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Morreu Chester Williams, único jogador negro da África do Sul que ganhou o Mundial de 1995

Há 24 anos, uma África do Sul a tentar renascer socialmente no pós-Apartheid organizou o Campeonato do Mundo de râguebi, no qual Nelson Mandela viu uma oportunidade de unir o povo em torno de um desporto associado à população branca e opressora. Os springboks, que estavam longe de serem favoritos, conquistaram a prova com apenas um jogador negro na equipa, Chester Williams, que faleceu esta sexta-feira, aos 49 anos

Diogo Pombo

Tony Marshall - EMPICS

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"Não fazias perguntas sobre o porquê de as crianças negras não irem para a escola contigo; o porquê de só veres brancos. Foi assim que crescemos, o que é muito errado e triste. Quem me dera ter tido a coragem de perguntar, mas não tive. No meu pequeno mundo, cresci numa comunidade Afrikaner, estudei numa escola Afrikaner, falei só com Afrikaans."

Há uns anos, François Pienaar disse estas e outras palavras numa entrevista ao "The Observer", que servem para apenas riscar um bocadinho do que era a carapaça quase impenetrável do regime racista e de segregação social do Apartheid, no qual ele, um branco, cresceu e viveu na África do Sul até 1991. Três anos depois, Nelson Mandela foi eleito presidente.

Tendo a cor de pele que tinha, foi natural que Pienaar começasse a jogar râguebi, desporto oval fortemente ligado à população branca. Era jogado, visto e apoiado por brancos, associado pela população negra e maioritária no país ao regime que tanto os ostracizou, desumanamente.

A África do Sul ia receber o Mundial de râguebi menos de três anos depois de a seleção nacional voltar a competir, oficialmente - esteve suspensa de 1985 a 1992, devido ao estado político e social do país. Nessa equipa odiada pelos negros, que pediam até para Mandela se livrar da cabra-de-leque (springbok) como símbolo oficial da seleção, por ser conotado com o Aparthied, apenas jogava um negro.

Mark Leech/Offside

Chamava-se Chester Williams, jogava à ponta e morreu este sábado, aos 49 anos, vítima de ataque cardíaco. Faleceu, mas nunca falecerá a história que representa.

Ele foi simbólico de como a seleção da África do Sul não jogou apenas contra a Austrália, a Roménia, o Canadá, a Samoa Ocidental, a França e, finalmente, a Nova Zelândia do também icónico Jonah Lomu - tentou jogar, sobretudo, contra o preconceito, o racismo e a segregação e o ódio social.

Em 1995, ele viu o primeiro presidente negro de um país ferido por mais de 40 anos de um regime que quis perpetuar tudo isto viu na seleção de râguebi uma oportunidade para tentar curar uma nação desmantelada. No seu primeiro mês em funções, Mandela já se quisera reunir com François Pienaar, o capitão da seleção sul-africana que tinha que apertar a mão a um presidente com a cor de pele que desprezara quando cresceu.

Mandela pediu-lhes para aprenderem o novo hino nacional do país, para correrem pelas ruas das cidades do país, para se mostrarem à população negra que sempre torcia pelas seleções estrangeiras que jogavam contra eles, entre outras coisas que o grande público viu em Morgan Freeman e "Invictus", ator e filme que contaram a história de um presidente, uma equipa e um desporto que tentaram mudar uma nação.

Media24/Gallo Images

Mesmo sendo uma dar forças do râguebi abaixo da linha do equador, eles não eram, de todo, favoritos a serem algo no Mundial. Mas a vitória inicial contra a Austrália embalou-os, como o fez Chester Williams, ao marcar quatro ensaios no jogo dos quartos-de-final, contra a Samoa Ocidental. Foram os únicos que conseguiu no torneio, porque antes esteve lesionado e, por pouco, que outra mazela não o roubou da final.

Conseguiu estar presente, como Nelson Mandela tanto queria, perante um Ellis Park cheio, bem no centro de Joanesburgo, onde o presidente vestiu uma camisola e um boné dos springboks tão desprezados pela população negra, que bateram a omnipotente Nova Zelândia com aquele pontapé de Joel Stransky e aquela placagem de Joost Van Der Westhuizen ao monstro Lomu, quem se julgava imparável.

E Chester Williams lá estava, em campo e no meio da história, a viver tudo e a ser a vida a quem mais simbolismo se atribuiu por ter nascido com a cor de pele que uma minoria passou tantos anos a segregar. Williams é o quinto jogador dessa seleção a falecer, depois do também ponta James Small, do médio de formação Joost Van Der Westhuizen, do flanqueador Ruben Kruger e do treinador Kitch Christie.