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Râguebi

O minuto All Black

É uma questão de um minuto. Foi o tempo que separou a África do Sul de repetir a surpresa de há três semanas e derrotar a Nova Zelândia, que nunca teve em vantagem no último jogo do torneio das Quatro Nações, mas acabou a ser como os All Blacks são - ganhadores, mesmo que só com um ensaio no último minuto e no derradeiro pontapé do jogo

Diogo Pombo

GIANLUIGI GUERCIA

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Há três semanas, umas quantas fundações ruíram no mundo tal qual o conhecemos, o redondo planeta onde há quem se exercite em prol de de uma bola oval. As duas ilhas que subjugam o râguebi à sua mercê, desde que o começaram a jogar, sem que se sabia exatamente os porquês de sempre o conseguirem, perderam.

A Nova Zelândia foi derrotada pela África do Sul, e logo em casa própria, uma fatalidade caseira que não acontecia há quase 10 anos.

Os vestidos de negro colecionaram erros infantis, um número anormal de más decisões com bola e incapazes foram de resgatar o jogo com as armas que tantas vezes, ou sempre, os safam - a intensidade e a dinâmica com que fazem as coisas.

Ora, em Pretoria, este sábado, nenhuma das duas tiveram durante os quarenta minutos, em que mais pareceu que parte dos seus poderes inatos tinham sido transferidos, por osmose, para os adversários. Os mesmos que, 15 dias volvidos, se voltaram a agigantar contra os All Blacks.

A primeira parte foi uma demonstração sucessiva de sul-africanos a chegarem antes aos rucks, limpando corpos e protegendo todas as bolas na relva, mantendo-a sempre num ritmo em que saía rápido pelas mãos de Faf de Klerk, o pequeno médio de formação que usufruía da dinâmica dos avançado.

O veneno dado a provar a quem mais costuma envenenar, à força, valia faltas atrás de faltas à África do Sul, que chegava a ter fases em que era proprietária de 80% do tempo da bola. Handre Pollard ia buscar seis pontos aos postes, em penalidades, facto mais vistoso de uma exibição que também assentava num jogo de placagens que muito raramente davam metros ao adversário.

E a resposta da Nova Zelândia resumia-se a chutos territoriais e a dois pontapés de Beauden Barrett, certeiro como não estivera há três semanas, nos pontapés de penalidade, embora nervoso e um quê estapafúrdio, quando tentou um drop, a meio do campo, coisa que nunca acertou na carreira, com os All Blacks.

O 6-6 ao intervalo lisonjeava os All Blacks e foi tão estranho vê-lo, quanto escrevê-lo.

Gallo Images

Eles amorfos e inconsequentes se mantiveram, vindos dos balneários. Continuaram a permitir vários ataques com fases às dezenas, incapazes de impedir que os avançados sul-africanos se impusessem na relva e os médios e centros sul-africanos reciclassem a bola com velocidade.

Jesse Kriel marcou um ensaio que Pollard converteria e, pouco depois, o abertura acertaria outra penalidade, no que seria uma vida ao pontapé sem falhas. Terminaria o jogo com 12 pontos e uma percentagem de 100% no pé direito, incluindo uma tentativa a 50 metros dos postes.

A defesa buracosa, sem uma linha compacta, dos neozelandeses, deu mais dois ensaios a Damien De Allende e Cheslin Kosbe, ambos convertidos, com uma resposta contra-atacante de Aaron Smith, o médio de formação que sprintou 40 metros para dar algum sinal de vida da parte dos All Blacks.

Com 20 minutos a sobrar, a África do Sul ganhava por 30-13.

Uma vantagem que accionou a urgência na cabeça dos neozelandeses, para o tempo em que atropelam toda a resistência devido à natural quebra física, e de intensidade, que qualquer adversário costuma sucumbir, por esta altura. O que sucedeu, mas não tanto porque sim.

Mais porque assim se proporcionou. Enquanto os sul-africanos perdiam com as lesões de Eben Etzebeth e Willie Le Roux, os All Blacks ganhavam com a entrada dos pés de Richie Mo'unga para abertura, afastando Barrett para o lugar onde estivera o corpo presente de Sonny Bill Williams

Os eternos monstros físicos, fábricas ambulantes de jogadas com tantas fases quanto as que forem necessárias para quebrar a oposição, a bateram as linhas da vantagem, lá apareceram. Os ensaios de Rieko Ione e Scott Barrett contrastaram com a menor posse de bola, o menor domínio territorial, o menor número de passes trocados e os menos metros percorridos, com a bola na mão.

Mas, quando a resistência sobrehumana dos sul-africanos, já de rastos e assentes nos joelhos, na sua área de 22 metros, para se oporem contra as pernas e placarem onde menos força bruta é precisa, os neozelandeses tornaram-se maiores no que conquista jogos.

Ardie Savea marcou um ensaio no último minuto e Mo'unga certificou-se de gastar o tempo a que tinha direito, na conversão, para garantir que, fosse entre ou fora dos postes, o seu pontapé acabaria com o jogo. O seu pé direito coincidiu com o alvo. O último longo apito soou com o 30-32 e os pulos efusivos dos All Blacks.

Eles estiveram combalidos, erráticos, faltosos, quase tontos a defenderem, pouco agressivos para os seus hábitos, mas fizeram um tipo de façanha que lhes é tão típica - marcaram três ensaios em 1/4 do tempo de jogo e fizeram 19 pontos consecutivos.

Evitaram o que seria a repetição de uma das raridades mais raras deste mundo: perderem dois jogos seguidos contra o mesmo adversário, acontecimento de 2009, contra esta África do Sul. Não jogaram bem, não mantiveram o nível orbital que é regra terem, até nem terão sido a melhor equipa em campo, mas são os All Blacks.

E também é por finais de jogo como este que o são