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Sexton, o tipo reservado, tímido e confiante, é o melhor jogador do mundo

Difícil de lidar, humilde e reservado ao mesmo tempo que é seguro e confiante na fronteira da arrogância, Johnny Sexton tornou-se o primeiro irlandês a ser considerado o melhor do mundo pela World Rugby, prémio no ano em que conquistou outra Liga dos Campeões com o Leinster e conduziu a Irlanda que ganhou todos os jogos do Seis Nações, antes da inédita vitória sobre a Nova Zelândia, em casa

Diogo Pombo

Ramsey Cardy

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Em Listowel existe um entre muitos pubs, lugar de copos a serem enchidos com cevada alcoolizada, cujo dono, um dia, ouviu o sobrinho, nos seus 14 ou 15 anos, a pedir-lhe humildemente permissão para fazer uma coisa que previa com um se quê de altivez: “Billy, quando jogar pela Irlanda, posso pendurar a minha primeira camisola no bar?”. Era o mesmo rapaz que passava os seus dias a pontapear a bola, lá fora, contra uma das paredes do estabelecimento.

A camisola verde, com um trevo cozido no peito, número 10 nas costas, oferecida por Jonathan Jeremiah Sexton, está lá pendurada.

Era tratado por Jono, alcunha que apenas foi substituída pela abreviatura do primeiro nome, Johnny, quando se tornou conhecido. Crescido com uma infância “bastante normal”, por admissão própria, o irlandês dos olhos semicerrados e cortados guiou-se pela vida do pai, John, igualmente jogador de râguebi e internacional pelo país, nos tempos amadores.

Ele passava a bola meticulosamente e pontapeava-a com certeza cirúrgica no colégio St. Mary, onde o Leinster o colheu, impressionado por um jogo apenas, para o fazer crescer. Aí surgem os primeiros relatos e estórias de um Sexton de contrastes: reservado em palavras e até tímido na postura com se relacionava com pessoas; mas dono de uma personalidade confiante, impossível de abanar, tão seguro de si ao ponto de o confundirem por arrogante.

Um feitio peculiar, complicado quando compete por alguma coisa ou contra alguém. Entre o fim da adolescência e os inícios de um jogador adulto, chocou com Ronan O’Gara, médio de abertura irlandês, tornando-se no novato que gritava, picava e mandava bocas à lenda que era titular da seleção. O feitio implacável na ascensão que Sexton imaginava para si próprio ia contra o tipo que mais se punha no seu caminho.

Até Brian O’Driscoll, o mágico antigo centro irlandês e ainda o melhor jogador que a Irlanda já produziu, no seu tempo capaz de inventar truques como este, não se livrou de choques com Sexton. “A fúria competitiva a arder dentro do Johnny vinha, por vezes, cá para fora. Houve alturas em que sorri e tentei entender-me com ele, mas era difícil penetrar a parede de certeza que ele construía à sua volta, a convicção que tinha de ter razão, sempre”, admitiu o já retirado jogador, na sua autobiografia.

O’Gara fartou-se de colidir com Sexton quando ambos jogavam, acidentes extrapolados, também, pela imprensa, mas conseguiu encontrar rachas na parede. Hoje está em paz com o abertura da Irlanda - e elogia-o. “É um jogador brilhante, mas melhor fora do campo. Quando soube que eu ia para a Nova Zelândia [tornou-se, este ano, adjunto dos Crusaders], em vez de passar o dia a treinar pontapés aos postes, enfiou a família no carro e fez 650 quilómetros de carro para me apertar a mão e desejar sorte, quando 90% das pessoas só ligaram ou enviaram uma mensagem”, escreveu, no Twitter, antes de se saber a novidade de domingo.

Jonathan Sexton, aos 33 anos, tornou-se o primeiro irlandês a ser eleito o melhor jogador do mundo pela World Rugby, preferido a tipos profundamente técnicos a correr com uma bola, como os neozelandeses Beauden Barrett e Rieko Ione.

É um prémio de carreira. O glorificar de um jogador sobre quem sempre se multiplicam os típicos elogios do profissionalismo, de ser o primeiro a chegar e o último a sair, misturados com episódios do seu lado meticuloso, de quem lidera pelo exemplo. O “condutor da orquestra” da Irlanda, assim tantas vezes descrito por Roger Schmidt, o selecionador da equipa que Sexton guiou ao terceiro Grand Slam (só vitórias) da história no torneio das Seis Nações e à primeira vitória (há duas semanas) em casa contra a quase sempre invencível Nova Zelândia.

É o pináculo distintivo para um tipo que não teve a média suficiente para entrar no curso de medicina, que desistiu de uma licenciatura em engenharia biomédica, que chegou a trabalhar no cabeleireiro da mãe quando já jogava. E Jonathan Sexton, rouco e afónico na noite da cerimónia da World Rugby, teve de pedir a Rory Best, o capitão da seleção irlandesa, para falar por ele.

Com um telemóvel nas mãos e o premiado ao lado, a sorrir timidamente, Best leu o que lhe competia: “Se um 10 vence este prémio, é devido à equipa que está à volta dele e ao trabalho dos treinadores, que torna as coisas mais fáceis”. Sexton, um tipo duro de roer, sempre opinativo e dono de uma confiança que expressa sem reservas - e mudo no momento mais simbólico de reconhecimento unânime.