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FC Porto

Wendell Nascimento Borges, muito prazer, estou aqui

O FC Porto, que chegava de uma derrota pesada na Liga dos Campeões, até começou a perder, mas Luis Díaz e Wendell tratariam de juntar as linhas que cosem o orgulho. Vitinha e Francisco Conceição foram titulares

Hugo Tavares da Silva

MIGUEL RIOPA

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O futebol tem sempre aquelas frases feitas, caquéticas e sábias ao mesmo tempo. Parece que caem sempre bem, como um refresco qualquer numa tarde quente. Diz-se, às vezes, sabe-se lá onde e por quem, que quando uma equipa está mal até os pássaros... se descuidam, digamos assim, em cima da cabeça daquela gente (ou seja, azar, nossa senhora tudo nos acontece). O FCP, que ainda está a despertar do pesadelo que foi o duelo déjàvuiano com o Liverpool, entrou bem, queria mostrar ao que ia e o que tinha: um orgulho por sarar e alegrar. Mas a bola não entrava, as pernas levavam pancada, os minutos passavam, as bolas idem, perto da baliza do Paços de Ferreira. E os visitantes chegaram ao golo, baixaram as dúvidas ao relvado, e as bolas voltaram a passar perto dos postes dos outros. Enfim, temeu-se um dia daqueles em que a lógica ficava no bolso de alguém. Mas não seria assim: Luis Díaz e Wendell, um lateral que dificilmente voltará a saltar da equipa, tocaram a música sul-americana e o marcador bailou até dar a cambalhota.

Há sempre curiosidade e um certo fascínio para ver como os homens se levantam depois de uma qualquer tormenta lhes dar um golpe na garganta. Sérgio Conceição lançou dois meninos, Francisco Conceição e Vitinha, que tiveram alguns bons momentos, salpicados de irreverência e compromisso. O extremo ia trazendo para o relvado o veneno que lhe rega o drible e, sendo um jovem cheio de urgências, chegava com promessas e vertigens sempre que pegava na bola. Evanilson fez companhia a Taremi na frente, que surgiu muito móvel, às vezes dava sensação de que estava demasiado móvel, à espera da bola junto à linha, mas o homem faz de tudo e faz muita coisa bem, seja feita justiça. Uribe, o primeiro a chutar de longe, jogou ao lado de Vitinha, uma dupla que tentava contrariar as ideias de Luiz Carlos e Steven Eustáquio.

Cedo se percebeu que Wendell seria uma das chaves do jogo, por toda a utilidade e mais alguma, mas também pelo prazer que retirariam aqueles que o podem ver. Sofreu muitas faltas no arranque da partida, tentou levar a equipa para a frente com arrancadas deliciosas, tão brasileiras, tão malandras, tão dignas de ferir qualquer rival. Tem até apelido de poeta mítico, imagem.

Depois de Uribe, Luis Díaz esteve ainda mais perto do golo, após toque de calcanhar de Taremi, já dentro da área. O defesa Maracás começou a mostrar ali como, quando uma equipa não anda nos seus dias, tudo pode correr mal. Foram cinco minutos fortes do FCP, que exibia uma mobilidade assinalável, com Wendell até a surgir por dentro em alguns momentos. O Paços, que ia defendendo num 4-4-2 conservador, mantinha a toada faltosa.

Mas o futebol nem sempre quer saber de lógicas, de cantigas, de merecimentos ou justiças. O golo do Paços de Ferreira de Jorge Simão chegou antes do minuto 20, depois de um contra-ataque que envolveu Denilson Jr. (bons pormenores), Lucas e, finalmente, Nuno Santos. Os dois primeiros inventaram o lance em que se adivinhava um final feliz, a defesa do FCP foi apanhada descompensada. Apesar de tudo, a bola seria cortada e sobrou para o pé afinado de Nuno Santos, que com dois jogadores a tentar tapar a baliza órfã do guarda-redes Diogo Costa, colocou como se faz nos treinos e marcou. O sorriso denunciava a felicidade juvenil.

DeFodi Images

Antes, Vitinha obrigou André Ferreira a uma bela defesa, um filme que seria repetido ao longo da partida, com outros intervenientes do FCP. O médio do Porto desviou de Luiz Carlos e tentou colocar ali, juntinho ao poste, mas não chegou. Com o golo dos visitantes, chegaram algumas dúvidas, algumas precipitações, mas a fome mantinha-se.

Havia e haveria reação.

Conceição ficou muito perto do golo pouco depois, já dentro da área. A seguir, um livre de Vitinha voltou a ameaçar, depois foi Wendell, mas não havia maneira. Em resgate do orgulho portista chegou Luis Días, quem mais? O colômbiano começou a jogada, tocou na profundidade para Taremi, mas a bola caprichosa já sabia o que queria, sobraria para Díaz, que ele costuma ter respostas para muitas perguntas, como aquele livrinho das perguntas. Golo, de trivela, já bem dentro da área, o sexto no campeonato para o avançado.

Na segunda parte, os rapazes da casa entraram mais fortes, ou então o Paços entrou mais morno. Não tardaria muito, na segunda parte, para se testemunhar a reviravolta no jogo. Foi depois de dois cantos de Vitinha: no primeiro, Evanilson cabeceou à trave. A seguir, depois do guarda-redes visitante desviar, Wendell fez um golaço, batendo com a ginga de quem é bom de bola, com a parte exterior do pé, num vólei que é sempre irresistível, para quem faz e para quem vê.

Uma bola ao poste, depois de um canto do Paços, foi a metáfora perfeita para o que viria: turbulência e incerteza. Este FCP, perante um visitante que procurou ser mais atrevido e menos submisso em desvantagem, não foi uma equipa confiante, não está bem, teve algumas dúvidas e crises de identidade. Ainda está a lamber as feridas, ainda está ferido.

Mas ficam alguns bons sinais do lado dos que usam um dragão perto do coração, como a presença competente e séria de Vitinha (a técnica deste miúdo é um tesouro), o atrevimento de Conceição, o descanso que é ter na frente um Taremi (expulso com segundo amarelo por simulação na área), a qualidade de Luis Díaz e, claro, a certeza de que se encontrou um lateral esquerdo que encaixa nos padrões do FC Porto.

Wendel - que era catalogado como o rei da galhofa e o cara que colocava alcunhas nos outros, contou um artigo do "Globo Esporte" de 2014, aquando de um estágio da seleção sub-21 do Brasil - é jeitoso com a bola, dá andamento ao corredor, soluções, sabe ou quer jogar por dentro, enfim, foi decisivo neste final de tarde. E, com justiça, saiu debaixo de uma chuva de aplausos, quando foi substituído a 10 minutos do fim, esgotado.