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Sérgio Conceição e o FC Porto. O murro na mesa que fez lembrar outro murro na mesa que afinal não foi bem um murro na mesa

A besta negra que navega nas águas da Europa voltou a assombrar o Dragão, como fizera noutras duas ocasiões recentemente (0-5 em 2018, 1-4 em 2019), e levou a uma reação impactante de Sérgio Conceição, que falou grosso como falara em janeiro de 2020, depois de perder a final da Taça da Liga, quando anunciou que colocou o lugar à disposição

Hugo Tavares da Silva

Octavio Passos/Getty

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É um daqueles que apreciamos assentir com os olhos e com a cabeça que faz lembrar o homem que foi em tempos idos, lá dentro, a escolher rotas para a bola e, sem negociar o esforço, a correr atrás dela sem pejo. O treinador Sérgio Conceição faz match com o jogador Sérgio Conceição, já sabíamos e continuamos a saber, e essa é uma fogueira que continua a arder.

Foram alguns anos com a camisola do FC Porto colada à pele, não assim tantos como às vezes se tende a tomar por certo, mas ele sabe o que isso significa ou, pelo menos, o que deveria significar. Na apresentação como novo treinador do clube, em junho de 2017, explicou ao que vinha.

“Chegar aqui agora é o concretizar de um sonho, de uma etapa. São estes momentos que me fazem feliz, que me fazem superar, com a minha ambição e qualidade no trabalho, que sei que tenho. Muitas vezes podem julgar que foram buscar um ex-atleta de raça, de grande ambição. É verdade, são características associadas à minha qualidade de trabalho. É com esse espírito que vimos aqui dar o melhor, sermos exigentes, rigorosos, disciplinados, para, no fim, dar à nossa massa adepta a alegria dos títulos. Foi com enorme amor ao clube que vim para aqui. Estou convencido de que vou conseguir estar feliz em maio”, disse, então, ex-treinador do Nantes.

E foi feliz.

A travessia do deserto com a areia azul e o céu branco, entre 2013 e 2017, reformou-se com Conceição, que treinou com condições pouco ideais. Os cofres do clube estavam em agonia, por isso inventou um plantel com alguns futebolistas que estavam emprestados, regando diariamente as sementes da sua mentalidade junto aos ossos da equipa, tornou-a super competitiva. E começou a sua lenda.

Se há uma parte dos adeptos do FC Porto e comentadores que não morrem de amores pelo estilo de jogo, também é verdade que o seu estatuto, legitimado pelos troféus e pela competitividade que parece ou parecia eterna e que aparentemente agrada à maioria dos adeptos portistas, lhe garantem a possibilidade de viver à sua maneira por ali, respaldado pelo presidente Pinto da Costa. Por isso mesmo, quando as coisas correm mal ou estão pouco condizentes com a sua natureza, Sérgio dá um murro na mesa.

É onde estamos.

O desaire caseiro contra o Liverpool de Klopp não é inédito. Em 2018, a sua equipa foi goleada por 0-5, no Dragão, e o treinador deixou o alerta: “Temos de honrar este símbolo e assumir a responsabilidade deste resultado”. Em abril de 2019, nos ‘quartos’ da Champions, o FCP voltou a ser goleado em casa pela besta negra: 1-4 para o Liverpool. Mas aí estava satisfeito, o técnico: “Foi um resultado pesado para aquilo que fizemos. É de louvar o que os jogadores fizeram. Tenho uma equipa com grande carácter e personalidade. A exibição foi uma demonstração de dignidade, tal como aconteceu nas bancadas. O público sabe que pode esperar sempre o máximo, podemos não conseguir ganhar, mas o máximo damos sempre”.

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Desta vez, foi diferente. Depois de assumir a derrota da noite de terça-feira e de lembrar as contrariedades (lesões de Pepe e Otávio), Conceição começou a dar recados, como os croupiers despacham cartas e fichas nos casinos. “O primeiro remate do Liverpool dá golo, um golo mais de peladinha, aliás, os cinco golos são de treino, mas treino de descontração e não de uma equipa que está a jogar a Liga dos Campeões. Não podemos fazer nove faltas, podemos se tivermos 80% de posse de bola”, assinalou.

E continuou: “Foi muito mau, muito mau. Daí assumir a responsabilidade de não ter passado a mensagem correta. Se fazemos um jogo e uma figura destas na Liga dos Campeões, teremos muito que pensar se, realmente, os jogadores estão dispostos a levar com o treinador que têm".

Mais tarde, em declarações à "TVI", Sérgio Conceição beliscou ainda mais o orgulho dos futebolistas, mencionando que a rapaziada da formação faria melhor. “Mesmo com uma equipa de juniores, que jogaram hoje [terça-feira] e empataram com o Liverpool, com certeza que fazia um bocadinho mais do que fizemos hoje. Eu não passei bem a mensagem, fui eu que errei na equipa inicial com certeza. Foi muito mau, muito mau. Tenho de perceber com o presidente se, com esta figura que fizemos, os jogadores ouvem o treinador, se passa ou não passa a mensagem, porque desta forma vai ser difícil, e falo das competições internas. Com certeza que não passei a mensagem da melhor forma e aconteceu este desastre. Para mim, é vergonhoso, vergonhoso”, desabafou, desgastado mas sereno, ao contrário de outros momentos em que a felicidade dormia num lugar distante.

A quase demissão em janeiro de 2020

Este furacão que saiu da boca de Sérgio Conceição em forma de palavras e desaforos fez as janelas da lembrança baterem com força. Em janeiro de 2020, após a derrota na final da Taça da Liga contra o Sp. Braga, o treinador atacou os homens da cartola, quem está acima, os que mandam e disponibilizam ou não o dinheiro e as condições.

“É difícil trabalhar em determinadas condições. No primeiro ano, sem reforços e sem dinheiro. No segundo, falta de verdade desportiva. E neste ano sem união dentro do clube. Fica difícil... Neste momento, o meu lugar está à disposição do presidente”, anunciou, surpreendendo toda a gente, deixando depois mais um sinal de desgosto. “Dou os parabéns ao Sp. Braga e nós temos de olhar para dentro. Estou a dizer que é preciso responsabilidade coletiva, a começar por mim. Não estou a falar do grupo de trabalho, mas de toda a gente. Porque é difícil”.

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Mais tarde, depois de ganhar o segundo título nacional em três anos, no verão de 2020, olhou pelo retrovisor e explicou essas palavras: “Não dei um murro na mesa, simplesmente defendi o meu estado de espírito. Nos momentos difíceis, é preciso as pessoas falarem — e nós fazemos isso semanalmente —, perceberem o que está bem e o que está mal. Foi isso que aconteceu. Houve momentos na época que foram muito importantes, não só esse. Comigo e com o máximo líder do clube, o presidente, o diálogo sempre foi excelente. Resolvemos os problemas que tínhamos para resolver”.

A ressaca

Falta agora saber como será a reação dos futebolistas do FC Porto e a maneira como vão digerir aquela barrigada de críticas. Em fevereiro de 2018, depois da tal derrota por 0-5 contra o Liverpool, os rapazes de Conceição castigaram o Rio Ave com o mesmo resultado, na jornada seguinte. Depois, bateram o Estoril Praia (3-1) e voltaram a golear com cinco golos, desta vez o Portimonense. O FCP seria campeão nacional nessa época.

Na temporada seguinte, depois do 1-4 no Dragão contra os reds de Jürgen Klopp (que merece elogios fartos por parte do treinador português), só empatou mais um jogo na liga, que ainda assim só valeu o segundo lugar no campeonato, e perdeu a final da Taça de Portugal, nos penáltis, contra o Sporting de Marcel Keizer.

Ou seja, os desfechos são impossíveis de prever, ainda mais numa fase tão precoce da época. O tempo, já sabemos, desgasta qualquer relação entre pessoas e derrete os cristais mais puros da mensagem, talvez por isso alguns treinadores mencionem a necessidade de refrescar o plantel e as vontades. E isso normalmente acontece com aqueles que têm mais força do que os jogadores, o que parece ser o caso e que nem sempre o foi por ali, com outros treinadores.

Atualmente, e não olvidando o valioso empate em Madrid contra o Atlético (que lhe dá mais vida no torneio), o FC Porto tem cinco vitórias e dois empates no campeonato, tal como o Sporting, ambos a quatro pontos do Benfica. Seguem-se agora, para ajudar a sentir o pulso daquele balneário, jogos com Paços Ferreira, AC Milan e Tondela.

O futuro ainda poderá vir a ser muito risonho, é certo, seja com quem for no relvado, mas fica a pulular debaixo do tapete da memória aquela referência aos juniores.

Quereria Sérgio Conceição dizer que os jovens sentem o clube de outra forma? Que têm qualidade para fazer tanto ou melhor que os graúdos? Será que vê neles energia e descaro suficiente para olharem nos olhos os grandes da Europa? Se sim, se há uma espécie de improvável conversão ao futebolista jovem e menino da formação, há uma grande notícia para Sérgio Conceição. Ou, na verdade, cinco. E estavam todas no banco na noite em que o Liverpool voltou a assombrar o Dragão.