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Quando o Japão deu uma lição: é preciso arriscar perder para poder ganhar

A maior surpresa de sempre no desporto em que estas não abundam aconteceu porque, a minutos do fim, com hipótese de chutar aos postes para ter um empate que já seria histórico, o capitão do Japão decidiu arriscar, continuou a jogar à mão e teve o ensaio que derrotou a África do Sul, em 2015. E, para este ano, diz que "o objetivo ideal é ganhar o Mundial". Esta é a terceira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

Diogo Pombo

Julian Finney/Getty

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No râguebi, o capitão está à paisana, despido de braçadeira, não é identificável e dispensa os adornos, para os quais a necessidade é inversamente proporcional à responsabilidade que tem, em campo. A cada falta apitada a favor da equipa, é ele, sozinho, quem decide por todos se chutam aos postes, para um alinhamento – ou se preferem uma mêlée.

Dezassete segundos para lá dos 80 minutos há uma falta, é para os japoneses, pode ser a última decisão que pedem a Michael Leitch no jogo. O apito soa, eles até estão alinhados com os postes e mais sintonizados ainda com a hipótese de porem um dedo na história. O Japão só ganhara um de 24 jogos em Mundiais e perdera todos os outros por uma média de 48 pontos.

Michael é o neozelandês de nascimento, fijiano de ascendência e a viver no Japão desde os 15 que tem de optar. Tem o árbitro à espera de uma resposta. Está a três pontos no marcador de igualar a África do Sul, um dos papões do râguebi, os temíveis bicampeões do mundo contra quem o Japão já marcou dois surpreendentes ensaios e tem a chance de bater um pontapé de penalidade.

Se acertarem, os japoneses empatam e o jogo acaba, igual no marcador, mas triunfante para os de olhos rasgados por causa da surpresa. Mas Michael Leitch não o quer: “Preferia afundar-me a tentar desafiar a África do Sul em vez de chutar aos postes, falhar e arrepender-me para o resto da minha vida”.

O árbitro ouve a decisão, gesticula para a traduzir ao mundo, ouve-se o espasmo de entusiasmo no estádio, em Brighton. Lá em cima, na tribuna, o irascível Eddie Jones berra contra a decisão de quem treina, ainda mais alto do que antes gritara, lá para baixo, onde queria fazer chegar a mensagem para chutarem aos postes.

Os japoneses vão arriscar morrer à beira da história para tentarem ser a surpresa nascente do Mundial de 2015 - e, na verdade, do râguebi.

Eles jogam à mão, mantêm-se compactos, pedem aos mais matulões para embalarem em linhas de corrida junto aos rucks, apontam ao contacto, colidem como os sul-africanos estão programados para aguentar. Não arriscam abrir a bola por aí além, temem erros em mãos amanteigadas pelos nervos, adiam essa opção até à sétima fase do último ataque do jogo.

Vão da esquerda à direita em pequenos passos. E só vão com tudo quando se encostam à linha e sentem os adversários ali aglomerados, fatigados no corpo por tanta placagem por minuto, esgotados na cabeça por tamanha concentração exigida para aguentarem cargas sucessivas dentro dos seus 22 metros de campo. Até que os japoneses abrem a bola de um lado ao outro, os passes são longos, para chegar às mãos de Karne Hesketh.

Ele acelera e pula para a área de ensaio. Estica o braço no ar quando ainda desliza na relva. Mal se levanta, vários japoneses afogam-no em abraços, todos se viram para a bancada mais perto, onde se juntam muitos adeptos japoneses e festejam à frente de cidadãos em lágrimas compulsivas de alegria. O Japão ganha por 34-32 à África do Sul.

As câmaras apanham idosos a chorarem que nem crianças. Imitam os jogadores, incrédulos com o feito, de lágrimas na alegria. Eddie Jones desce ao relvado e “nunca [viu] tantos homens adultos a chorarem”. O filho de mãe japonesa emigrada na Austrália está no meio de uma “cena inacreditável”, do culminar de ousadia que, desde então, fez o número de jogadores de râguebi aumentar entre os 150 e os 200%.

Os japoneses, por definição, pequenos e não altos, fortes e estampados com grande físico, como os sul-africanos - o médio de formação Fumiaki Tanaka era o jogador mais baixo e leve da competição -, inventaram a maior surpresa da história oval. Pasmaram quem os via com um estilo rápido, com muitos passes e frenético no jogo à mão, ganharam ainda aos EUA e ao Tonga, mas perderem com a Escócia.

A conjugação de pontos e critérios de desempate fê-los serem, também, a primeira seleção com três vitórias a não sair da fase de grupos de um Mundial, por muito que Michael Leitch, naturalizado capitão que diz falar melhor japonês do que inglês, arriscara fugir à derrota e virara o rabo à seringa do empate.

Os japoneses tiveram a coragem de tentar ganhar. E ele, bom teimoso, continua a soprar no balão da ousadia enquanto não entram em campo: "Queremos chegar aos quartos-de-final, mas, idealmente, queremos ganhar o Mundial. É uma frase ultrajante, mas muda todo o teu comportamento".

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