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Olá, râguebi. Eu sou o Jonah Lomu

Era anormalmente grande, musculado e rápido para a massa que carregava no corpo. Pedia a bola e, em vez de se esquivar, ia a direito e atropelava, literalmente, quem o tentava placar. O Mundial de 1995 ficou como o ressuscitar da África do Sul, mas, a ser de um jogador, foi do espantoso Jonah Lomu, a primeira estrela global do râguebi. Esta é a primeira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

Diogo Pombo

Robert Cianflone

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Ver a cambalear quem tem a bola, está a correr na nossa direção e quer chegar à área de ensaio por nós protegida, é um bom presságio. Estamos no jogo em que a única forma de parar alguém é placá-lo e, por maior que seja o tipo, vê-lo com as pernas a dar as últimas e o tronco dobrado sobre a cintura atira as probabilidades para o nosso lado.

Vou fletir os joelhos, baixar-me ao nível da relva e atacá-lo por baixo, onde o peso conta menos e a gravidade se abate para ajudar a tombar corpos, pensou Mike Catt, defesa inglês, em 1995, na meia-final do Mundial de râguebi. “Vou fazer o tradicional”. E então plantou os pés, agachou-se, esperou pelo impacto e fechou os braços quase ao nível da cintura, como se ensina .

“Só que ele passou-me por cima”.

Caso não o tivesse abalroado sem pudor, tê-lo-ia “ultrapassado” na velocidade ou “fintado” com a agilidade que não aparentava, disse o arrier inglês, passado a ferro por 1,95 metros, 105 quilos e 20 anos de um neozelandês, antes apenas abrandado por um encosto falhado de Will Carling e um braço rasteirante de Tony Underwood. Os dois tentaram parar e prevenir que a tragédia se abatesse, com estrondo, sobre Mike Catt.

O tornado com pernas tocou com a bola na relva, marcou o ensaio, levantou-se e correu calmamente para trás, sereno, cara de quem tentava convencer o mundo pré-internet, das cassetes VHS e das boas novas que demoravam a ser espalhadas, de que tudo aquilo era normal – quando era tudo menos isso.

Jonah Lomu chegou a Auckland ainda na barriga da mãe, decidida a tê-lo na Nova Zelândia para poupar o filho de problemas burocráticos de imigração. Cresceu em bairros onde se juntavam descendentes das ilhas do Pacífico sul e deslocou a infância, durante vários anos, de volta ao Tonga, porque a família retornou a casa depois dele ver um dos seus ser assassinado com um machete, no meio de um centro comercial.

Voltariam à capital da Nova Zelândia, ao bairro, ao quotidiano de violência entre gangues que chamava por Jonah. Os pais, apertados em dinheiro, esforçaram-se para o manter num colégio, onde o râguebi é a educação e o sistema do país vai colher miúdos com jeito, para os maturar.

Lomu aprendeu a jogá-lo e juntou-o à anormalidade atlética, vinda da boa fortuna dos genes que ou se têm, ou se invejam. Com 14 anos, já ganhava as provas de 100, 200 e 400 metros e, tendo uma bola oval nas mãos, o físico fenomenal fez com que o pusessem a jogar a número oito, nos tempos em que os adultos determinavam a posição dos miúdos com base no tamanho, e pronto.

Escalou as seleções jovens da Nova Zelândia, espalhou o nome, ouviu-se falar na monstruosidade física para quem os 100 metros se traduziam em menos de 11 segundos, mas o tamanho, a corpulência, a força bruta, mantinham-no a avançado no râguebi de 15 até a variante de sete se interessar por ele.

Lomu é convocado para o Hong Kong Sevens, em 1994. O espaço livre de relva a mais e o estilo frenético fazem-lhe confusão, mas derruba corpos como quem sopra ar contra um mosquito. É o adolescente precoce que dá nas vistas, querem-no ver como All Black, não a limpar corpos em rucks, antes a correr. Torna-se o mais novo estreante (19 anos e 14 dias), na seleção, só que encostado à ponta, à espera de bola para correr, onde ainda está fora de pé nas derrotas contra a França que expõem o quão verde ainda estava por debaixo da musculatura.

David Rogers

É neste contexto que o chamam para o Mundial. Um quê desacreditado, mesmo temível na potência crua do corpo, com apenas dois jogos pela Nova Zelândia e a receber telefonemas de equipas da NFL, a seduzirem-no às escondidas para o primo afastado da vida oval. Deu um não a todos e foi convocado para, nos All Blacks, voltar a jogar na posição que ainda lhe guardava segredos.

O selecionador, Laurie Mains, construtor civil de profissão em Dunedin, no sul da ilha mais a sul da Nova Zelândia, deixara de o ter em conta depois dos jogos perdidos com a França. Mas, em dias seguidos, miúdos perguntaram-lhe na rua, enquanto reparava telhados, pelos porquês de não contar com Lomu. O treinador com fama de feitio fechado percebeu o peso que Lomu poderia ter, chamou-o para uns testes com a seleção, viu-o a desmontar jogadores com nome, rendeu-se, mas considerou-o inexperiente. Jonah estava fora de forma e exigiu-lhe que trabalhasse no duro para chegar ao ponto rebuçado.

Se há um formato de ironia neozelandesa, é este.

O tal ensaio atropelador de corpos de Jonah Lomu foi o quarto que marcou à Inglaterra, um dos sete que deixou na África do Sul - marcou dois no jogo inaugural, contra a Irlanda, e outro à Escócia. Atinado com a forma, tê-lo à ponta deu a referência para a Nova Zelândia moldar um estilo de jogo. “Não tinha que pensar muito além de olhar para a linha de ensaio e correr. Os treinadores trabalharam para isso. Eles apontavam-me a direção”, reconheceria, ao “New Zeland Herald”.

Afastar a bola da acumulação de corpos e passá-la, o mais rápido possível, até às mãos de Lomu, tornou-se prática mecânica. Depois, ele desmontava defesas e corpos com um estilo brutal, mas incomum. Preferia manter as linhas de corrida a direito e chocar contra esperançosos placadores, sem necessariamente tentar esquivar-se, trocar os pés ou fintar, como era hábito ver em tipos a jogarem a centro, ponta ou defesa.

Esses tipos, os normais, também era mais estreitos, ‘pequenos’ e ágeis à primeira vista. Eram muito bons de ver (David Campese, Jeff Wilson) por evadiram problemas em campo em vez de os derrubarem, espetacularmente, à força. De lhes baterem de frente e de os verem a tombar, repetidamente. De nem permitir que os adversários o tentassem placar, ao afastá-los (hand off) com a mão. Nunca um ponta fora tão forte, explosivo, brutal e, ao mesmo tempo, rápido, como Jonah Lomu.

A reputação começou a precedê-lo ainda na África do Sul, o primeiro Mundial televisionado a sério, com atenção inflacionada pelos esforços de Nelson Mandela e o ressuscitar pós-Apartheid, ao ponto de uma placagem que Joost Van der Westhuizen lhe fez, na final, ter ficado famosa. Lomu não tocou no troféu, mas foi nele que os magnatas dos media reconheceram potencial para investirem e darem os primeiros passos para a profissionalização do râguebi, ainda em 1995.

Pouco depois, diagnosticaram-lhe a Síndrome Nefrótica que lhe começou a falir os rins, debilitando-os aos poucos, não o impedindo de ainda marcar sete ensaios no Mundial de 1999, mas ruindo-lhe a saúde daí para a frente. Faleceu com 40 anos, em 2015, e a sua morte foi bem mais noticiada do que a sua explosão porque ali acabou o corpo mais fenomenal, incrível e superior ao resto que houve, a certa altura, no desporto oval.