Tribuna Expresso

Perfil

Râguebi

Acho que nunca nos conhecemos, mas eu sou Nigel Owens, o árbitro, e isto não é futebol

O melhor árbitro do mundo é galês, tem 47 anos, apitou a final do Mundial de há quatro anos, o jogo inaugural deste e foi o primeiro homem a assumir, publicamente, a sua homossexualidade no râguebi. Depois de tudo isto, Nigel Owens ainda é quem mais e melhores tiradas diz durante os encontros, e todos o podemos ouvir porque quem apita tem microfones que espalham o som pelo estádio. Esta é a última de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica sobre o Mundial de Râguebi do Japão, que arrancou esta sexta-feira

Diogo Pombo

Anthony Au-Yeung/Getty

Partilhar

Passa das três da manhã, a noite ainda é escura, ele acorda. Tenta abafar o ruído a um mínimo, pé ante pé em casa para se preparar e não acordar os pais. Deixa-lhes uma carta. Sai de casa e caminha até ao topo de Bancyddraenen, montanha perto de Mynyddcerrig, a sua aldeia no oeste de Gales, onde as consoantes se escrevem seguidas.

Chega lá acima, senta-se no chão, abre a caixa de comprimidos para dormir e engole-os, todos, bebendo whisky. Perde o tato ao tempo, a quanto terá passado até o pai e a mãe despertarem, encontrarem a carta, lerem que “a única solução é tirar a minha própria vida”, entrarem em pânico. O corpo de Nigel Owens tomba e, no peito, tem uma caçadeira carregada, apontada ao queixo, caso a overdose de drogas não resultasse.

Foi assim, em 1997, que por milagre encontraram um homem de 26 anos, bulímico, enjaulado na distorcida perceção própria de que estava gordo, envergonhado por perceber que era gay e a marcar consultas para dizer a um médico que "queria ser castrado quimicamente", suplicando por uma cura. Estava depressivo no medo dos estereótipos e julgamentos pré-feitos do râguebi macho, a deixar-se erodir, aos poucos, em culpa própria, até acordar numa cama de hospital, os pais o visitarem e ouvir da boca da mãe:

“Se voltares a fazer uma coisa destas, podes levar-me a mim e ao teu pai contigo”.

O Nigel a afundar-se em dúvidas próprias, afogado em vergonha, medroso de como poderia ser percecionado, começou a aceitar-se, a ser, consequentemente, um melhor árbitro de râguebi, porque em Gales “há um ditado que diz que um árbitro feliz é um bom árbitro”, disse-o ele, à revista “GQ”, muito depois de 2007, quando assumiu publicamente a homossexualidade e se permitiu a alegrar-se.

Richard Heathcote - World Rugby

Nigel Owens tem 47 anos, já contou a sua quase trágica história em autobiografia, apitou cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, mais de 80 jogos internacionais entre seleções. Esteve no primeiro jogo do Mundial, esta sexta-feira, e na final do último, em 2015, se provas faltassem de que é o melhor e mais respeitado árbitro no râguebi. Mas, se “pudesse trocar tudo isso por uma vida pacata e normal”, o galês “fá-lo-ia, acreditem”.

Ele teima tipos com músculos hercúleos, candidatos à distinção de desportistas com os maiores arcabouços do planeta, que se juntam aos 30 de cada vez num campo onde o bruto contacto físico é inevitável e o sangue quente, portanto, expectável.

E diz que tudo é normal e não poderia ser de outra forma. “Um dos valores fundamentais do râguebi é o respeito, que te é instilado quando és jovem, para ires a um jogo e respeitares os adversários, o árbitro e as decisões. Quando eles ficam com 2 metros e 120 quilos, esse respeito já faz parte deles”, explicou, ciente de que, por outro lado, é respeitado, encarado e conhecido por “ter lidado tão abertamente com períodos difíceis” da sua vida.

E, também, por ter o feitio que tem quando está equipado e a trabalhar.

O miúdo que, aos 14 anos, se inscrevia em clubes de comédia para tentar a sorte em stand up, esforçando-se para fazer rir quem tinha à frente, é o homem que arranca sorrisos em campo sem intenção, por ser apenas quem é - e por o râguebi prender microfones nas lapelas dos árbitros para que o estádio e a transmissão ouçam o que é decidido, e porquê.

Em 2012, os irlandeses do Munster jogavam contra os italianos do Treviso, na Taça Europeia, o galês apitava-os e ouvia, insistentemente, um jogador a queixar-se. Era Tobias Botes, um sul-africano recém-chegado ao râguebi deste lado do mundo, que o obrigou a parar o jogo para lhe dizer: “Acho que nunca nos conhecemos, mas eu sou o árbitro. E isto não é futebol”.

Nigel Owens já era conhecido, aí começou a tornar-se famoso.

No último Mundial, interrompeu o jogo perguntar ao vídeoárbitro por uma suposta penalidade, ver que nada o justificara e chamar Stuart Hogg, defesa escocês, para lhe dizer que fizeram “um claro mergulho” e, “cuidado”, se quisesse repetir, que fosse “não hoje, mas daqui a duas semanas”. O jogo era no St. James Park, estádio do Newcastle United, equipa da Premier League inglesa.

Em 2014, o talonador Dave Ward, dos Harlequins, atirou a bola tão torta para um alinhamento, onde é suposto entrar em linha reta, entre os jogadores, que Nigel apitou e não evitou acrescentar uma piada. “I’m straighter than that one”, disse, balançando o sarcasmo entre o significado (direito) e o sinónimo (heterossexual) de straight.

Nigel é afamado pela forma como apita e o estilo vocal com que o faz. Está no Japão para apitar o seu (provável) último Mundial, para se preparar para deixar o râguebi, parar de viajar a toda a hora e, por fim, assentar e parar de se dedicar à arbitragem - “As pessoas dizem-me que sou corajoso, mas, à noite, vou para casa e estou ali deitado, sozinho, a pensar para mim: ‘Sou corajoso, ou apenas um tolo?”

  • Nasci fora? Não há problema, dizem 138 jogadores que vão estar no Mundial

    Râguebi

    Os critérios da World Rugby para aceitar alguém que jogue por uma seleção que não a do país de nascimento são mais levianas do que, por exemplo, o futebol. É por isso que poucas são as nações que não levarão alguém naturalizado ao Japão e continuam a aproveitar uma faceta do râguebi que começará a ser apertada já em 2020. Esta é a quarta de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

  • Quando o Japão deu uma lição: é preciso arriscar perder para poder ganhar

    Râguebi

    A maior surpresa de sempre no desporto em que estas não abundam aconteceu porque, a minutos do fim, com hipótese de chutar aos postes para ter um empate que já seria histórico, o capitão do Japão decidiu arriscar, continuou a jogar à mão e teve o ensaio que derrotou a África do Sul, em 2015. E, para este ano, diz que "o objetivo ideal é ganhar o Mundial". Esta é a terceira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

  • Futebol, pé. Basquetebol, mão. Râguebi, também pode ser pé

    Râguebi

    Jonny Wilkinson deu um Mundial à Inglaterra batendo a bola aos postes, em 2003, Stephen Larkham deu um pontapé a 48 metros de distância quando todos lhe disseram para não o fazer, em 1999, e Joel Stransky deu uma alegria a Nelson Mandela em 1995. Esta é a segunda de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão

  • Olá, râguebi. Eu sou o Jonah Lomu

    Râguebi

    Era anormalmente grande, musculado e rápido para a massa que carregava no corpo. Pedia a bola e, em vez de se esquivar, ia a direito e atropelava, literalmente, quem o tentava placar. O Mundial de 1995 ficou como o ressuscitar da África do Sul, mas, a ser de um jogador, foi do espantoso Jonah Lomu, a primeira estrela global do râguebi. Esta é a primeira de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica até sexta-feira, dia em que arranca o Mundial de Râguebi do Japão