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FC Porto

Ao tom dele, de Taremi

Em Tondela, o FC Porto até começou a perder, mas uma expulsão ainda na 1.ª parte para a equipa da casa desequilibrou os pratos. Taremi farejou os erros, marcou um hat-trick e a equipa de Sérgio Conceição venceu por 3-1

Lídia Paralta Gomes

PAULO NOVAIS/EPA

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Lá nas Beiras, no mais interior onde o nosso futebol litoral chega, mora uma das equipas mais competentes a atacar na I Liga e os números dizem isso mesmo: à entrada da 9.ª jornada, só mesmo os três grandes marcavam mais golos que o Tondela.

Porque sabe trocar a bola, jogar em transição, tem bons marcadores de bolas paradas e um Jhon Murillo que é desde há muito um dos mais fiáveis jogadores do radar não-grande neste nosso futebol que, além de ser demasiado litoral, também tende a olhar pouco para os trabalhos de qualidade que se vão fazendo para lá dos estádios grandes dos grandes centros.

Pako Ayestaran, com menos que os outros, vai fazendo coisas boas lá ao largo do IP3, uma das estradas mais perigosas onde tenho memória de conduzir, mas onde se espera um campeonato tranquilo, com mais retas plácidas que curvas e contra-curvas.

E por isso não terá sido assim tão surpreendente a entrada afoita do Tondela no jogo com o FC Porto. Afinal estava a jogar em casa, afinal sabe atacar por isso mais vale a pena tentar ficar com a bola e levá-la até bom destino, parece que é assim uma das melhores formas de defender.

A coragem teve recompensa e logo aos 4’ já a equipa da casa estava em vantagem, apanhando de surpresa um FC Porto que ainda a meio da semana tinha andado pela Champions a ganhar ao AC Milan. O livre lateral foi bem metido por Salvador Agra e melhor ainda foi metida à bola a cabeça de Neto Borges, rapaz que tem mais nome de família que produz bons Late Bottled Vintages, Tawnys ou Rubys lá nas margens do Douro do que exatamente de jogador da bola, mas que é um dos homens de qualidade que o Tondela tem no plantel.

PAULO NOVAIS/LUSA

Vendo-se a perder, o FC Porto foi mais cedo do que estava à espera atrás do prejuízo, esperou pouco pela reação e aos 9’ já Taremi aparecia na área sozinho, com espaço para marcar, mas com uma má abordagem a um cruzamento de João Mário. Não haveria muitos mais erros do iraniano depois disto.

As oportunidades do FC Porto iam surgindo, com Vitinha e Otávio a garantirem qualidade no jogo interior e João Mário opções na hora de tentar por fora. E foi por aí mesmo, do lado direito, que apareceu o empate, aos 20’: Otávio e João Mário triangularam, o cruzamento foi para o primeiro poste, onde estava Evanilson, e o brasileiro deu para Taremi, que encostou para o golo.

O iraniano partia então para mais uma exibição decisiva. É dele o empate e é ele que obriga ao erro da defesa do Tondela que tudo muda para os beirões. Aos 28’, Eduardo Quaresma foi demasiado otimista a sair a jogar e quando se viu encurralado deu para trás, onde Taremi foi mais rápido que Undabarrena. O espanhol foi forçado a fazer falta e acabou expulso.

Com 10, boa parte da ideia atacante de Ayestaran ficava condicionada, mas mesmo assim o Tondela nunca caiu na tentação de se fechar lá atrás, numa guerra de trincheiras para segurar o ponto. Justiça seja feita a uma equipa que mesmo com um baque imprevisto, depois de um erro de julgamento individual, continuou firme, a tentar sempre o perigo em transições rápidas.

Mas o FC Porto também estava numa noite de inspiração na organização defensiva, na ocupação dos espaços. Houve pouco por onde fuçar e aos 43’, mesmo antes do intervalo, mais uma insistência da equipa de Conceição no jogo interior valeu mais um livre frontal. Uribe rematou rasteiro, a bola esgueirou-se pela barreira e Trigueira não segurou. Taremi, esse, não só olhou como quais sorrateiro gato (persa) à espera da caça correu para aproveitar o deslize, ao contrário de toda a defesa do Tondela, que ficou parada. Bola lá dentro, reviravolta feita.

PAULO NOVAIS

A 2.ª parte começou logo com um remate perigoso de Diaz - esta noite um niquinho mais discreto que em jogos anteriores -, mas o FC Porto acabou por sentir algumas dificuldades no último terço, na hora do remate. Com isso o jogo ficava perigoso, o Tondela ainda tentou vários ataques rápidos e um erro de Pepe assustou. Mas logo as forças da equipa da casa pareceram esfumar-se, deixou de haver Tondela no ataque, mas ainda havia resistência na defesa. Luta armada definitivamente abalada aos 80’, quando Fábio Vieira encontrou um Taremi pronto a fugir entre-linhas, com o iraniano a completar o hat-trick com um toque de classe.

Foi mais uma vitória ao tom dele, o tom de Taremi, de quem tanto se falou esta semana pelo que às vezes faz sem bola, desafiando as leis da gravidade, mas que, no fim de contas, é tão melhor que esses momentos de aparente, digamos, desequilíbrio. Não há muitos como ele a finalizar, a jogar nos pequenos espaços e aos pequenos toques. Também há poucos que farejem assim os erros, as más decisões - e o jeito que dá ter um avançado assim inteligente à disposição.