiro de xadrez, os jogadores do Liverpool estão treinados para estarem nos sítios certos quando têm a bola para, como um todo, serem peças contrapressionantes, prontas a chatearem logo de perto um adversário assim que é momento de recuperarem essa bola.

Os de Sérgio Conceição tentavam evadir-se desta mecanização, que vem de há muito, com passes diretos para a receção de um dos avançados ou com as corridas com bola de Luis Díaz, o jogador mais em forma da equipa. O colombiano até foi o primeiro a rematar no jogo (7’), um quê atabalhoadamente e com um ressalto pelo meio. Também seria ele a quase fazer um passe para Alisson Becker se atirar à relva (38’), inofensivo como o FC Porto foi até ao intervalo, incapaz de responder a um domínio que também se mostrou com remates de Milner e Jota.

Os 10 minutos de arranque na segunda parte evidenciaram a tendência. Nem com menos um irrelevante avançado (Toni Martínez) para ter mais um médio de bola no pé ao centro (Grujic), o FC Porto se livrou da síndrome da qual padecia neste jogo, cada vez com mais sintomas visíveis: entre o momento em que recuperava a posse até ao segundo em que a perdia, o tempo nem tinha tempo para dar conta desta mudança de propriedade. A máquina de reação do Liverpool encurralava qualquer jogador.

David Ramos/Getty

Não há altura pior para perder a bola do que um, dois segundos após a equipa a recuperar. E, reavendo-a quase sempre dentro da metade do campo portista, os ingleses projetavam num ápice os laterais pelo costado dos extremos e castigavam com rapidez o FC Porto. O canhoto Robertson e o esguio Jota, por duas vezes, tiveram remates que sugeriram a iminência do que aconteceria pouco depois. Salah voltou a marcar (60’), fechando um contra-ataque rapidíssimo, embora menos rápido do que o que demorou até Sérgio Oliveira ser engolido por um cerco a meio-campo.

Este terceiro golpe dado quase coincidiu com a entrada de Vitinha e ele, mesclado com uma equipa agora mais de centrocampistas e com uma certa desaceleração de ritmo dos ingleses, fez com que o FC Porto lograsse uns 10 minutos de maior esperança média de vida injeta nas jogadas. Havia outra capacidade para aguentar a posse de bola, forçar espaços e avançar no campo. Esse médio que entrou rematou para Alisson defender (63’) no melhor desenho de passes da equipa no jogo e outro médio que entrara há muito — ainda na primeira parte, Otávio lesionou-se — ganharia uma segunda bola à entrada da área, soube aguentá-la e depois cruzá-la para Taremi amainar o desnível (75’). O 1-3 fabricado por Fábio Vieira era um pedaço magricela de esperança.

Magra porque, dois minutos passados, Diogo Costa zarpou a correr da baliza na direção de uma bola longa que estava a ser discutida por Marcano e Firmino, ainda longe da área. O ressalto sobrou para o brasileiro, que prontamente aplicou um remate rasteiro contra a imprudência do guarda-redes, que colou si próprio uma imagem do seu desespero a perseguir a bola e a atirar-se à relva para a tentar afastar em cima da linha.

O mesmo avançado, na ressaca de um canto, aproveitaria ressaltos e carambolas para duplicar-se em golos (81’) e espetar mais ainda o machado castigador de um Liverpool que é, de caras, melhor equipa e possui melhores jogadores por muito mais dinheiro ter para os ir buscar, mas, sobretudo, soube aplicar o que o torna uma das melhores equipa que há a fechar espaços ao adversário e a pressionar para conseguir o que pretende.

Os cinco golos que marcou no Estádio do Dragão em 2018 (oitavos-de-final), os quatro feitos em 2019 (quartos-de-final) e os cinco refeitos neste regresso foram outra visita indesejada de um fantasma particular do FC Porto na Liga dos Campeões, que voltou para chocalhar a equipa com um pesadelo repetido: o que rouba rápido qualquer bola alheia e a recupera em ainda menos tempo quando a perde.