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Pela primeira vez, o mundo oval é de Gales

Findas 509 semanas consecutivas (quase 10 anos) em que o ranking mundial de râguebi foi liderado por tipos vindos da terra onde há mais ovelhas do que pessoas, há uma mudança inédita: o País de Gales é o novo número um, agora que faltam 31 dias para o arranque do Mundial

Diogo Pombo

Michael Steele/Getty

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Dan Biggar não é, de todo, o mais elegante dos médios de abertura. Anormalmente inchado de músculos, de modo quase hulkesco para o normal da posição, o galês compensa a aparente falta de graciosidade com a dureza a defesa. E um olho robótico e atento para onde está o espaço, como se viu em Cardiff.

Logo após uma paragem de jogo, ele rasgou a largura do campo com um pontapé para variar a bola até ao lado oposto e fazê-la aterrar nas mãos de Josh Adams. O ponta foi placado, originou-se um ruck, a bola filtrou-se rapidamente e, em duas fases de ataque, lá estava a bola a ser pontapeada de novo para o outro lado do campo, onde outro galês hercúleo de composição, George North, a agarrou com a tranquilidade de quem não tinha adversários à vista.

A ligação direta entre o abertura e o ponta galeses, que são do melhor que o País de Gales tem, produziu o único ensaio no jogo que lhes deu uma vitória (13-6) contra a Inglaterra, no sábado - isso e os ingleses, em analogia com bastante efeito real, terem adormecido quando Anthony Watson viu um cartão amarelo (cortou propositadamente um passe para o chão) e reagido tarde à rápida reposição de bola de Biggar, que a colocou ao pé, duas vezes, onde os olhos viram uma descompensação.

Assim que o árbitro deu aquele longo e melódico silvado de apito para terminar o jogo, algo se iria alterar depois de 10 anos inalteráveis: o líder do ranking mundial da World Rugby.

Os galeses, vencedores do 15º encontro nos últimos 16, numa série que incluiu um Grand Slam (só vitórias) no último torneio das Seis Nações, tornaram-se, pela primeira vez, no número um da hierarquia que a entidade que manda no râguebi inventou, em 2003.

O facto de o País de Gales ser, apenas, a quarta seleção a sentar-se no trono e a ter que olhar para baixo para avistar alguém deve-se, em grande parte, aos 88,29% do tempo de existência deste ranking em que foi a Nova Zelândia a liderá-lo. Só a Inglaterra e a África do Sul foram capazes de roubar o lugar aos omnipotentes do râguebi antes de os galeses o fazerem agora.

Conseguiram-no, ao longo do tempo, por estarem recheados de bons e rentáveis jogadores como Biggar, apesar de este ano nem ter sido o titular e North, fora o gladiador-capitão Alun Wyn Jones, o formação Gareth Davies com apetência para furar linhas em corrida a constância do defesa Leigh Halfpenny.

Eles são a base da seleção que poderá chegar ao Mundial do Japão ainda como número um do ranking, caso seja capaz de se aguentar com os test matches que há por jogar, até 14 de setembro - a competição arranca a 20 - e os critérios algo confusos que a World Rugby tem para definir quem vai subindo e descendo nesta vida.

No Campeonato do Mundo, contudo, não terá Gareth Ascombe, o neozelandês naturalizado que teve as rédeas do jogo que conquistou o Seis Nações e manteve Dan Biggar nas sombras. Nem poderá contar com Taulupe Fauletau a fechar o pack de avançados como número 8. Ambos se lesionaram e Gales terá dois jogos contra a Irlanda para finar um 15 sem eles.