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O lado negro da lua oval

Os sul-africanos começaram intensos, duros e pressionantes sem bola, com muitos pontapés territoriais a empurrarem os neozelandeses para trás. Mas, ao primeiro erro alheio, os All Blacks farejaram hesitação, marcaram 17 pontos em cinco minutos (na primeira parte) e arrancaram para uma daquelas vitórias (23-13) que lhes surge, mesmo quando não jogam em modo-deus

Diogo Pombo

Adam Pretty/Getty

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Alguma vez tiveram que estar imóveis, a encarar um pouco à distância, mas a olhar, para vinte e tal corpulentos neozelandeses, todos vestidos integralmente de negro e a fazerem caretas mais do que feias, ameaçadoras, como que a quererem guerrear, línguas de fora e olhos esbugalhados?

Os sul-africanos já, várias vezes. Por isso sorriem, riem ao de leve, talvez ativem a genica interior e acordem os bons nervos para o jogo ao assistirem, tão de perto, ao haka que canaliza os genes mais desafiadores do maori interior que existe em cada neozelandês, antes de cada jogo.

A boa-disposição na cara de quem assistia ao ritual entender-se-ia melhor, pouco depois, quando Beauden Berratt chutou o drop inicial e deu a bola aos sul-africanos. Eles tinham um plano de jogo muito específico, a confiar no truque de manter a intensidade alta a defender, avançar muito com a linha e pressionar logo as saídas dos rucks.

Durante 20 minutos roubaram o oxigénio a quem mais pulmões tem para o respirar. Aaron Smith, o formação neozelandês que em forma, com tempo e espaço, é o melhor filtrador de bolas do mundo, nem dois segundos tinham para dar o primeiro passe.

Faf de Klerk, o pequeno e loiro nove da África do Sul, tinha esses segundos mas usava-os, muito, para bater pontapés altos que caíssem o mais possível sobre Sevu Reece ou George Bridge, os novatos que nem 20 internacionalizações tinham entre eles, e o menos possível em Barrett, um fura-linhas perigoso se deixado embalar. Também Handre Pollard, abertura mais de pé na bola do inventor de jogadas à mão, acompanhava-o.

E os neozelandeses faziam faltas, Pollard marcava três pontos no primeiro minuto, não tinham ataques com mais do que cinco fases e raramente um placador all black conseguia impedir que um adversário avançasse vários metros, mesmo no contacto. Eles estavam estranhamente perros.

Até que De Klerk falhou um passe. Um erro.

Mo'unga quase marcou ensaio, ficou a metros, quebrou pela primeira vez a bruta pressão sul-africana e o suave odor a quebra de ímpeto bastou. Os neozelandeses cheiraram hesitação, forçaram o jogo rápido à mão, atacaram os canais e, em três minutos, George Smith e Scott Barrett marcaram dois ensaios. De Klerk começou a dar muitos passes medianos, a deixar gente ir torta, desequilibrada ou abrandada ao choque.

Adam Pretty/Getty

O 17-3 ao intervalo era a história de um plano de jogo estável e bem executado, mas com prazo de validade até ao primeiro erro surgir.

A Nova Zelândia parecia ter atinado o ritmo, por fim a saírem-lhe as linhas de corrida e os passes para as encontrarem, mas, enfim, o erro. Quando erraram como erram infantis que estão a aprender - não puseram vivalma a disputar um ruck a menos de 10 metros da área de ensaio -, Pieter-Steph do Toit pegou na bola e arrancou para o 17-10 que viraria um 17-13 pouco depois, com um pontapé de ressalto vindo da bota de Pollard.

Com 20 minutos em falta criou-se uma incerteza. Os sul-africanos ficavam a um ensaio convertido de um empate não tão improvável quanto isso, porque mesmo sem grande capacidade para bater a linha da vantagem, à mão, para lá dos raides ágeis do ponta Cheslin Kolbe, as investidas dos avançados conseguiam puxar a equipa para perto dos 22 metros dos all blacks.

Mas faltou-lhes definição, mais ideias para evadir placagens, outra abordagem além das linhas de corrida úteis, embora sempre a direito, de Damian De Allende, ou do marasmo passador em que Pollard ainda se refugia.

A não progressão onde mais era necessária banalizou as posses de bola da África do Sul, que, aos poucos, mirrou no último quarto de hora perante o típico aumento de ritmo da Nova Zelândia, quando vai buscar ao banco TJ Perenara, Ben Smith ou Sonny Bill Williams, campeões mundiais e tipos capazes que carregam quando o adversário está a decair.

Um penalidade convertida por Barrett descansou-os perto do fim e os neozelandeses limitaram-se a reciclar a posse de bola, multiplicando as fases e aguardando que faltas fossem cometidas, e foram. Ganharam (23-13) sem particular brilho, ostentação ou caviar polvilhado sobre as jogadas, como as expetativas sempre lhes pedem.

Superaram uns sul-africanos imaculados de erro durante tempo insuficiente e, no fim, alinharam-se diante de um das bancadas e, em sintonia, fizeram uma vénia, por respeito ajustado à tradição japonesa. Os neozelandeses gesticularam um obrigado e umas boas-vindas - é este o lado negro da força oval.

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    Râguebi

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