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Nasci fora? Não há problema, dizem 138 jogadores que vão estar no Mundial

Os critérios da World Rugby para aceitar alguém que jogue por uma seleção que não a do país de nascimento são mais levianas do que, por exemplo, o futebol. É por isso que poucas são as nações que não levarão alguém naturalizado ao Japão e continuam a aproveitar uma faceta do râguebi que começará a ser apertada já em 2020. Esta é a quarta de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

Diogo Pombo

David Rogers - RFU

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Manu Tuilagi estava habituado ao caloroso clima do Pacífico Sul, que o fazia ansiar por sair da escola, chegar a casa, despir o uniforme, descalçar os pés ir raiar tempo livre fora, bastando que “a mãe e o pai soubessem, mais ou menos, onde estavas”.

Vinha da vida despreocupada da Samoa, dos cocos, das palmeiras, dos troncos de árvores no chão, das garrafas cheias com folhas para brincar ao futebol e das corridas na areia da praia. Manu forçava-se a ser um atinado menino, esperava pelas sexta-feiras, último dia de escola, único quotidianamente autorizado para as crianças jogarem râguebi. Se apanhadas antes, garantiu ao "Daily Telegraph", levavam “um tareia, com paus e tudo”.

Quando chegou a Leicester era dezembro, um frio de rachar os ossos, pessoas com o mínimo de pele possível à mostra, gente encasacada e o céu acinzentado por nuvens. Tinha 13 anos e foi com um visto de seis meses para Inglaterra, direto à cidade onde já moravam Anitelea, Alesana, Henry, Sanele e Freddie.

Manu cresceu, os genes polinésios armaram-lhe o corpo aos músculos, ficou com condições físicas invulgares no meio britânico, virou uma potência de râguebi, mas contrariou o que os cincos irmãos mais velhos tinham feito.

Escolheu jogar por Inglaterra.

O atual Manu está a treinar no Japão com a única seleção europeia a ganhar um Mundial, mais adulto, maduro e ponderado. Ele já mergulhou de cabeça de um ferryboat e ser detido pela polícia, como em Auckland, pleno Mundial de 2011, ou esteve perto de não ser convocado antes do mundial de 2015, por agredir duas agentes da polícia e um taxista.

Acalmando a vida e excluindo os desvarios enquanto cidadão, Manu Tuilagi conseguiu ser um dos 138 jogadores deste Campeonato do Mundo a representarem seleções que não a do país onde nasceram. Beneficiam das regras não tão rígidas quanto isso da World Rugby, que criaram condições para apenas a Argentina, o Uruguai e a Namíbia não terem naturalizados entre 20 seleções.

Michael Leitch é o capitão da seleção japonesa que nasceu na Nova Zelândia e emigrou para o Japão quando tinha 15 anos.

Michael Leitch é o capitão da seleção japonesa que nasceu na Nova Zelândia e emigrou para o Japão quando tinha 15 anos.

Koki Nagahama

A 31 de dezembro de 2020, o prazo mínimo de residência aumentará para cinco anos e com efeito retroativo. Portanto, um jogador com ideias de jogar por outra seleção já terá fixado arraiais nesse país desde dezembro de 2017, para respeitar as novas regras que aí vêm.

Manu Tuilagi está há 15 anos a habituar os ossos ao gélido inverno inglês, é mais do que cumpridor numérico dos critérios. O pais deram-lhe o nome de um lendário guerreiro samoano, por sinal o mesmo pelo qual se trata a seleção da (Manu) Samoa, porque ele nasceu em 1991 e esse foi o ano em que um dos irmãos foi convocado para jogar um Mundial.

Se mexerem no que vai dentro de Tuilagi, talvez ele diga algo parecido ao que disse, há dias, ao “Daily Telegraph”, confessando que Inglaterra lhe é “especial”, mas que tem “a casa e o coração em Samoa”, onde “toda a gente o vai estar a ver” tentar “ganhar o Mundial” com a seleção inglesa, que tem mais cinco jogadores ‘estrangeiros’.

Dois são os manos Billy e Maku Vunipola, personificadores da miscelânea de opções que o sangue lhes dá e as regras do World Rugby apimentam: Tonga é país dos pais, Austrália é onde Billy nasceu, o parto de Maku aconteceu na Nova Zelândia e ambos podiam ter escolhido Gales ou Inglaterra pelos vários anos em que lá viveram quando rumaram à Europa.

Como eles, há exemplos vários e espalhados por toda a parte, como o ponta Sevu Reece (Fiji) na Nova Zelândia, o também ponta ou centro Virmi Vakatawa (Fiji) na França, o formação Will Genia (Papua Nova Guiné) na Austrália, o flanqueador CJ Stander (África do Sul), na Irlanda, e o formação Willi Heinz (Nova Zelândia), que ficou com a vaga de Danny Care e fez o inglês de gema opinar sobre o assunto: "Não tenho nada contra o Willi, é um tipo simpático. Não sabia que tinha aspirações de jogar por Inglaterra, nem sabia que o podia fazer. Quando isto te acontece, de facto, dói".

A seleção inglesa, contudo, não é a Escócia, que tem 14 jogadores nascidos fora de fronteiras (sobretudo britânicos), nem a Austrália, com a maior parte dos 12 ‘estrangeiros’ vindos das ilhas do Pacífico Sul, ou Gales e Itália, ambos com oito tipos vindos, originalmente, de outras nações.

Só mesmo os argentinos, os uruguaios e os namibianos podem olhar para o lado quando ouvirem o hino nacional e saberem que todos nasceram no mesmo sítio.

  • Quando o Japão deu uma lição: é preciso arriscar perder para poder ganhar

    Râguebi

    A maior surpresa de sempre no desporto em que estas não abundam aconteceu porque, a minutos do fim, com hipótese de chutar aos postes para ter um empate que já seria histórico, o capitão do Japão decidiu arriscar, continuou a jogar à mão e teve o ensaio que derrotou a África do Sul, em 2015. E, para este ano, diz que "o objetivo ideal é ganhar o Mundial". Esta é a terceira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

  • Futebol, pé. Basquetebol, mão. Râguebi, também pode ser pé

    Râguebi

    Jonny Wilkinson deu um Mundial à Inglaterra batendo a bola aos postes, em 2003, Stephen Larkham deu um pontapé a 48 metros de distância quando todos lhe disseram para não o fazer, em 1999, e Joel Stransky deu uma alegria a Nelson Mandela em 1995. Esta é a segunda de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

  • Olá, râguebi. Eu sou o Jonah Lomu

    Râguebi

    Era anormalmente grande, musculado e rápido para a massa que carregava no corpo. Pedia a bola e, em vez de se esquivar, ia a direito e atropelava, literalmente, quem o tentava placar. O Mundial de 1995 ficou como o ressuscitar da África do Sul, mas, a ser de um jogador, foi do espantoso Jonah Lomu, a primeira estrela global do râguebi. Esta é a primeira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão