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O mundo é um lugar estranho: a Nova Zelândia perdeu

Mais do que serem derrotados na modalidade em que ganham, consistentemente, há décadas, os All Blacks perderem em casa contra a seleção que, há um ano, tinham atropelado por 57-0. Ao quarto jogo do Rugby Championship (torneio das Quatro Nações), os sul-africanos marcaram menos ensaios, mas bateram (34-36) os neozelandeses em Wellington e até chegaram a estar com uma vantagem de 14 pontos contra a equipa que o lugar-comum costuma ter como imbatível. Há quase 10 anos que a Nova Zelândia não perdia um jogo em casa

Diogo Pombo

Anthony Au-Yeung

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É a mais pura das verdades escrever a história subliminar que está nos números: a percentagem de 59,3% contém o facto de que, entre as 22 equipas que a Nova Zelândia já defrontou, a África do Sul é a que mais obriga os donos e senhores do râguebi a trabalharem para o que lhes é tão habitual.

Que é ganhar.

Arredondando, por terem vencido a uma média de seis em cada 10 jogos feitos contra os sul-africanos, esperava-se que os neozelandeses vencessem, também, no sábado os seus fiéis rivais do hemisfério sul na terceira partida do torneio das Quatro Nações, por outros motivos que passo a especificar.

Eles são, independentemente do resultado, a melhor seleção/equipa de râguebi do planeta; têm os melhores jogadores do mundo; e também têm um ritmo, tanto no jogo à mão, como na reação aos rucks e ao jogo no chão, que costuma fazer qualquer adversário quebrar por volta dos 60 minutos; e, já agora, porque no ano passado dominaram e humilharam a África do Sul, em casa, na mesma competição por 57-0 - a maior derrota de sempre para os sul-africanos.

Mas quem se vestiu de verde em Wellington, no sábado, foi quem levou o resultado de volta para casa, com um misto entre a força bruta e a agressividade com que igualaram os All Blacks no jogo na relva, e aproveitamento dos raríssimos erros que os neozelandeses cometeram.

Willie Le Roux marcou um ensaio após intercetar um lançamento rápido com que Jordie Barrett, num alinhamento, tentou fazer a bola percorrer metade da largura do campo. Outro surgiu de um passe previsível, lento e, portanto, intercetado a meio do campo.

A África do Sul acabou o encontro com 29% de posse de bola, fez 226 placagens contra apenas 46 da Nova Zelândia e completou só 61 passes, comparados com os 234 dos All Blacks. E marcou cinco ensaios num jogo em que o derrotado conseguiu seis.

Mas sobreviveu à base de um jogo defensivo implacável, raramente falível na primeira e na segunda placagens, beneficiando do pé errático de Beaudeu Barrett, o médio de abertura, duas vezes eleito o melhor jogador do mundo, que perdeu oito pontos nos pontapés aos postes (dois até levaram a bola a bater num dos postes).

E, igualmente, devido à estranha insistência dos neozelandeses em forçarem um ensaio nos últimos 10 minutos, que lhes salvaria o resultado, em vez de tentarem um pontapé de ressalto (drop). Ou chutarem aos postes quando os sul-africanos cometeram uma penalidade, já quase no fim do jogo (optaram por uma formação ordenada, dentro da área dos 22 metros).

Descontando a derrota do ano passado, frente aos British and Irish Lions, a Nova Zelândia não perdia um encontro contra uma seleção nacional, em casa, há quase 10 anos. A última acontecera em 2009, em Hamilton, também contra a África do Sul (29-32). No torneio das Quatro Nações, os neozelandeses estavam numa série de 15 vitórias consecutivas.

Quando falta, mais ou menos, um ano para o Campeonato do Mundo, esta derrota pode ser um sinal para os All Blacks se reinventarem um pouco e, talvez, se acautelarem para estes raros momentos em que não lhes basta carregarem e manterem a intensidade do seu jogo atacante para serem superiores no resultado.