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FC Porto

O triunfo do thiaguismo

O FC Porto entrou bem, com coragem a pressionar no campo todo e esteve perto de marcar em três ocasiões, mas um golaço de Thiago Alcântara, no início da segunda parte, mudou o jogo. Depois, Salah fechou o resultado, 2-0. Derrota do Atlético em Milão mantém a equipa de Sérgio Conceição no segundo lugar do grupo

Hugo Tavares da Silva

Matthew Ashton - AMA

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Os futebolistas do FC Porto ouviram, na véspera, uma ode ao orgulho mascarado da palavra “agressividade”. Em todos os momentos, pedia-se, com e sem bola. E foi assim, com esse código genético a borbulhar nas entranhas, que entraram em Anfield, um mítico estádio de futebol, onde até uma cantiga pré-jogo faz dançar o tecido de galinha invisível que mora na pele humana. Os rapazes de azul morderam orgulhosamente os de vermelho, que não se encontravam e não trocavam passes, muito menos logravam colocar os avançados de classe mundial em condições de ferir o rival. “Liberdade é não ter medo”, disse em tempos Nina Simone, por razões mais importantes do que um mero jogo de futebol, mas o espírito do FC Porto podia muito bem ser este. Os portistas entraram livres e leves. Sem medo.

Mas do outro lado estava uma equipa que, mesmo sem Alexander-Arnold, Van Dijk, Fabinho e Diogo Jota, obedece a outras coisas. Sim, apesar de os ingleses estarem já qualificados, pedalaram e acompanharam o ritmo frenético imposto pela bela primeira parte do FC Porto, mas há outra coisa. O thiaguismo é o futebol de outro mundo, que não é para todos, aquele que não liga a méritos ou aventuras alheias de alto gabarito. A qualidade vence jogos. Thiago Alcântara foi, durante muito tempo, o único futebolista no relvado de Anfield que trouxe alguma calma e momentos dignos de uma refinada refinaria da técnica, mais pura que os mais puros cristais, uma religião de que é refém desde que se lembra. Aos 38’, recebeu a bola e já sabia o que ia fazer, pois por impulso disparou um passe maravilhoso que isolou Mané. O senegalês conseguiu marcar, com um remate para o poste mais longe, mas estava poucos centímetros fora de jogo, gritou o VAR.

Depois de Luis Díaz e Mehdi Taremi tentarem oferecer o golo a colegas (e como berrou, no segundo lance, Sérgio Conceição...), Thiago não fez caso à boa-vontade reinante, abriu os olhos, engoliu a vã generosidade dos visitantes e, qual mago, bateu à inglesa, cortando a bola com a parte de fora do pé, de muito longe. A bola ameaçou beijar a relva, hesitante em honrar aquele jardim sagrado, mas optou antes por girar e girar e girar num movimento ligeiramente ascendente. Parecia feitiço. A bola entrou junto ao poste de Diogo Leite, que nada podia fazer. Mais tarde, quando foi substituído e antes de desaparecer num abraço de Jürgen Klopp, Thiago fez um olhar maravilhoso para o treinador, como quem diz “uff, viste aquilo?”.

Clive Brunskill

O FC Porto, que pôde contar com Pepe (e que sairia aos 24'), entrou realmente com a coragem nos limites. Pressionou no campo todo e deixou os adversários sempre desconfortáveis. Só Thiago, lá está, era mais resistente e imune àquela voracidade toda. Matheus Uribe ia acumulando valiosas ações defensivas. Sérgio Oliveira e Otávio emprestavam o mesmo andamento e aqui e ali alguns pormenores que permitiam à equipa aproximar-se da área de Alisson. Luis Díaz assinou mais uma daquelas exibições, com correrias infinitas pelo corredor esquerdo, com um toque de bola excelso, pecando só, e é fácil dizer agora porque Otávio falhou, por ser demasiado generoso. Mas decidiu bem, tocou para o lado, Otávio estava em melhor posição. O internacional português falhou na baliza. Taremi juntava-se a Evanilson nos duelos e tentativas de desbloquear jogadas com bola e sem ela condicionava o trinco do Liverpool, Tyler Morton.

Lá atrás, João Mário, Mbemba, Pepe e Zaidu, principalmente em duelos e desarmes, iam limitando as ações dos craques que apareciam do outro lado. Sadio Mané não estava inspirado, Takumi Minamino não estava especialmente ligado à equipa, parecia fora de ritmo até, e Mohamed Salah acabaria por crescer ao longo do jogo.

Antes de Thiago fazer aquela obra de arte, aos 52’, Uribe esteve a centímetros do golo, após um livre lateral batido por Otávio. Depois de reagir mais rápido do que aquela floresta de gente na área, o colombiano rodou e chutou, surpreendendo e deixando Alisson preso ao chão. Por esta altura, já se sentia que o FC Porto merecia mais do que aquele 0-0.

Clive Brunskill

Mas a tal qualidade, o descaro, o nível galático de gente como Thiago Alcântara mudou o jogo. Ou melhor, mudando o resultado, as pernas e a bravura dos visitantes começariam a esmorecer. Mas isto só é verdade quando Salah fez o 2-0, em mais um lance que respeita o thiaguismo. Após um passe longo da defesa dos reds, Zaidu abordou o lance de uma forma pouco recomendável, deixando-se ultrapassar pelo egípcio que está numa forma delirante. Uma pequena dança thiaguista tirou Uribe do caminho e depois lá bateu com a canhota, 2-0. Diogo Leite, quase sempre afinado a lançar os ataques pela esquerda, esticou-se, mas o fado era inevitável.

Por esta altura já estavam em campo Francisco Conceição e Vitinha, assim como Robertson e Henderson, o capitão do Liverpool. As substituições acabariam por contribuir para a quebra do ritmo do jogo, mas esse era já uma intenção do Liverpool, que, sem Thiago, se athiagou. Jogou mais no pé, teve menos urgência, quis resguardar-se e promover a segurança no passe.

O bloqueio mental dos jogos com o Liverpool, que permitiu somar algumas goleadas nos últimos anos, parecia estar ultrapassado. E essa coragem toda que se viu esta noite, olvidando a tal vã generosidade, que também pode falar bem do ambiente no grupo, foi premiada pelo outro jogo do grupo: o Milan venceu o Atlético em Madrid, o que significa que o FC Porto se mantém no segundo lugar do grupo, com cinco pontos, mais um do que italianos e espanhóis.

Na última jornada, agendada para 7 de dezembro, a equipa de Sérgio Conceição recebe o Atlético de Diego Simeone. O Liverpool, com um calendário atarefado e já classificado para os oitavos de final, deverá viajar até ao Norte de Itália para rodar os jogadores no Estádio San Siro.