Tribuna Expresso

Perfil

Râguebi

Futebol, pé. Basquetebol, mão. Râguebi, também pode ser pé

Jonny Wilkinson deu um Mundial à Inglaterra batendo a bola aos postes, em 2003, Stephen Larkham deu um pontapé a 48 metros de distância quando todos lhe disseram para não o fazer, em 1999, e Joel Stransky deu uma alegria a Nelson Mandela em 1995. Esta é a segunda de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

Diogo Pombo

David Davies - PA Images

Partilhar

"Não chutes, Larkham!"

Institucionalizou-se há muito, e durante muitos anos, que o médio de abertura é quem mais deve chutar a bola devido aos mais variados propósitos. Porque ele é, quase sempre, o jogador que recebe o primeiro passe limpo da jogada, quem tem mais campo aberto e, em teoria, quem mais ideias e técnica tem.

Logo, é quem leva o número 10 no râguebi que deve dar os pontapés territoriais, que empurram o adversário para o seu campo. Os up and unders, que elevam a bola e dão tempo a que alguém corra e chegue onde ela vai cair. E os pontapés aos postes, os mais gulosos, porque dão pontos e confiam no jogo ao pé para os ir buscar.

Não é, de todo, suposto que no momento em que baixa a cabeça, estica os braços, deixa cair a bola na vertical e se prepare para a bater, em drop e a 48 metros dos postes, o médio de abertura ouça uma catrefada de vozes que jogam na mesma equipa a insurgirem-se, com gritos, contra o que pretende fazer bem à equipa - “Não chutes! Não chutes!”.

Por mais ficcionado que seja o anúncio, já antigo, de companheiros de equipa, ex-treinadores e amigos a condenarem-lhe a escolha, não era por falta de fundamento que Stephen Larkham, ao tentar um pontapé de ressalto aos postes, em 1999, no prolongamento da meia-final contra a África do Sul, causasse tanto arrepio nas espinhas de australianos.

Ele era abertura, um dos melhores do mundo, formidável a arrancar com a bola na mão e a furar linhas, mas, aos 25 anos, nunca tinha acertado um drop na carreira. Pouca gente se lembrava, sequer, de o ter visto tentar.

Mais inusitado foi o treinador adjunto da Austrália lhe ter pedido, ao intervalo do prolongamento, para o fazer, caso tivesse oportunidade. “Para nós, os drops nem sequer faziam parte do plano de jogo. Éramos uma equipa de corrida, de marcar ensaios”, recordou Larkham. A minutos do fim do jogo, na logo à segunda fase de um ataque a meio do campo, ele viu poucas hipóteses no jogo à mão, por fora, deixou ressaltar a bola, torta e tosca, e cá vai disto.

Os três pontos entraram, ele sorriu que nem criança acaba de descobrir algo novo no mundo e foi abraçado por muita gente. “Foi incrível, especialmente porque nunca o vi tentar isto nos treinos”, disse, no final, Andrew Blades, pilar australiano, menos espantado do que o próprio Larkham: “Pareceu-me terrível quando dei o pontapé. Quando entrou, pensei ‘Meus Deus, acabou’”.

O abertura que sempre jogava de capacete só acertou mais dois pontapés na carreira - em 2006, pela Austrália e de novo contra os sul-africanos, e em 2007, no último encontro que fez com os Brumbies. Para ironizar mais a coisa, o drop mítico do Mundial aconteceu nas barbas de Jannie de Beer, o médio springbok que acertara cinco pontapés de ressalto nos quartos-de-final, frente à Inglaterra. Ainda é um recorde.

O senhor pontapés

Receber a bola, deixá-la cair e batê-la assim que ressalta na relva era prática quase alquimista de Jonny Wilkinson, que instigou como ninguém o medo - o medo por deixar alguém com tempo, e espaço, para bater uma bola aos postes em jogo aberto.

O inglês tímido e de poucas palavras era um médio de abertura com régua no pé esquerdo e esquadro no direito. Só que Wilkinson era canhoto e o pé contrário longe estava de ser cego; e foi com esse que, em 2003, deu o pontapé de ressalto que ganhou o Mundial para a Inglaterra a segundos do final do prolongamento.

Ele, um chutador de eficácia robótica, até tinha falhado um par de drops nessa final porque, afinal, estava a decidir o Campeonato do Mundo na Austrália, contra os anfitriões, e os nervos são substância que perfura qualquer preparação. A minutos do fim, os ingleses investiram contra a defesa australiana, fases atrás de fases de avançados a pegaram na bola e a irem contra a primeira cortina perto dos rucks, só para ganharem metros e alinharem o pontapeador-mor com os postes.

A bola saiu alinhada e suave, sem esforço aparente para passar entre o alvo. "Soube, bastante cedo, que o pontapé ia entrar. O que me surpreendeu foi que, realmente, me perdi no momento. Lembro-me de estar meio a celebrar, mas sem estar a celebrar. Parecia surreal, era quase um sonho. Tive que perguntar a mim próprio 'isto está mesmo a acontecer?' e essa era a minha expressão facial", contaria, entretanto, ao "The Independent", admitindo que a seleção passou "anos e anos" a treinar "uma situação" que pudesse aplicar no campo quando "precisassem de três pontos".

Jonny Wilkinson eternizou-se ao dar com o pé o Mundial, pela primeira vez, a uma nação do hemisfério norte e não poderia ter sido de outra maneira. O inglês ainda é o jogador com mais pontapés de ressalto convertidos (36) em jogos internacionais e apenas Daniel Carter, talvez o mais dotado e talentoso médio que já se dedicou ao râguebi, tem mais pontos marcados (1598 contra 1246).

Ele terá sido um dos tipos mecanizados pela prática e pela eterna repetição. Ficou tão submerso no treino que os anos lhe desgastaram a mente e roubaram a condição essencial ao desporto - o prazer. A saúde mental de Wilkinson deteriorou-se, a ansiedade roeu-o por dentro e o inglês lutou contra uma depressão assim que terminou a carreira.

Confessou que, em 2003, estava "no pico da ansiedade" que julgava recompensador pelos troféus, que vieram, e no prazer, que jamais sentiu depois da tal bola passar entre os postes. Jonny Wilkinson ganhou um Campeonato do Mundo para os ingleses, mas esse pontapé foi mais um a caminho da depressão com que teria que lidar, após se retirar, em 2014. "Vive grande parte da minha carreira a pensar que iria ter alegria através do sofrimento. Mas tudo o que fiz foi criar o hábito de sofrer."

Os três pontos de Mandela

Joel Stransky chutou a bola e virou-se, começou a correr para trás, confiante, deitou para fora uns berros e só lá pelo meio se confirmou que o pontapé foi bom. Ele já o sabia antes de o resto do país se aperceber - e isto não é exagero.

"Olhei para cima, vi como a bola estava a rodar, para onde estava a ir e sabia que não podia falhar".

Quando o drop entrou e deixou a África do Sul a ganhar por 15-12 à poderosa Nova Zelândia, que cavalgara triunfante no Mundial, agarrada à brutalidade das corridas de Jonah Lomu, um país estava prestes a ter o que Nelson Mandela tanto quisera para tentar unir um povo segregado, durante mais de 40 anos, por uma minoria desumana que viu nas cores de pele argumentos para ostracizar a maioria das pessoas de um país.

Os três pontos saídos da bota direita de Stransky deram o Mundial à seleção que apenas tinha um jogador negro, à equipa em quem o primeiro presidente democraticamente eleito viu uma oportunidade para refundar alguma forma de patriotismo que unisse o que o apartheid partira. A história não é do pontapé, é de todo o simbolismo que carregaria. "Aquele simples chuto mudou a minha vida de muitas formas. Todos fomos catapultados para um estrelato de celebridades que significou que a tua privacidade acabou", explicaria o abertura.

A África do Sul em cacos sociais, desunida e cheia de rancor nas ruas teve um motivo para celebrar porque, durante um mês, Mandela apoiou a seleção do desporto associado ao racismo da população branca, apelando a que todos a empurrassem para a vitória, sem que importassem as peles brancas, negras, azuis ou amarelas.

Os springboks (o próprio animal representado no nome, cabra-de-leque, era encarado como uma alusão à segregação racial) conquistaram o Mundial, em 1995, menos de três anos após serem autorizados a competir, de novo, no râguebi internacional - estavam banidos devido ao regime do Apartheid.

O pontapé de Joel Stransky tornou-se lendário por ter retribuído com os pontos que deram uma vitória mais social e política do que, propriamente, desportiva, com Nelson Mandela a festejar, de camisola e boné vestidos, como um mês antes seria inimaginável para a população negra da África do Sul.

  • Olá, râguebi. Eu sou o Jonah Lomu

    Râguebi

    Era anormalmente grande, musculado e rápido para a massa que carregava no corpo. Pedia a bola e, em vez de se esquivar, ia a direito e atropelava, literalmente, quem o tentava placar. O Mundial de 1995 ficou como o ressuscitar da África do Sul, mas, a ser de um jogador, foi do espantoso Jonah Lomu, a primeira estrela global do râguebi. Esta é a primeira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão