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Depois da pancadaria, o pesado castigo: Direito e Agronomia são despromovidos e não podem subir de divisão durante 5 anos

No final de abril, dois dos maiores clubes da modalidade oval jogaram a meia-final do campeonato, o jogo teve várias cenas de pancadaria e terminou antes de tempo. E a Federação Portuguesa de Râguebi decidiu despromover o Direito e a Agronomia à segunda divisão, impedindo-os de regressar ao principal escalão durante cinco épocas. A entidade também cancelou a final da prova e, em teoria, não haverá campeão nacional num ano em que o râguebi português volta a ter outro ponto baixo

Diogo Pombo

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Se alguém for ao museu do Grupo Desportivo Direito, em Monsanto, verá muitos canecos juntos: lá estão guardados 11 títulos de campeão nacional, outras 11 Super Taças conquistadas, nove Taças de Portugal e quatro Taças Ibéricas. Caso percorra uns poucos quilómetros ali para perto, em Lisboa, e visite a Agronomia Rugby, poderá ver as taças de um Campeonato Nacional, de 10 Taças de Portugal, de 5 Super Taças, de uma Taça Ibérica e de uma Taça Federação.

O Direito e a Agronomia são, há muito tempo, dois dos maiores clubes que em Portugal se dedicam à bola oval. Foi natural, portanto, os termos visto a competirem na meia-final do Campeonato Nacional, no final de abril, num dia chuvoso e ventoso e, no final, violento.

Nesse dia, a Agronomia ganhou ao Direito por 15-12, resultado final de um jogo que nem chegou ao fim, porque o árbitro o decidiu acabar mais cedo perante a repetição de cenas de pancadaria entre jogadores, no campo, e adeptos das equipas, nas bancadas. E a enumeração dos títulos de um e outro clube serve para realçar a magnitude da decisão que a Federação Portuguesa de Râguebi (FPR) anunciou, esta sexta-feira, face ao que aconteceu no dia que colocou a modalidade a ser falada pelos piores motivos.

A entidade despromoveu a Agronomia e o Direito à segunda divisão, proibindo-os, nas próximas cinco temporadas, de regressarem ao primeiro escalão.

A Federação suspendeu o Campeonato Nacional depois da meia-final entre as equipas da Agronomia e do Direito ter sido marcada por cenas de violência

Primeiro, desclassificou ambos os clubes do campeonato nacional, após o Conselho de Disciplina da FPR considerar que ambos foram “responsáveis pela interrupção definitiva por incapacidade de manutenção da ordem no recinto de jogo” e, como tal, punidos com falta de comparência, lê-se, no comunicado enviado às redações.

Depois, recebidas as defesas apresentadas por Agronomia e Direito e ouvidas quatro testemunhas, indicadas por ambos os clubes, a federação cumpriu o que dita o Regulamento Geral das Competições - que é duro e pesado -, despromovendo as equipas ao escalão mais baixo, pela falta de comparência injustificada, e impedindo-as de regressarem à primeira divisão do Campeonato Nacional de râguebi durante as próximas cinco temporadas.

Como consequência da desclassificação das equipas, o Conselho de Disciplina ditou “o cancelamento definitivo da Final do CN1, com as devidas consequências desportivas”, como consta na ata da reunião da direção da federação. Nenhum dos documentos esclarece se o Belenenses, clube que venceu o Cascais e se apurou para a final, é considerado campeão nacional, ou se a época termina sem o título ser atribuído.

A decisão e as confusões

O castigo respeita um regulamento que é pesado e reflete a cultura de respeito, cavalheirismo e fair-play prezada no râguebi. Cenas de violência e pancadaria, por norma, são raramente vistas, tanto em Portugal como em países onde a oval compete, ou até ganha, em notoriedade e interesse, à bola redonda (no Reino Unido, por exemplo, e na Nova Zelândia e Austrália).

Um regulamento do qual a direção, ao que parece, lamenta estar refém, face a todos os membros, lê-se na ata, terem subscrito esta declaração de Miguel Raposo Magalhães, vice-presidente da federação: "Ao aprovar estas deliberações, declaro-me integralmente favorável à aplicação dos regulamentos, embora fique com a certeza de que estamos reféns de regulamentos extremamente rígidos, que não permitem qualquer margem ou amplitude de decisão quanto à sanção, não se apresentando alternativa viável à Direcção para lidar de forma coerente com esta situação."

Esta rigidez nas leias vem das tradições do râguebi, um desporto que não tem, por hábito, cenas de porrada e troca de agressões como as vistas a 28 de abril, no tal Agronomia-Direito.

Como também não deveria ter as divergências entre a federação e a Associação Nacional de Árbitros de Râguebi, devido à falta de pagamento, em vários meses, de despesas de deslocação, noticiou o “Diário de Notícias”, que fez os clubes esperarem mais de 40 dias entre o fim da fase regular do campeonato e a realização da fase final.

O árbitro que se voluntariou para apitar a meia-final em questão, Pedro Sarmento, nem dispôs da ajuda de juízes de linha durante o jogo. E, apurou a Tribuna Expresso, alegadamente nunca teria arbitrado uma partida de um escalão superior aos sub-14.

Este é um ponto baixo do râguebi português, que tem vindo a cair, umas vezes a pique, desde 2007, ano em que a seleção jogou o Campeonato do Mundo e se tornou na primeira equipa amadora a consegui-lo - entretanto, a modalidade não se conseguiu profissionalizar, a Portugal desceu de escalão nas provas europeias e a seleção de sevens caiu do circuito mundial da variante.

E, agora, terá dois dos seus maiores clubes restringidos, por meia década, ao escalão mais baixo (segunda divisão) do râguebi nacional e associados a cenas de pancadaria que a modalidade, historicamente, tanto faz por evitar - ou talvez não o fiquem assim por tanto tempo.

Porque, na ata da reunião da direção, lê-se que, no final de maio, a Federação Portuguesa de Râguebi aprovou alterações aos Regulamentos das Competições, "introduzindo uma distinção relevante para as faltas de comparência". Não é escrito quando entrarão em vigor essas mudanças, embora conste que a Agronomia e o Direito "poderão beneficiar do novo regime a partir da entrada em vigor da nova redação do regulamento, não ficando prejudicado o seu normal acesso ao CN1".

Perante esta aparente confusão, a Tribuna Expresso já questionou a Federação Portuguesa de Râguebi e está a aguardar por uma resposta.