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Para quê resistir quando se pode insistir no que se quer?

Este AC Milan não mereceria refreio na abordagem a hora e meia de partilha de relvado, mas os jogadores do FC Porto e o treinador insistiram na aplicação de um plano definido para condicionar e, assim, desmontar o adversário italiano numa zona do campo onde pior lhe seria. O FC Porto fez 19 remates, 12 na baliza, e ganhou (1-0) por manter a insistência numa estratégia, marrando até a retribuição surgir e conseguir a primeira vitória nesta Liga dos Campeões

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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Tempos houve em que ver aquelas camisolas listadas a vermelho e preto nas redondezas causava tremeliques na espinha, jogar futebol em relva partilhada com o AC Milan era avistar um campeão do mundo ali à frente, um Bola de Ouro acolá na área, uns quantos ganhadores de Ligas dos Campeões a sombrearem qualquer veleidade e, tudo junto, com um treinador da nata que, a não ser nesse clube, só poderia estar em algum que chegado à cama e à almofada contaria canecos orelhudos para adormecer, não carneiros.

Este Milan não é o Milan do início deste século e do final do anterior, repeti-lo é encharcar o molhado. A história pode ter pó, mofo ou traças, nunca será ela a jogar, embora possa ser consequência dos tempos de sustos da equipa italiana já lá irem que Sérgio Conceição tenha vistoriado o adversário e dado conta como em vez de Baresis, Costacurtas, Maldinis ou Nestas, a equipa italiana tenha Calabria, Kjaer, Tomori e Ballo-Touré. Bons defesas, mas apenas isso, bons defesas com características assim-assim quando a bola se mete ao barulho.

Que é como quem diz, ter aptidão para dos pés saírem passes certeiros e tensos, resistência à pressão de um adversário, agilidade para rodar sobre si próprio ou compostura em situações de aperto, tudo coisas que a esses quatro defesas sai meio a custo. E o FC Porto tinha um plano para as evidenciar: montando a primeira pressão em cima da área italiana, o bloco portista apertava qualquer receção desses quatro homens e, sobretudo, fazia por barrar-lhes as opções de passe. Era uma equipa a condicionar outra até lhe restar apenas a condição de ser uma fábrica de chutos para a frente.

O cerco constante às saídas de trás dos italianos deram uns 45 minutos asfixiantes ao seu autor. O FC Porto acumulou roubos bem perto da área do Milan ou, caso saísse o passe longo esperançado em Giroud, para que o avançado suportasse a incapacidade da equipa, sobretudo Sérgio Oliveira e Uribe eram os reclamadores de segundas bolas com que a equipa, rápido e com poucos toques a serem necessários, deixasse alguém a jeito de rematar à baliza de Tatarusanu, o romeno das luvas cuja capacidade com os pés contribuiu para esta ruína específica dos visitantes no Dragão.

Depois de Luis Díaz usar a fúria para rematar a bola ao poste, logo no arranque (5’), deram-se duas tabelas entre Otávio e Taremi a que o iraniano não acrescentou remates (18’ e 28’) que acertassem no alvo. O mesmo avançado, sozinho a projetar-se no ar dentro da área, cabecearia a bola cruzada por Sérgio Oliveira num livre, sem acerto na baliza. Também o médio luso-brasileiro bateria numa bola a saltitar-lhe à frente, vinda de um passe de Wendel que culminou outra reação vertiginosa a uma ladroagem rápido do FC Porto a uma posse do Milan, mas tão pouco acertou.

O intervalo não fez descansar o ímpeto estratega dos portistas, sem esmorecerem as muralhas que montavam à posse de bola alheia. O Milan continuou com as mesmas dificuldades e Taremi, aproveitando um roubo feito por ele próprio, correu em direção à baliza até a tentar chatear uma quarta vez, esta de pé esquerdo (48’), para de novo não lhe acertar. Pouco depois, e de uma bola vinda de um lançamento lateral, igualmente Otávio voltou a tentar (52’), mas o central Tomori deslizou na relva para lhe bloquear a ideia.

NurPhoto

Uns minutos volvidos da hora de partida, quando nem tirar Bennacer e Tonali da mesma linha peditória de passes resultada por aí além — os dois médios, os melhores cuidadores da bola do Milan nos dois terços de campo que era preciso percorrer até ela estar em Rafael Leão, a morada da criatividade e técnica de uma equipa que não produzia para o português estar no jogo —, o treinador Stefano Piolo deu-lhes um central canhoto (Romagnoli) e uma referência gigante no literal e no figurativo (Ibrahimovic).

Ter um dos médios a dar-se como opção nas costas de alguém, um defesa a naturalmente receber a bola com o corpo aberto para o campo e alguém como Zlatan a fugir a Pepe para ser uma parede engenhosa (que ainda é, mesmo com 40 anos), fez o Milan melhorar, se um dos sinónimos da palavra for continuar a somar erros a sair de trás, mas não tantos. Os pulmões e as reações dos jogadores do FC Porto também ia minguando.

Mas, já com eles em campo, João Mário tabelou com Otávio e abrandou o ímpeto com o descaramento que se via a montes nas ruas antes de internets, likes sociais e consolas; o lateral parou o sprint, voltou a encarar o adversário, de novo o quebrou com um drible e a disputa do seu cruzamento por Sérgio Oliveira e Kjaer projetou a bola para o ar, bem alta. Quando caiu, acertou no caído Taremi, que estava na relva após chocar com Bennacer e sem querer cravou a bola ao chão. Nas imediações e embalado estava Luis Díaz, para rematar (65’) rasteira a bola que a confusão amansou.

Era o 18.º remate do FC Porto no jogo a dar-lhe o 1-0 que perdurou no tempo, tal e qual o jogo subsistiu na sua génese. Os italianos sofriam numa área e mal chegavam à outra, terminaram a bombear bolas longas para um Zlatan com os pés mais sedosos que talvez já existiram num avançado tão volumoso e a embrulharem a sua terceira derrota nesta Liga dos Campeões, demonstrando também no Dragão como não perfazem um Milan como outrora, nem seria justo pedir-lhes que se equiparassem.

As oportunidades de golo, até as jogadas com laivos de perigarem as balizas, findaram no pontapé de Luis Díaz. Acabando ali, o jogo continuaria com algum controlo na calma de Vitinha, mas com os repelões que são genéticos na equipa de Sérgio Conceição que, sobretudo na pessoa de Taremi, leva com a primeira vitória na Champions uma magricela eficácia para tanta vez que teve para marcar — foram 19 remates e uma dúzia na baliza.

Este Milan não mereceria refreio na abordagem a hora e meia de partilha de relvado, mas os jogadores do FC Porto e o treinador insistiram na aplicação de um plano definido para condicionar e, assim, desmontar o adversário italiano numa zona do campo onde pior lhe seria. E mantiveram a insistência nessa estratégia, marrando nos remates até a retribuição surgir, em vez de esperar ou aguardar ou especular com a sua sina no jogo. Isso não seria mais do que resistir à evidência de que a felicidade de um resultado estará mais vezes do lado de quem mais procurar ser feliz num jogo de futebol.