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Será possível que a Nova Zelândia esteja a afrouxar?

A pouco mais de um mês do Mundial (arranca a 20 de setembro), os todo-poderosos All Blacks perderam (47-26), e bem, com a Austrália titubeante e em renovação. Pela primeira vez em oito anos não ganharam o Rugby Championship, torneio anual que junta as quatro melhores seleções do hemisfério sul. Mesmo que não se possa falar em crise, houve pelo menos uma ligeira quebra nos quase infalíveis resultados da Nova Zelândia

Diogo Pombo

Paul Kane/Getty

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Logo no arranque, quebraram o restritos espaços de homem para homem na linha defensiva para arriscarem uma interceção, que por pouco escapou às mãos amanteigadas de Anton Lienert-Brown. Ele abandonou a linha, o ponta Ben Smith teve de fixar uma placagem sem cobertura por dentro e abriu-se uma autoestrada.

Pouco antes do intervalo, o matulão segunda linha Scott Barrett projetou-se com o ombro à frente, sem braços, contra a nuca de Michael Hooper, capitão australiano que já estava a ser placado e em queda junto a um ruck, a cinco metros da área de ensaio. Demasiado severa ou não, a decisão de o árbitro lhe mostrar um cartão vermelho condenou a equipa a jogar com menos um durante 40 minutos.

No arranque da segunda parte, já na décima fase de um ataque, a Austrália abriu a bola para o lado fechado, já perto da linha, Ben Smith reagiu ao que parecia um mau passe, julgou ver o futuro de uma má receção e foi apanhado na curva de um encaixe a dois tempos. Outro ensaio.

Os restantes quatro ensaios resultaram de uma combinação de cansaço, ter um a menos no campo e enfrentar um jogo à mão dos australianos que voavam e foram capazes de impor uma dinâmica intensa, invulgarmente eficaz nas linhas de corrida, que ganhavam quase sempre algum metro.

Os neozelandeses marcariam quatro ensaios, espernearam com vida por Beauden Barrett e Ngani Laumape, raides individuais em corrida que não disfarçaram a falta de capacidade em outras áreas: só ganharam metade dos rucks que os autralianos conquistaram, o rácio foi quase o mesmo nos metros corridos com a bola e a desconcentração geral fê-los cometerem oito penalidades.

A menos de seis semanas de o Mundial arrancar, a Austrália marcou 47 pontos à Nova Zelândia, a maior pontuação de sempre, igualando a maior margem (21 pontos) de vitória contra a seleção que ganhou 69% dos jogos que teve contra a ilha dos cangurus. Os números não esmagam a histórica supremacia sobre quase toda a gente que toca na oval, mas fazem questionar o que se passa.

Pela primeira vez em oito anos, os All Blacks são a melhor seleção do hemisfério sul, se a distinção vier de quem conquista o Rugby Championship. O torneio dos três crónicos monstros a que se juntou a Argentina foi conquistado, este ano, pela África do Sul, ainda com uma jornada em falta.

Os que sempre vestem negro ganharam por quatro pontos aos argentinos, empataram a 16 com os sul-africanos e foram quase cilindrados, agora, pelos australianos. Em 2015, antes do Mundial, também perderam contra os rivais de amarelo e esse prenúncio guiou-os à segunda conquista consecutiva do torneio. Agora, porém, uma terceira em séria já não parece uma aposta tão segura.

O 15 base não tem as fundações do ciclo anterior. Não se olha para o par de centro e se avista uma dupla estável, titular e em quem depositar esperanças para bater placagens como Ma’a Nonu e Conrad Smith. Esta geração para encarar o Mundial continua com dúvidas, como que emaranhada no experimentalismo de colocar Ben Smith, um dos melhores defesas do planeta, apesar da idade, à ponta, para recuar Beauden Barrett e ter Richie Mo’unga a 10. Haverá vantagens em ter dois aberturas e organizadores de jogo em campo, embora isso desvie jogadores das suas melhores posições.

Cameron Spencer

Após a derrota, Dan Coles, o talonador neozelandês, bateu no coração perante os jornalistas e disse ter sido isso a faltar à equipa. “Não podemos esconder que teve muito a ver com atitude. Eles quiseram ganhar, estavam esfomeados e desesperados, nós não. Foi isso que nos faltou”, lamentou, remexendo na velha discussão das equipas que sempre ganham, na que sempre rodeia os All Blacks - como é que se mantém o apetite vencedor em quem tudo conquista, há quase uma década?

A resposta terá de aparecer em menos de seis semanas.

Porque há uma Argentina cada vez mais a encurtar distâncias para os papões do râguebi. Há as potências europeias, Inglaterra e Gales à cabeça, contra quem o estilo fluído e mais à mão da metade sul do mundo tem emperrado mais do que o costume. Depois há a África do Sul ganhadora do Rugby Championship e esta Austrália em aparente boa renovação.

Na sua biografia, Daniel Carter conta que, depois de uma derrota - que continua a ser uma raridade -, os jogadores neozelandeses sempre se fecharam no balneário, com cerveja para amenizar a conversa, de lá saindo apenas quando toda a gente dissesse algo sobre o que acontecera em campo.

Talvez tenham recorrido a esse hábito de novo e no próximo sábado, em Auckland, contra a Austrália (onde decidirão a Bledisloe Cup, taça paralela ao Rugby Championship, sempre disputada entre os dois países), poderemos ver em que resultou.