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FC Porto

Os Díaz de Luis, a noite de Grujic e o orgulho de San Siro

O FC Porto empatou (1-1), fora, contra o AC Milan, um resultado que leva os "dragões" para a penúltima jornada do grupo em segundo lugar, à frente do Atlético (que perdeu em Liverpool). Contra um gigante europeu a tentar sair do adormecimento, os homens de Conceição entraram autoritários, embalados por uma figura provável e outra improvável, mas não traduziram no marcador a sua clara superioridade e, na segunda parte, a reação italiana trouxe a igualdade

Pedro Barata

Anadolu Agency/Getty

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Há poucas cidades tão habituadas ao hino da Champions como Milão. Casa de dois campeões da Europa, a capital da Lombardia sabe bem o que é estar na elite da bola continental. No entanto, no passado recente, aqueles acordes tornaram-se, para as gentes de San Siro, uma canção de nostalgia, de evocação de um passado glorioso que contrasta com o presente de desilusões.

Quando o último acorde da canção milionária se ouviu, com ambas as equipas alinhadas, as bancadas do estádio rugiram um grito de "Milan", substituindo o "The Champions" da letra do hino, como que afirmando a sua vontade de que aquela voltasse a ser uma espécie de música oficiosa do seu clube.

Na casa de um clube cheio de história, mas com um presente bem mais modesto - ainda que em linha ascendente e voltando a pisar o palco da Liga dos Campeões, algo que não fazia desde 2014, o FC Porto empatou (1-1) contra o AC Milan, conquistando um ponto que mantém expectativas abertas na luta pelos "oitavos", mas que pode saber a pouco perante a autoritária entrada da equipa lusa, que regressa a Portugal no 2.º lugar do grupo, com cinco pontos (menos sete que o Liverpool e mais um que o Atlético, que perdeu por 2-0 em Anfield Road nesta jornada).

Anadolu Agency/Getty

O começo do desafio deu corpo à ideia de que a equipa de Sérgio Conceição se sente no seu habitat neste tipo de encontros. Com uma preparação estratégica minuciosa, o FC Porto não demorou muito a criar problemas aos locais, sobretudo através de uma pressão bem coordenada e agressiva e da descoberta de caminhos para chegar com eficiência à área transalpina. Evanilson, ainda antes do primeiro minuto, assustou Tatarusanu, mas seria o suspeito do costume a abrir o marcador.

No passado recente, a cidade do Porto tornou-se uma espécie de delegação oficiosa do futebol colombiano na Europa. De Falcao a Jackson ou de Guarín a James, os "cafeteros" sentem-se cómodos no Norte de Portugal. E, ultimamente, tem sido Luis Díaz a transportar a bandeira do seu país pelos relvados europeus com a camisola azul e branca vestida.

Ao minuto 6, após nova recuperação em zona subida do FC Porto, desta feita de Grujic, Díaz isolou-se e, com classe, fez o 1-0, apontando o seu 9.º tento em 15 partidas na temporada. Pouco depois, o colombiano voltou a desequilibrar pela esquerda, com aquele estilo quase arrogante de driblar, com a confiança de quem sente ter o mundo nos pés, mas, na sequência do lance, Otávio atirou por cima.

Emilio Andreoli/Getty

Mas o grande arranque dos "dragões" não se alicerçou no seu homem habitualmente mais perigoso. No polo oposto do protagonismo regular de Díaz está Grujic. O sérvio, que até hoje só havia sido titular em duas ocasiões, começou por ser relegado para o banco de suplentes por Uribe. Mas o colombiano, logo no começo do aquecimento, deu sinais de não estar recuperado da lesão que o levou a sair do embate contra o Boavista e foi substituído por Grujic.

E Grujic brilhou, com uma hora inicial de partida na qual mandou nas operações, enchendo o miolo de uma relva que já viu tantas lendas do jogo espalharem classe. O sérvio não só recuperou a bola no 1-0, assistindo depois Díaz, como, nos minutos seguintes, ameaçou ele próprio o 2-0.

Grujic voou como Jardel sobre os centrais, como que querendo imitar o jeito do brasileiro que, em 1996, bisara na última visita azul e branca a casa do Milan. No entanto, por três vezes, Tatarusanu impediu que a equipa de Conceição - que foi titular nesse duelo de 1996 - aumentasse a vantagem.

Anadolu Agency/Getty

Através da pressão coordenada e de muito acerto com bola, o FC Porto condicionou um Milan com uma entrada desastrada, sem conseguir ligar jogo ou incomodar a última linha defensiva dos visitantes. A excepção, na etapa inicial, surgiu ao minuto 33, quando os "dragões" já levavam sete remates, cinco deles enquadrados com a baliza, e os "rossoneri" ainda não haviam testado Diogo Costa.

E, quando o fizeram, o jovem guardião deu uma resposta cabal. Após grande remate de Giroud, Costa voou para, com estilo, manter a vantagem lusa. O 1-0 ao intervalo parecia, ainda assim, ser pouca recompensa para a superioridade azul e branca.

Em 68 encontros de equipas portuguesas em Itália, só por oito vezes os lusos trouxeram triunfos para casa, mas a equipa de Conceição entrou na etapa complementar disposta a fazer um segundo tento que tornasse um cenário de triunfo mais real. No entanto, novamente após bola parada, um capítulo do jogo no qual o FC Porto criou inúmeros problemas ao Milan, Pepe serviu Evanilson, com o brasileiro a cabecear à barra. E, perante o desperdício português, os italianos aproveitaram.

Ao minuto 61, um livre de Bennacer bateu na barreira e sobrou para Giroud, voltando o francês a não conseguir superar Diogo Costa. Na continuação do lance, Kalulu, que havia entrado ao intervalo para substituir um Calabria que nunca soube lidar com Díaz, cruzou e Mbemba não resistiu à tentação de esticar o pé, desviando a bola para dentro da sua própria baliza e fazendo o 1-1.

A partir do golo, o FC Porto sentiu-se bem mais dificuldades, não conseguindo voltar a dar a mesma sensação de superioridade e conforto no duelo. Contrastando com isso, San Siro parece ter puxado do seu orgulho. O Milan não vence um jogo da Liga dos Campeões desde novembro de 2013, uma eternidade para uma entidade com sete "orelhudas" conquistadas. Mas há uma certa mística nos estádios e nas camisolas que leva a puxar as equipas para a frente em determinados momentos, e a reação do Milan na segunda parte assentou muito aí.

Os choques entre o FC Porto e Milão trazem-nos à memória avançados. Seja Jardel em 1996, Shevchenko na Supertaça Europeia em 2003, os três golos de Adriano pelo Inter em 2005 ou a "bomba" de Hugo Almeida, também contra os "nerazzurri", em 2005. E houve um avançado lendário que ainda teria presença neste novo encontro entre o Porto e uma das capitais da moda.

Após passar alguns minutos a aquecer, com San Siro a fazer aqueles barulhos de espanto quando se espera que uma lenda entre em ação, Zlatan Ibrahimovic saltou para dentro do terreno de jogo ao minuto 76. O sueco ainda marcou um golo, que viria a ser anulado por posição irregular de Theo, mas a sua presença na parte final não deixou de exercer como factor de intimidação para a equipa de Conceição.

MARCO BERTORELLO/Getty

No epílogo da contenda, o FC Porto desperdiçou algumas chances nas quais, em transição, poderia ter criado mais perigo, mas já parecia faltar o discernimento. Do outro lado, a cada investida do Milan erguia-se um peso pesado do futebol europeu.

San Siro foi a casa de vários dos melhores defesas da história do jogo e, em tão distinto palco, Pepe voltou a querer deixar a sua marca. A meses de cumprir 39 anos, a facilidade com que ganhou corridas em campo aberto a Saelemaekers, de 22, a segurança com que lidou com Giroud ou Zlatan ou a voz de comando que sempre exerce foram, uma vez mais, a demonstração da classe de um central cujo prazo de validade parece não esgotar.

A hora de jogo inicial ficará como uma das melhores versões do FC Porto europeu de Conceição, mas só o futuro ditará com precisão a importância deste ponto. Para já, fica a garantia de que, exceptuando quando entramos na galáxia distante do Liverpool de Klopp, os "dragões" são capazes de chegar à parte final de um grupo de alta exigência plenamente dentro da luta pelo apuramento.